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quinta-feira, 23 de julho de 2026

"Retrato de Amália"

 

Retrato de Amália
 
És filha de Camões filha de Inês
assassinada voz de portuguesa
cantando a nossa imensa pequenez
com laranjas e gomos de tristeza.
 
É no claro Mondego dos teus olhos
que se debruça o mal da nossa mágoa.
Ao Tejo dos teus gestos que se acolhe
o nosso coração a pulsar água.
 
Falando desatada de saudade
choras um povo cantas a balada
mais bonita que soa na cidade
de Lisboa por ti apaixonada.
 
José Carlos Ary dos Santos


(Fotografia de Luís Eme - Alcochete)


sábado, 30 de agosto de 2025

"O Mês"...

 

O Mês

Os espelhos partidos vidros restos
as fogueiras os séculos os degredos
saía-se do medo em largos gestos
o mês rompia pelos dedos.
[...]
As sílabas sublevadas o azul o som
partiam-se as vogais no tom inverso.
Era o mês em que Charles Fourier e André Breton
passaram por Lisboa a cavalo num verso.

A subterrânea floração e seu mistério
era o mês com seu rio pela rua
na minha língua abril é um falanstério
na outra face da lua,
[...]
Colhemos então as barcas sobre o Tejo
navegação por dentro - metáforas à solta em cada
rua: Lisboa entre a memória e o desejo
era o mês da pétala lusa.
[...]
Dai-me de novo as grandes subversões idiomáticas
as inesperadas e loucas opções de classe. Dai-me outra vez
as gramáticas perdidas das ilusões fantásticas
as páginas a abrir as manhãs mágicas o mês.

[Manuel Alegre, in "Livro do Português Errante"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 13 de agosto de 2025

"Praça João do Rio (ou o segundo poema do português errante)"


"Praça João do Rio"

Lisboa é esta praça com árvores e com pássaros
melros piscos toutinegras rouxinóis
e barcos inconcretos nos telhados onde
o azul do céu é já um mar do avesso
um reflexo do Tejo ou talvez um
pressentimento de ocidente ocado Cabo Raso
um navegar só verbo em navio nenhum.
Lisboa é esta janela de onde vejo
tudo o que não se vê que é o que há mais
em Lisboa onde se mesmo sem ver o Tejo
e onde cada varanda é sempre um cais.
Lisboa é esta praça e esta janela
minha nau capitânia sobre o insondável
dentro de casa eu vou de caravela
Bartolomeu Dias neste mar inavegável
não há Índia perdida que não possa ser achada
Lisboa é esta praça e esta viagem
esta partida mesmo se parada
este embarcar no azul até chegar àquela margem
em cuja linha só o abstracto pensamento passa
a margem única e absoluta não mais que pura imagem
sem precisar sequer sair da Praça
João do Rio número onze quarto direito
onde eu Ulisses vou à proa
além de qualquer cabo e qualquer estreito
em Lisboa por dentro de Lisboa.

[Manuel Alegre, in "Livro do Português Errante"]

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)

terça-feira, 5 de agosto de 2025

A "Lisboa" da Sophia...


Lisboa 

Digo: “Lisboa”

Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver.

Sophia de Mello Breyner Andresen

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 9 de maio de 2025

"Mais Perto do Tejo"


 
"Mais Perto do Tejo"

Mais perto do Tejo
há palavras que tocam
o sossego dos lábios
para dizer o sul da mágua
no voo convergente das gaivotas
quando os barcos se abrem
ao argumento ondulado das marés

Graça Pires

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



domingo, 22 de dezembro de 2024

Os olhos de Cristina

 


Os olhos de Cristina

Inquietos, sacudidos pelo bulício da cidade antiga, os olhos de Cristina vieram da cidade nova e são dois faróis a avisarem a navegação das próximas tempestades quotidianas. Cristina saiu da estação do Metro da Baixa-Chiado e atravessou a muralha mandada construir por D. Fernando para beber um café e comer um bolo. Vista ao longe, diluída na pressa dos semáforos, Cristina não é apenas uma mulher. É também a imagem de uma cidade. Cidade habitada por afectos, cruzada por ruas de sonhos, por praças projectadas na vontade de ser feliz. Se Lisboa é uma cidade-mulher, luminosa e pronta a ser conquistada todas as manhãs, Cristina é uma mulher-cidade e os seus olhos, ora inquietos ora serenos, são as portas dessa cidade luminosa mas apenas existente nas metáforas e nas imagens. À direita, o Rio Tejo dá nos olhos de Cristina a ilusão de estar colocado nos últimos telhados da Rua do Alecrim. («Alecrim, alecrim aos molhos, por causa de ti choram os meus olhos» – diz a cantiga popular. Adiante.) Os cacilheiros, repletos de pessoas e de viaturas parecem desaguar num cais insólito feito de telhas antigas e de gaivotas ruidosas. Para o fim da tarde, no regresso a casa na cidade nova, os olhos de Cristina estão serenos pelo cansaço e pela presença luminosa de Raquel, sua filha. Se de manhã se juntou a cidade-mulher (Lisboa) à mulher-cidade (Cristina) então de tarde vemos que a mistura feliz é da mulher-menina (Cristina) com a menina-mulher (Raquel). Os olhos de Cristina, motivo do texto, são uma espécie de selo branco que vai certificar o momento feliz de encontro e de plenitude que esta crónica procura representar. Ou seja: dar um testemunho feito de palavras resgatadas à pressa da cidade. 

José do Carmo Francisco


(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Cais do Gás

 

Cais do Gás

Sobe do Mar da Palha um som distante.
Talvez um barco que de longe, espera um rebocador na barra.

Sobe até aos meus ouvidos o ruído da água na pedra.
Repetição do movimento inicial do degelo
quando todos os rios começaram no leito da ternura.

É este o cais das grandes despedidas sempre adiadas.
Por aqui passou há muitos anos o receio
do aviso da mobilização

Mobilizado estava mas só para as pequenas guerras diárias
do sofrimento interior - resmungou a meia voz.
Ainda hoje não sabe se deve dizer barco ou navio.

[José do Carmo Francisco, in "De Súbito"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Retrato breve de Filipa em Vila Franca

 


Retrato breve de Filipa em Vila Franca
 
Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
Passam alunos da Escola
Que ficam na fotografia
Todos usam camisola
A manhã está muito fria
Fecharam as tronqueiras
Já se sente uma emoção
As paixões verdadeiras
Não precisam explicação 
Entre gaibéus e avieiros
Passa a memória sentida
Do Tejo a encher esteiros
Com água que traz a vida
Os barcos cheios de areia
Chegam de manhã ao cais
Hoje o Gil Conde passeia
Nas águas do nunca mais
E no comboio que passa
Tão veloz para o Oriente
Há memória da barcaça
Com automóveis e gente
Ao lado fica um jardim
O ringue de patinagem
Os jogos não tinham fim
As palmas eram coragem
Olha de longe o Mouchão
Onde só olhar é preciso
E a terra vem dar razão
A quem busca o paraíso
Água, fogo, ar e terra
Conjugados num lugar
Coração em pé de guerra
Tem um poema de cantar
Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Vila Franca de Xira)

sábado, 30 de novembro de 2024

Balada dos telhados de Lisboa

 


Balada dos telhados de Lisboa
 
Telhados da minha cidade
Com as gaivotas a gritar
Avisos de tempestade
Lá para dentro do mar.
Que o mar à nossa frente
É mais a figura de estilo
Mar da palha e da gente
Só no Verão está tranquilo.
Rompe defesas no Inverno
Traz a palha dos animais
Para o estuário moderno
Que vive de outros sinais.
Que vive de outras medidas
Sem fragatas nem faluas
As pontes de ferro erguidas
Enchem de carros as ruas.
E digo adeus aos telhados
Da cidade debruçada
Sobre vapores lembrados
Numa memória de nada.
 
José do Carmo Francisco 


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

"Pombalesca"


"Pombalesca"

Os pombos sabem História...
Guardam na memória
Quem refez Lisboa.
Em cada cornija, em cada beiral,
Tagarelando p' las ruas à toa,
Cada pombo, que a sobrevoa, 
Sabe que Lisboa
É um pombal!

Um pombinho, que no Rossio
Anda com outros a desafio,
Petiscando migalhas
Que lhe atira uma menina,
Sabe que, do Rio até às muralhas, 
Lisboa, cidade genuína,
Com seus beirais e cimalhas,
Ficou pombalina!...

[Rui Palma Carlos, in "Lisboética e outros poemas"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, 30 de junho de 2024

"No Fundo do Tejo"


No Fundo do Tejo


Fecho os olhos e vejo
No fundo Tejo
Uma coisa que oscila ao sabor da corrente
Que vai e vem, que deambula rente
Às pedras e conchas macias e frias.
Dias e noites, noites e dias.

Uma coisa que as águas desfazem sem nojo,
Levando-a de rojo
No fundo do Tejo:
Uma coisa que eu vejo,
Uma coisa que eu sinto e não sei o que é,
- Tão longe de mim, tão fora de pé!
[...]

Uma coisa que anda de cá para lá,
De lá para cá,
No fundo do Tejo:
Sem rumo, sem dono, sem nome, sem graça.
- Inútil e triste, como a carcaça
De um caranguejo.

Uma coisa disforme, insensível, alheia.
- Mas que escreve, sem querer, o nome meu na areia!

[Carlos Queirós, in "Desaparecido"]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, 30 de abril de 2024

"Peregrinação"



Peregrinação

Este vento que, há muitas horas, clama,
Bem o sinto cá dentro: é por mim que ele chama...
Com amorosas vozes me persiade
A errar por esses mares da Ansiedade,
De fúnebre estridor,
Onde o meu sonho é sempre em flor e em dor!

Ele me quer a par das rotas velas,
Que demandam estrelas;
Ele me quer a arder em um delírio rubro,
por esses alcantis, a ver se inda descubro
Novos céus, novas gentes,
Arquipélagos de oiro incandescentes!

- Ó vento heróico e louco,
Da barra azul do Tejo,
Aberta ao meu desejo;
Vento da história, vento da Lenda,
Evoco,
Ao teu clamor, os uivos da tormenta; 
A vaga a revolver-se amaramente odienta;
[...]
- Ó vento, leva-me contigo!

[Mário Beirão, in "Mar de Cristo"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 30 de março de 2024

"Felizmente..."


Felizmente as palavras às vezes também diminuem,
o mar, por exemplo,
para caberem nele os náufragos e os rios.

Sobretudo o Tejo
do tamanho dos corpos das crianças
com a água dentro das sacolas
a aprenderem para sereias
com cantigas e rondas
no giroflé das areias.

Eram levadas em rebanhos
de chapeladas redondas
para a fraternidade dos comícios dos banhos.

Enquanto as mães de xaile,
felizes de sol salgado
assistiam ao baile
dos filhos com as ninfas ainda sem seios de ondas.


[José Gomes Ferreira, in "Poesia VI"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


                                          quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

                                          "Fragatas"

                                            


                                          Eram casinhas ponteagudas
                                          movidas pela associação do vento com os panos.
                                          Deslizavam formando pequenos relevos alvos
                                          que se desdobravam nas águas azuis, ainda límpidas.
                                          Havia alegria nos que habitavam as embarcações, 
                                          alegria que se transmitia à passagem coalhada
                                          de gémeas de muitas cores.
                                          Só as velas eram brancas.
                                          - Mas as gaivotas também!
                                          E os vôos altaneiros, com piares de entendimentos
                                          eram a vocação de sentinelas felizes
                                          que sentiam a plenitude poética deste Tejo.


                                          [Fernando Barão, "In Margem Sul"]


                                          (Fotografia de Luís Eme - Tejo)


                                          Nota: Porque hoje é dia de homenagear este Amigo, recordo aqui um dos seus poemas com Tejo, barcas e gaivotas...


                                          domingo, 28 de janeiro de 2024

                                          "Écloga"

                                           

                                          Écloga

                                          Pastora, grácil, vieste,
                                          sempre caminho do Sul...
                                          E rosa brava, trouxeste,
                                          nos cabelos, um agreste
                                          céu azul...

                                          Tu me encontraste, pastora,
                                          velado, sem nenhum céu.
                                          Mas agora um céu me doura
                                          a vida que, muito embora,
                                          se perdeu...

                                          Era nas margens do Tejo...
                                          (Nem noutras margens seria).
                                          Sobre nós dois, o adejo
                                          das gaivotas, num desejo
                                          de alegria...

                                          E não mudou o cenário
                                          para pastor e pastora.
                                          Mas o Fado, sempre vário, 
                                          muda a história do cenário,
                                          de hora a hora...

                                          [...]

                                          E condenaram-me a tanto:
                                          viver, viver... e sem ti!
                                          Vivendo sem no entanto
                                          me ausentar daquele encanto
                                          que perdi...

                                          O Tejo, verde e correcto,
                                          como no tempo passado...
                                          Eu, porém, mais inquieto,
                                          e, por este mal secreto,
                                          - tão mudado!

                                          [David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"]

                                          (Fotografia de Luís Eme - Trafaria)

                                          quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

                                          "Poema da Memória"


                                          Poema da Memória
                                           
                                          Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
                                          que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
                                          Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
                                          exactamente um espelho
                                          porque, do que sabia,
                                          só um espelho com isso se parecia.
                                           
                                          De joelhos no banco, o busto inteiriçado,
                                          só tinha olhos para o rio distante,
                                          os olhos do animal embalsamado
                                          mas vivo
                                          na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.
                                           
                                          Diria o rio que havia no seu tempo
                                          um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
                                          onde dois grandes olhos,
                                          grandes e ávidos, fixos e pasmados,
                                          o fitavam sem tréguas nem cansaço.
                                          Eram dois olhos grandes,
                                          olhos de bicho atento
                                          que espera apenas por amor de esperar.
                                           
                                          E por que não galgar sobre os telhados,
                                          os telhados vermelhos
                                          das casas baixas com varandas verdes
                                          e nas varandas verdes, sardinheiras?
                                          Ai se fosse o da história que voava
                                          com asas grandes, grandes, flutuantes,
                                          e poisava onde bem lhe apetecia,
                                          e espreitava pelos vidros das janelas
                                          das casas baixas com varandas verdes!
                                          Ai que bom seria!
                                          Espreitar não, que é feio,
                                          mas ir até ao longe e tocar nele,
                                          e nele ver os seus olhos repetidos,
                                          grandes e húmidos, vorazes e inocentes.
                                          Como seria bom!
                                           
                                          Descaem-se-me as pálpebras e, com isso,
                                          (tão simples isso)
                                          não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada.
                                           
                                          [António Gedeão in Poemas Póstumos]


                                          (Fotografia de Luís Eme - Tejo)


                                          sábado, 25 de novembro de 2023

                                          Conversa Com Fernando Pessoa no Martinho

                                           


                                          Conversa Com Fernando Pessoa no Martinho
                                           
                                           
                                          A casa continua como quando aqui paravas.
                                          Talvez sejam os mesmos que agora a povoam
                                          destas conversas sonolentas e cruzadas.
                                          Ali ao longe o rio persiste em navegar
                                          e só as águas envelheceram. O resto é
                                          a cidade quer dizer o nevoeiro
                                          que quando desembarcaste. Fala-se na esperança
                                          e acredita-se no medo. O resto é a cidade
                                          que cantaste e te desconheceu
                                          e ainda desconhece os que procuram
                                          o violino de palavras que criaste.
                                           
                                           
                                          Manuel Alberto Valente


                                          (Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


                                          quinta-feira, 28 de setembro de 2023

                                          "Esta luta que se chama vida"

                                           


                                          "Esta luta que se chama vida"

                                          Maldito o rio: não é água mas suor.
                                          Os dias passam e é sempre a mesma lida.
                                          Mas um que luta é cada vez maior.
                                          Bendita esta luta que se chama vida.

                                          Muito cavalga o alvo e verde casario
                                          Para aprender do rio e da serenidade.
                                          Aquela espuma branca em que um barco o abriu
                                          É um colar que põe no peito da cidade.

                                          Dó eles suam mas só eles sabem
                                          O preço de estar vivo sobre a terra.
                                          Só nestas mãos enormes é que cabem
                                          As coisas mais reais que a vida encerra.

                                          Ruy Belo

                                          (Fotografia de Luís Eme - Tejo)

                                          domingo, 21 de maio de 2023

                                          "Ribatejo e Alentejo"

                                           
                                          Ribatejo e Alentejo

                                          Ó águas do rio Tejo
                                          De tão longe caminhando,
                                          Entrea riba e o além,
                                          Sempre, sempre deslizando.

                                          Pelos campos, onde passam,
                                          Às suas terras vão dar;
                                          Alimento tão vital. 
                                          Para as plantas medrar.

                                          Suas águas espalhando,
                                          As terras enriquecendo, 
                                          Rio Tejo vai cheio,

                                          Apressado vai descendo.

                                          Apressado vai descendo,
                                          Para no mar se deitar,
                                          Rio Tejo vai com pressa,
                                          Pressa de chegar ao mar.

                                          [Manuel da Várzea, in "Pelos Caminhos da Poesia"]


                                          (Fotografia de Luís Eme - Vila Velha de Rodão)


                                          domingo, 30 de abril de 2023

                                          "Abril, Cacilhas e Tejo"

                                           


                                          Abril, Cacilhas e Tejo

                                          Abril vai embora,
                                          mais mansinho,
                                          cada vez mais mansinho.

                                          Talvez seja verdade, 
                                          e já não exista tempo 
                                          para revolucionários e revoluções...

                                          O Sol enche tudo
                                          até as esplanadas de gente
                                          que fala inglês com e sem sotaque.

                                          O Tejo está cada vez mais salgado,
                                          nesta outra Cacilhas que pisca o olho 
                                          a quem atravessa o rio de Cacilheiro.

                                          O Tejo está cada vez mais azul
                                          nesta outra Cacilhas que faz vénias
                                          a quem vem gastar dinheiro.

                                          Zé Gê Éfe


                                          (Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)