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sábado, 26 de abril de 2025

Para um Operário da Lisnave


Para um Operário da Lisnave

Sou um operário!
Amarra certa
neste cais de angústia.

Olho o casco azul
de um navio do mundo
sonho por momentos
com viagens que nunca farei.

Sem trabalho
aqui estou frente ao Tejo

Mas permaneço
vigilante.

Maria Rosa Colaço

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, 21 de julho de 2021

"Quintal do Meu Olhar"

 


Quintal do Meu Olhar

Meu humilde rio, meu companheiro, quantas vezes te tenho
sido ingrata
                 e pensado; que pena não seres o mar
o alto mar selvagem!
                Confesso que lhe apeteço
o sem limite
                sem casas sem casos sem coisas
sem nada
                Mas tu és o amplo quintal do meu olhar
quotidiano
                onde crio minhas soltas gaivotas com o milho
dos meus versos
                A líquida selva do mar não consente 
as diárias labutas os pequenos júbilos do pobre bicho
que somos
            Desculpa a ingratidão de às vezes te desejar maior 
mais possante mais sozinho
            És tão meu amigo!
            No ir e vir dos pequenos barcos afadigados
me dás constantemente de vaia
            e ofereces-me as brancas 
flores de espuma em que te desentranhas enquanto
te vão sulcando
            As tuas gruas e os teus guindastes sempre em sereno
movimento dão-me exemplos de apego 
à vida
            Anima-te!
            Gritas à minha tristeza
sem interromper a tua lida
            de fato de ganga e flor na orelha 
sempre jovem
            Não mudaste desde que te conheço
Que fazes para não envelhecer?
            Talvez um dia destes quando a Lisnave
desaparecer
            e desaparecerem os barcos as gruas os guindastes
eu perceba com o coração desfeito, que és mortal

[Teresa Rita Lopes, in "Afectos"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Uma Escritora, uma Rua e o Tejo...


Embora a transcrição que vou publicar não esteja directamente ligada com a imagem (algo que acontecerá algumas vezes por aqui, com alguma naturalidade...), pois a Rua Irene Lisboa (a minha rua desta Margem do Tejo), em Cacilhas, não é um lugar "tristissimo", e tem lá em baixo a Lisnave e o Mar da Palha, e não a parte mais estreita do Rio...
Neste caso particular achei por bem fazer a ligação da rua à escritora e ao Tejo, esquecendo as geografias do "melhor rio do mundo" escolhidas pela escritora no seu livro...

«Aquele sítio onde tinha ido arranjar casa era tristíssimo, muito arredio e pobre, com terras de entulho à frente. Velho arrabalde da cidade! O Tejo lá em baixo, na sua parte mais estreita, oferecia-lhe de longe uma miragem fantástica, admirável e desesperadora.»
                                                                                                     
 [Irene Lisboa, in "Esta Cidade!"]

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)