Mostrar mensagens com a etiqueta crianças. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta crianças. Mostrar todas as mensagens

sábado, 30 de março de 2024

"Felizmente..."


Felizmente as palavras às vezes também diminuem,
o mar, por exemplo,
para caberem nele os náufragos e os rios.

Sobretudo o Tejo
do tamanho dos corpos das crianças
com a água dentro das sacolas
a aprenderem para sereias
com cantigas e rondas
no giroflé das areias.

Eram levadas em rebanhos
de chapeladas redondas
para a fraternidade dos comícios dos banhos.

Enquanto as mães de xaile,
felizes de sol salgado
assistiam ao baile
dos filhos com as ninfas ainda sem seios de ondas.


[José Gomes Ferreira, in "Poesia VI"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


                                          terça-feira, 10 de setembro de 2019

                                          Retrato do Povo de Lisboa



                                          Retrato do Povo de Lisboa

                                          [...]
                                          É da voz do meu povo uma criança
                                          semi-nua nas docas de Lisboa
                                          que eu ganho a minha voz
                                          caldo verde sem esperança
                                          laranja de humildade
                                          amarga lança
                                          até que a voz me doa.

                                          Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
                                          dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
                                          apunhalada na garganta.
                                          Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
                                          punhada no meu canto.

                                          [Ary dos Santos, in "Fotos-grafias"]


                                          (Fotografia de Luís Eme - Ginjal)