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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

"Poema da Memória"


Poema da Memória
 
Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia.
 
De joelhos no banco, o busto inteiriçado,
só tinha olhos para o rio distante,
os olhos do animal embalsamado
mas vivo
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.
 
Diria o rio que havia no seu tempo
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
onde dois grandes olhos,
grandes e ávidos, fixos e pasmados,
o fitavam sem tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos grandes,
olhos de bicho atento
que espera apenas por amor de esperar.
 
E por que não galgar sobre os telhados,
os telhados vermelhos
das casas baixas com varandas verdes
e nas varandas verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da história que voava
com asas grandes, grandes, flutuantes,
e poisava onde bem lhe apetecia,
e espreitava pelos vidros das janelas
das casas baixas com varandas verdes!
Ai que bom seria!
Espreitar não, que é feio,
mas ir até ao longe e tocar nele,
e nele ver os seus olhos repetidos,
grandes e húmidos, vorazes e inocentes.
Como seria bom!
 
Descaem-se-me as pálpebras e, com isso,
(tão simples isso)
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada.
 
[António Gedeão in Poemas Póstumos]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


domingo, 16 de junho de 2019

Adeus Lisboa!


António Gedeão, volta ao "Olha o Tejo", porque sim...


Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.
Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.
[…]

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma
toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!



[António Gedeão, in "Adeus Lisboa"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Memória de Lisboa...


Descobri há pouco tempo o álbum, "Memória de Lisboa", de Rómulo de Carvalho, o outro lado do poeta António Gedeão, cuja obra nos desvenda o muito que  escreveu e fotografou sobre a sua Cidade.

Naturalmente, o Tejo aparece em muitas das suas páginas...

«[...] A face sul do Terreiro do Paço, voltada para o Tejo, é lugar de peregrinação do povo de Lisboa atraído pelo movimento das ondas. A toda a hora, de manhã, de tarde ou à noite, com a gola levantada ou em mangas de camisa, ali se encosta ao paredão a melancolia portuguesa.[...]»


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)