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terça-feira, 19 de maio de 2026

"Gosto de melros, os espertotes..."


«Gosto de melros, os espertotes, ladinos, com aquele jeito preto de recalcitrar de lado. Há poucos pelas relvas de Lisboa, não sei se da concorrência de pardais fura-vidas e pombalhões abafa-espaços, se duma vontade de saltitar ao de leve por outras bandas.

Ainda assim, aparecem uns tantos na feira do livro, a lavrar no parque. Negrejam aos picos no verde, dão-se a uns desenfados de voejo breve, armados em superiores. Bonito bicho, de muita inspiração literária. Ele é o Jean-Baptiste Clément, ele é o Junqueiro…

Não há melros num espaço fechado, num armazém tristonho e esquadrinhado de encontrões sem sol. Todos os anos aquele para-baixo e para-cima, os encontros de fulano e cicrano, as capas que amadurecem de ano para ano, a luz explosiva de Lisboa, os revérberos, o Marquês que medita, as frondes da avenida, o Tejo glauco a fechar as vistas.

Tenho estado em salões, por essa Europa. Salões, salas grandes, com o seu quê de fábrica e hangar. Em parte nenhuma há esta cor, esta brisa, este céu, esta extensão clara, esta alegria. Mude-se o que houver a mudar. O espaço, deixar estar».


[Mário de Carvalho, in "Os Livros no Parque"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 7 de fevereiro de 2026

"Dizia, orgulhosamente, que devia ser o único lisboeta que jamais saíra da sua cidade..."


«Júlio Verne dizia, aos sete ventos, que quase tudo o que aprendera sobre o mundo fora nas mesas de café.
Mas a faceta mais curiosa e inimaginável da sua vida, era o facto deste artista surrealista alfacinha nunca ter saído de Lisboa. Dizia, orgulhosamente, que devia ser o único lisboeta que jamais saíra da sua cidade.
Júlio nem sequer tivera a tentação de atravessar o Rio Tejo em qualquer barca para apreciar as saborosas mariscadas de Cacilhas... quanto mais envolver-se em outras viagens por esse mundo fora. [...]»
 
[Luís Alves Milheiro in "Um Café com Sabor Diferente"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Atravessar o Rio era uma aventura sem parágrafos..."


«Vez por outra, o meu pai levava-me até à Trafaria. Atravessar o rio era uma aventura sem parágrafos. Colocava-me na amurada do vapor e seguia o doce movimento das ondas, perdidas em outras ondas e em espuma e em salpicos. As gaivotas soltavam gritos estridentes e poisavam levemente nas águas, procurando comida, ou seguiam em bando a uns metros da popa do barco. O barco deixava um sulco borbulhante nas águas. Os meus pensamentos voavam, iam para longe, e eu era um capitão nos Mares da China, um bandeirante na selva, um aviador destemido, um caçador de leões.»

Baptista-Bastos in "A Bolsa da Avó Palhaça"] 


(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"Dias bonitos e cruéis..."


«[...] Doem-lhe as pernas de tanto andar. Mais ainda lhe dói o peito, opresso, de tanta humilhação que tem enxugado, tanta indiferença a repeli-lo. Lá do cimo da Ajuda, onde mora ainda com os pais (sem isso como sobreviver?) vira logo de manhã o cavalo cor-de-rosa da alvorada empinar-se sobre o Tejo, esparzindo com os cascos as suas chamas subtis. Podia ser bom sinal. Mas não. Os dias bonitos até são às vezes os mais cruéis. [...]»

 

[Urbano Tavares Rodrigues, in “O Adeus à Brisa”]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"Carlos Botelho é o pintor de Lisboa"


«[...] Carlos Botelho é o pintor de Lisboa. Não o único, bem entendido, embora seja  porventura o mais fascinado, e é por isso também que existem muitas Lisboas. Esta de Carlos Botelho, quase sempre plácida e luminosa, quase sempre castiça e extasiada, um presépio róseo em que o objecto de adoração é o rio - um rio-veleiro, um rio-viagem, um rio-pasmo. [...]»

[Fernando Namora, in "Jornal sem Data"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 17 de maio de 2025

"Duas Faluas perdidas no Tejo"...


«Vagavam no Tejo duas faluas perdidas, as quais soturnamente homenageavam as antigas caravelas que haviam percorrido a esfera do Mundo. Sentava-se ainda uma varina desolada, tentando vender os sobejos da última safra, praticando preços que ninguém conseguia pagar. E apetecia-me cobrir o rosto, tomado por vergonha das lágrimas e pelo desejo de nada ver.»

[Mário Cláudio, in "As Batalhas do Caia"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


domingo, 25 de fevereiro de 2024

"Ficou ainda a música no ar..."


«Havia um contraste muito forte entre a tua imagem e o azul do rio bastante largo para parecer um mar. Digamos que não era bem o teu corpo que me afligia mas sim tu que estavas nele e eu não conhecia. Veio um cego de acordeão cheio de sol e houve música também entremeada à luz. Um criado expulsou-o mas ficou ainda a música no ar, e toda a gente, pareceu-me, ficou contente com a música que não ouviu mas se espalhou na esplanada, agora sem a cegueira triste do homem que a fez existir. E eu sorri porque tu paraste depois de algumas garfadas e ficaste a olhar o invisível.»


[Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"]


(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, 19 de julho de 2023

"Toda a bacia do rio, feito um mar, se limpou, se alisou, se esmaltou de preciosas cores e nelas corriam as microscópias velas brancas das faluas"


«Recordo a última tarde que fui a Penha de França. Era em Agosto e a atmosfera enovoada, mas de finíssima cinza, não de pérola transluzente, baralhava as linhas da larga paisagem. O rio mal se distinguia da terra pela aglomeração de bagos de arroz, de pedacitos de cal, onde se denunciavam a custo as povoações da beira-de-água. A noroeste ondulavam com branduras de feltro as serranias que rematam em Sintra, a qual, orgulhosa e teimosa, sempre recortava o céu com o seu característico desenho, mais agudamente e miudamente dentado no castelo. Um bafo, leve, de brisa joeirou a cinza ténue do Sol que ao declinar jorrava oiro vermelho pelo boqueirão da barra. Toda a bacia do rio, feito um mar, se limpou, se alisou, se esmaltou de preciosas cores e nelas corriam as microscópias velas brancas das faluas, tão numerosas, tantas, perseguindo-se, cruzando-se, roçando-se, quase sopradas e caídas aos molhos.»

[M. Teixeira Gomes, in "Agosto Azul"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa com outras "faluas"...)


terça-feira, 11 de julho de 2023

"Tornaremos a atravessar o rio"...


«Tornaremos a atravessar o rio, que grande mar, e um senhor que vai no barco diz com muito bom modo, isto aqui é o Tejo, o mar é além, e apontou, e então é que reparámos, não se via terra, será possível. Quando desembarcarmos no Montijo ainda andaremos quantos quilómetros, oito, até ao aposento do nosso trabalho, gastou-se tanto dinheiro, mas valeu a pena, e quando voltarmos a Monte Lavre vamos ter muito que contar, para que não se diga que a vida não tem também coisas boas.»

[extraído de um dos capítulos do romance "Levantado do Chão" do nosso Nobel, José Saramago]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


segunda-feira, 10 de julho de 2023

"Rio Tejo" (felizmente voltou a ser nosso...)


«Mesmo que o Mercado da Primavera não tivesse outro interesse, tinha, sem dúvida, um e importante, o de nos proporcionar durante o tempo da visita, uma nesga do rio Tejo, e de podermos comer ou tomar um café, ali, com o rio por assim dizer aos nossos pés.

Este Tejo é, de facto, um rio abandonado pelos deuses dos rios. Está quase todo tapado, vedado, escondido, armazenado, por assim dizer, lá para o fundo da cidade. Fábricas, estaleiros, sei lá, tudo serve para que o não veja o lisboeta nem mesmo o turista - é bom não esquecer o turista, o sol e o céu azul não bastam para o atrair, é bom ajudar um pouco. E o Tejo... para o observarmos de perto temos de ir por aí fora para as bandas de Vila Franca, ou então desembocar da auto-estrada em Caxias, onde ele ainda não é mar mas também já não é rio.»

[parte inicial de uma das memoráveis crónicas de Maria Judite de Carvalho, imortalizadas no livro, "Este Tempo", datada de Junho de 1971]

Nota: Felizmente já neste novo século conseguimos resgatar o Tejo, voltámos a ter as suas margens libertas, para todos nós o pudermos usufruir...


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 28 de maio de 2022

A "Cidade Branca" de Adília Lopes


Adília Lopes é uma poeta de Lisboa que nos oferece alguma dose de loucura e de beleza nas suas palavras, diferentes, com uma marca muito pessoal, como nesta sua Cidade Branca.


Cidade branca 
 
Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu
 
Cidade negra
como um beco
 
Cidade desabitada
como um armazém
 
Cidade lilás
Semeada
de jacarandás
Cidade dourada

semeada
de igrejas
 
Cidade prateada
semeada
de Tejo
 
Cidade que se degrada
cidade que acaba
 
Adília Lopes


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

"A Enseada Azul do Tejo"

 

«Para lá deste tumulto de formas e cores, rasga-se em frente a enseada azul do Tejo, tão ampla e tamisada de tons que logo funde tudo e mais em seu esplendor e vastidão.

A vista corre, lés a lés deste vasto cenário, desde a barra e o mar até às vastas lezírias do Ribatejo, que já mal se lobrigam ao nascente. Entre a barra e o pontal de Cacilhas, apertado a sul pelas colinas baixas da Trafaria, Lazareto e Almada, estende-se o canal do rio, dum azul intenso e concentrado. Logo, e de chofre, o Tejo abre a enseada imensa, que mais diríamos um lago, tão remansoso e fechado nos fica a toda a volta. Para lá do pontal, mais abrigada, a enseada do Alfeite espelha as águas límpidas e quietas dum azul leitoso.»


                                                           [Jaime Cortesão, “O Jornal”, 22 Ago 86]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)



domingo, 20 de junho de 2021

"Ó Minha Cidade Bela"


Porque hoje se comemora o centenário no nascimento da escritora, Matilde Rosa Araújo, publico aqui com a devida vénia, o seu bonito poema, "Ó Minha Cidade Bela", do seu livro, "O Cantar de Tila":


Ó minha cidade bela

 Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
Meu coração é um navio,
P'las ruas a navegar.

Ó minha cidade bela,
Feita de mar e de rio:
Teus passeios são as ondas
Eu lá vou com meu navio!

Já sou uma senhorinha
Tenho sapatos de salto:
Ó minha cidade bela,
Já navego no mar alto!

Já navego no mar alto!
Sem ninguém à minha beira:
As cores do meu navio
São flores de laranjeira!

Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
É tão branco o meu navio
Não o deixes naufragar!


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

"A presença liquida do Tejo faz parte da minha vida"


«Abro a janela do meu minúsculo apartamento na Graça, mais ninho de águia ou caixa de fósforos que outra coisa...

A presença liquida do Tejo faz parte da minha vida. É a minha auréola de graça desde a Ponte Vasco da Gama até ao Cristo-Rei que vejo ao lado duma ameia do Castelo de São Jorge...

O Tejo é agora um grande rio caudaloso de vinho que me atormenta...

Então à noite, oiço-o chamar-me...

É uivo de cacilheiro... Mugido de rebocador... Vozeirão de paquete...»


[Manuel da Silva Ramos, "O Sol da Meia Noite"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa/ Tejo)


domingo, 19 de janeiro de 2020

"E todos os azuis me lembram as águas de um rio..."


«[...] E todos os azuis me lembram as águas de um rio que, em Lisboa, nem chega a ser rio porque, como dizia a minha querida Amália; "dali a bocadinho já é mar".
De tantos rios onde o meu olhar navegou, nenhum tem esta coisa de ser quase mar, e não é pela proximidade da foz ou pela sua imensa largura, é que ele tem mesmo uma atitude de mar. Por isso o Fado se apropriou tantas vezes da sua personalidade marinha para falar dos naufrágios mais violentos que um coração pode suportar. [...]»


Pequeno excerto da crónica "Manhãs de Insónia" (com o título "Por tua Causa") de Tiago Torres da Silva, publicada no "Jornal de Letras" a 20 de Dezembro de 2006.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Tejo que Levas as Águas...


Manuel da Fonseca, poeta e contista, escreveu, Adriano Correia de Oliveira, um dos nossos melhores baladeiros, cantou...

Começa assim:


Tejo que levas as águas
correndo de par em par

lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar

[...]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, 9 de julho de 2019

Vozes, Olhares e Memorações...



José Cardoso Pires, abre o seu "Lisboa Livro de Bordo - vozes, olhares, memorações", com um excelente texto sobre Lisboa e o Tejo.

«Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa dos ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para o oceano. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.»

(Fotografia de Luís Eme)


sexta-feira, 31 de maio de 2019

Lisboa Revisitada...


Fernando Álvaro de Campos Pessoa revisitou Lisboa, com os olhos presos no Tejo:



Lisboa Revisitada

[...] 
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
[...]


[Álvaro de Campos, in "Poemas"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 18 de maio de 2019

Sentado a Olhar os Cacilheiros...



«[...] Quando chegou a casa eram quase sete horas. Tinha-se demorado um bom bocado no Terreiro do Paço, sentado num banco, a olhar os cacilheiros que iam para a outra margem do Tejo. Estava um belo fim de tarde, e Pereira quis ficar a gozá-lo. Acendeu um charuto e aspirou o fumo avidamente. Estava sentado num banco em frente ao rio e junto dele veio sentar-se um mendigo com um acordeão que começou a tocar velhas canções de Coimbra. [...]»


[Antonio Tabucchi in "Afirma Pereira"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, 11 de maio de 2019

Não, Tejo... Sou eu...



[...]
Não, Tejo,
Não és tu que em mim te vês.
- Sou eu que em ti me vejo!
Tejo desta canção, que o teu correr
Não seja o meu pretexto de saudade.
Saudades tenho sim, mas de perder,
Sem as poder deter,
As águas vivas da realidade!

Não, Tejo,
Não és tu que em mim te vês.
- Sou eu que em ti me vejo!


[Alexandre O’Neill]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)