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quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Perder-me neste "muito Tejo"


Não sei se são tontos.
Não me interessa saber.
Olho para eles como olho para os pombos.
Sim, quando estão parados
no chão não lhes ligo,
só lhes presto atenção
quando começam a voar...

Por isso podem continuar a falar,
é como se fosse japonês.
Sim, é mais música estranha
que palavras nos meus ouvidos.

Prefiro perder-me neste
"muito Tejo"
que hoje ainda é maior.
Quase que invade as margens...

(poema da Bela)


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

"Almada Terra Coragem"



 Almada Terra Coragem
 
Vive em frente de Lisboa
Sobre o Tejo Debruçada
Terra de gente de proa
Linda Cidade de Almada
 
Há quem lhe chame Outra Banda
Por morar do lado esquerdo
Ser sentinela e varanda
De um povo que não tem medo
 
Foi terra valente
Por nós sempre amada
Foi grito, semente 
De gente acordada
 
Almada fabril
De ganga vestida
Almada de Abril
Nunca foi vencida
 
No tempo da tirania
A velha Vila de Almada
Lutou p'la democracia
Foi bandeira e foi vanguarda
 
Por isso a ti, ó Cidade
Quero prestar-te homenagem
Raiz, Força, Liberdade
Almada, Terra Coragem

 
[Poema de Orlando Laranjeiro, do livro que tem como título este poema, "Almada Terra Coragem"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

O Rio mais Parecido com um Mar...


«Tu não sabes o que é morar numa terra sem um rio (largo ou estreito).

É por isso que não me importo de ficar aqui sentada, de olhos abertos, de olhos fechados, quase até ao fim do dia.

É como se estivesse a guardar dentro de mim todas estas tonalidades, entre o verde e o azul, deste rio, que é, de todos os que conheço, o mais parecido com um mar...»

(texto da Bela)


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, 5 de julho de 2021

"Do Alto da Memória"



 Era Velhinha

Conheci Almada velhinha
Bem na minha mocidade
Quando se moia farinha
Na Cova da Piedade

Almada e as suas gentes
Todos tinham um desejo
Formarem fortes correntes
Bem amarradas ao Tejo

Lamento ter desaparecido
Uma das suas maravilhas
Mas já foi devolvido
O grande Farol de Cacilhas

Naqueles dias sem Sol
Com intenso nevoeiro
Era o sinal do Farol
que atracava o cacilheiro.

Manuel dos Anjos Delgado


Homenagem a um amigo que nos deixou ontem e gostava muito de escrever poesia. Este poema faz parte do seu terceiro livro, "Do Alto da Memória".


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

As "Lavadeiras" do professor Américo e do Tejo...


Parece quase ficção, o que acontecia na primeira metade do século vinte (e em tempos mais antigos claro...), na "Praia das Lavadeiras", hoje conhecida internacionalmente pelos muitos turistas que vêm propositadamente ao Ginjal, para almoçar, petiscar ou jantar à beira Tejo, nos dois restaurantes mais apetecíveis da margem sul do rio.

Provavelmente chamam-lhe a "praia dos restaurantes"... Mal eles sonham que bastava abrir uma pequena cova, na maré-baixa, para que daquela areia pouco límpida, brotasse água doce. Água que era aproveitada pelas mulheres de Almada e Cacilhas, para lavarem a sua roupa branca, que depois ficava ali a "corar", ao sol...

Atrás da história e da amizade, deixo-vos o poema, "Lavadeiras", de Américo Morgado, professor e amigo desta nossa margem, com saudades dos nossos cafés, sempre acompanhados por palavras simples e sábias...

 

Lavadeiras
 
Lavadeira de Cacilhas
trouxa branca, levais
ao rio Tejo azul correndo
vai pro mar manso demais
á espera dos teus olhos
cor de mel, a doçura
a loucura da tua roupa
invejada brancura.
As cantigas e as brigas
alegria, ciúme
é dança, gritos, queixume
da pobreza malvada.
 
Suave cotovelada.
 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

"Duas Sombras"


Pensava que este meu blogue, que flutua, nada e mergulha nas águas do Tejo, ia ser um sucesso. "Pensava" porque cometia um velho erro, esse mesmo, o de pensar que "o meu gosto é parecido com o gosto dos outros".

Parece que afinal não é.

Mudando de assunto, felizmente tenho alguns amigos que amam e escreveram sobre o Tejo, como é o caso do poeta Alberto Afonso, autor deste bonito poema:


Duas sombras
 
Duas sombras
Vogam em total liberdade,
Um imenso corpo
Feito de águas e de batalhas.
 
São duas aves brancas
Que anunciam o regresso
De uma breve viagem
No tempo e na vida.
 
Poisaram nas margens do Tejo
Como quem poisa num sonho
Perfumado por vozes e maresia.
 
São agora dois seres imensuráveis
Embriagados de um silêncio azul e voluptuoso
Tal como o rio, que os viu nascer há tanto.
 
Em fino areal humedecido
Homem e mulher, caminham harmoniosamente
Como se fossem dois dóceis animais
Que desvendam
Em cada concha sem vida
Tudo o que lhes resta
Do seu mundo de memórias por contar

(Foto de Luís Eme - Ginjal)


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

"Sem Muros"



A vista é maravilhosa. Sempre foi. 

Mesmo quando existiam "muros invisíveis", até mesmo junto ao Cais de Sodré...

Talvez existissem demasiadas pessoas distraídas, noutros tempos. Graças aos muitos políticos que lhe viravam costas, sempre que podiam, ou "construíam "mostrengos" rente às suas margens.

Gosto que o Tejo esteja "mais" em todo o lado, que além de Lisboa e de Almada, ele continue belo no Barreiro, no Seixal, em Alcochete ou em Vila Franca de Xira...

Gosto de olhar o rio na tua casa, mas também na da avó ou da do tio Quim.

E nenhum deles mora, felizmente, no bairro do "Picapau Amarelo", que uma política pequenina, inveja, ao ponto de querer ir para lá morar "ontem"...

[Ester Núncio]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


domingo, 31 de maio de 2020

"O Fotógrafo da Névoa"


Mais uma homenagem  ao meu amigo, Fernando Barão, que nos deixou na passada segunda-feira, com um poema onde me inspiro no amante da fotografia, que adorava tirar retratos em dias com nevoeiro...
              
                                                                      (ao Fernando Barão)



O Fotógrafo da Névoa

Quando ouve a ronca do Farol
sente que o chamam no cais
para tirar retratos sem Sol
de belas paisagens fluviais

Prepara tudo com cuidado
a "kodak" é uma caixa de surpresas
que às vezes o deixa abismado
por o deixar fixar tantas belezas

A sua Isabel fica ao balcão
ele lá vai, atrás do nevoeiro
movido pela sua outra paixão.

Quem o olha, ali rente ao rio
ignora aquele artista de corpo inteiro
capaz de arrancar beleza até do vazio.

[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

segunda-feira, 25 de maio de 2020

"Aquelas Praias"


Hoje abro uma excepção fotográfica e publico juntamente com o poema "Aquelas Praias", de Fernando Barão, uma sua fotografia da "Praia das Lavandeiras", que faz jus ao nome, no Ginjal (praia onde hoje se encontra o restaurante "Atira-te ao Rio").

É a homenagem a um amigo, que partiu hoje...

Aquelas Praias

Éramos como bandos de pardais livres como o vento. 
- Até as gaivotas deveriam ficar enciumadas -
Logo, a baixas horas,  os caminhos eram percorridos em tropel
O meio liquido estava ali à nossa vista para o regabofe
com as roupas que Deus nos ofereceu à nascença...
Margueira, Lavadeiras, Alfeite, refúgios dos que sabiam nadar
e dos que se agarravam à água...
Nos tempos frios a malta ficava nostálgica, sem brilho, 
sem fulgor, sem aquele visionamento de horizontes azuis
que se alongavam até terras do Ribatejo.

(Fotografia de Fernando Barão - Ginjal)


terça-feira, 17 de março de 2020

O Tejo, entre as Ausências e o Encanto...


O Tejo entre as Ausências e o Encanto...

Enquanto percorres as ruas
pensas nos teus amigos, ausentes,
que as deixaram quase nuas
e tornaram estes dias tão diferentes.

O vento forte faz-te companhia
e força as árvores a uma dança
insinuante e povoada de energia
que te dão tudo menos esperança.

Tens algum receio de chegar ao cais
que só pode estar uma tristeza
sem os teus companheiros habituais
povoados de histórias sem subtileza

Ainda não chegaste ao fim da rua
e já vês o Tejo, a querer espreitar.

Mesmo sem qualquer barca ou falua
ele é um encanto para qualquer olhar.

[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A Lapa, de onde se avistava a bela Lisboa...


Aproveito o Tejo para homenagear Idalina Alves Rebelo, uma senhora encantadora de Cacilhas (esta Lapa ficava em Cacilhas...) de quem fui amigo, que já nos deixou, e que assinava os seus poemas e quadros como Any Ana...


«A Lapa, de onde se avistava a bela Lisboa, o Rio Tejo com barcos de todas as espécies e "calados", o Largo com a velha Parceria dos barcos grandes e o embarque dos pequenos, o grande movimento de táxis, as primeiras camionetas, as barracas de frutos com seus vendedores, as carrinhas de fretes, que antes eram feitos em carroças puxados por muares, o Chafariz ali perto, o Farol ao fundo junto ao rio, contando com o vaivém dos operários, que ao som da "gonga" da doca enchiam de alegria e movimento, junto aos pregões dos vendedores ambulantes [...].»


[Any Ana, in "A Lapa"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Olhas o Rio...


Já tinha falado na hipótese de criar mais um blogue, que tivesse como principal temática o Tejo, no "Largo".

Esta minha ideia deve-se à beleza do "Rio da Minha Aldeia", e também ao facto de ser o pano de fundo da maior parte das minhas fotografias.

Aliás, este blogue será também de fotografia (em princípio exclusivamente das minhas fotografias...). Fotografias essas que serão acompanhadas com transcrições de poemas e parágrafos de livros, que se inspiram no Tejo, da minha autoria e também de outros autores...

Abro este blogue com um poema meu, que de alguma forma se aproxima do título do blogue e se pode generalizar, ainda que tenha sido escrito em homenagem a Alexandre Castanheira, um escritor almadense, resistente antifascista, que foi um bom amigo...


Olhas o Rio

Olhas o rio com ternura,
Sentado, junto ao cais...

Foi daqui que partiste,
Para uma viagem
Quase sem destino...

Depois foram anos de luta,
Quase sempre “escondido”
No porão da barca vermelha
Que navegava de terra em terra,
Em busca da Liberdade sonhada...

Olhas o rio com saudade,
Sentado, junto ao cais...

Foi daqui que partiste...

[Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)