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terça-feira, 5 de agosto de 2025

A "Lisboa" da Sophia...


Lisboa 

Digo: “Lisboa”

Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver.

Sophia de Mello Breyner Andresen

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A Sophia e o "Nocturno da Graça"...


Hoje é dia da Sophia e por isso deixo aqui partes do seu poema "Nocturno da Graça"...

Há um rumor de bosque no pequeno jardim
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilhas.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.
[...]

Com os seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.
[...]

Sozinha estou contra a cidade alheia
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Digo: "Lisboa"...


Lisboa


Digo
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
e a cidade a que chego abre-se
como se do seu nome nascesse

Abre-se e ergue-se em sua extensão
nocturna
em seu longo luzir de azul e rio
em seu corpo amontoado de colinas
[...]

[Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Navegações"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)