domingo, 20 de outubro de 2019

A Convenção de Albufeira


Fazemos um intervalo, porque o Tejo não vive da poesia, nem das palavras bonitas.

Divulgamos as palavras da jornalista Carla Tomás, no "Expresso", a 12 de Outubro, em que se percebe (como é costume...) que os números oficiais diferem dos divulgados pelos ambientalistas: 

«A Convenção de Albufeira, que gere os rios que atravessam os dois países, define caudais mínimos anuais, trimestrais e semanais (ver números). E neste ano hidrológico (de 1 de outubro de 2018 a 30 de setembro de 2019) Espanha terá cumprido à pele o caudal mínimo anual. A Agência Portuguesa do Ambiente garante que os valores anuais “foram cumpridos no limite”, tendo chegado à albufeira de Fratel 2700,31 hectómetros cúbicos de água. Porém, os ambientalistas do movimento proTejo põem em causa estes números. “Pelas nossas contas, com base no que chega a Fratel e em informação do antigo Inag, ficam a faltar perto de 200 hm3, que teriam de vir de afluentes nacionais e não de Cedillo”, garante Paulo Constantino, do proTejo.»

(Fotografia de Luís Eme - Fratel)
                                              

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Querer Atravessar o Rio...


«[...] Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo. [...]

[Bernardo Soares, In "Livro do Desassossego"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Balada do Cais das Colunas



Balada do Cais das Colunas (a José Cid)

Cais das Colunas, janela
Do Tejo, do Mar da Palha
Registas um barco à vela
Que noite e dia trabalha

Bote, batel ou canoa
Bateira, falua, enviada
Traz o peixe de Lisboa
No preço de quase nada

Varino, muleta, fragata
Cangueiro, proa redonda
Catraio onde a serenata
Não tem voz que responda
[...]

Mistério, o Tejo amplia
Em homens e cacilheiros
E na faina do dia a dia
Os sonhos são verdadeiros

E povoam todo o luar
Da noite do que persiste
As horas de trabalhar
Não dão para ser triste

Inscrevem-se na paisagem
Nos barcos, mercadoria
Ligam uma, outra margem
Na mais teimosa alegria

[José do Carmo Francisco]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Retrato do Povo de Lisboa



Retrato do Povo de Lisboa

[...]
É da voz do meu povo uma criança
semi-nua nas docas de Lisboa
que eu ganho a minha voz
caldo verde sem esperança
laranja de humildade
amarga lança
até que a voz me doa.

Mas nunca se dói só quem a cantar magoa
dói-me o Tejo vazio dói-me a miséria
apunhalada na garganta.
Dói-me o sangue vencido a nódoa negra
punhada no meu canto.

[Ary dos Santos, in "Fotos-grafias"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Sentada, à Beira Rio...



Esperas que o dia fuja,
mas ele demora tempo
a ir embora...

A tua sorte
é puderes esperar, 
sentada à beira rio,
entretida a contar as barcas
que entram e saem do estuário.

Sempre gostaste da noite.
E se ela estiver iluminada 
pela Lua e pelas estrelas
ainda te sentes mais fascinada...

[Sophia Manoel]


(Fotografia de Luís Eme- Ginjal)

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

A "Gaivota" do O'Neill...


O poema "Gaivota" de Alexandre O' Neill é conhecido sobretudo como "letra" de fado. Cantado inicialmente pela Amália, com arranjos musicais de Alain Oulman, acabaria por  ser interpretado por dezenas fadistas, como foram os casos de Carlos do Carmo ou de Cristina Branco.

Em 2009 a "Gaivota" de O'Neill voltaria a estar na "moda", graças a um grupo de músicos (quase todos dos Gift...) que criaram o  grupo "Amália Hoje", para homenagear a nossa fadista maior, com a voz de Sónia Tavares. 

Embora este poema não fale directamente do Tejo, fala do céu de Lisboa e de um "mar" que só pode ser o "melhor rio do mundo"...


Gaivota

Se uma gaivota viesse
Trazer-me o céu de Lisboa
No desenho que fizesse,
Nesse céu onde o olhar
É uma asa que não voa,
Esmorece e cai no mar.
Que perfeito coração

No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
Dos sete mares andarilho,
Fosse quem sabe o primeiro
A contar-me o que inventasse,
Se um olhar de novo brilho
No meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
No meu peito bateria,
Meu amor na tua mão,
Nessa mão onde cabia
Perfeito o meu coração.
[...]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Havia em Lisboa uma Sereia...


Voltamos a José Cardoso Pires, e ao seu "Lisboa Livro de Bordo - vozes, olhares, memorações":


[...] «Noutros tempos, longos tempos, havia em Lisboa uma sereia..." Conheço uns versos de Robert Desnos que começam desta maneira mas é melhor ficar por aqui porque o Tejo não é de fábula nem de poema e corre sem nostalgias. E Lisboa a mesma coisa, disso podemos estar nós bem seguros. Só que, com o saber dos séculos e os sinais de muito mundo que a perfazem, sugere várias leituras, e daí que a cada visitante sua Lisboa, como tantas vezes se ouve dizer. [...]»


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Arealva


Claro que a Arealva dos nossos dias é um conjunto de ruínas, mas já foi outra coisa, bonita e agradável...


A Arealva
  
A quinta é um sossego.
Às vezes penso que a quinta é o paraíso.

Sei que o Inverno é horrível,
que o Sol mal passa por ali
e o Tejo enche tudo de humidade.

Mas depois chega a Primavera
e esquecemos tudo.
Assim que abrimos a janela
olhamos o Rio e descobrimos logo
uma bonita aguarela.

E então quando chega o Verão
temos praia e temos campo.

É por isso que a Arealva
é um encanto…


[Luís Alves Milheiro - "Ginjal 1940, poemas"]



(Fotografia de Luís Eme - Arealva)

quarta-feira, 24 de julho de 2019

O Rosto Português e o Tejo...


«[...] O rosto português desfigura-se quando se reflecte no Tejo, se não é do convés de um navio a sair barra fora. Perde a terrosa mas honrada expressão natural a que o condena a pesada cruz geográfica.» [...]

[Miguel Torga, in "Diário XI"]

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas) 

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Tejo que Levas as Águas...


Manuel da Fonseca, poeta e contista, escreveu, Adriano Correia de Oliveira, um dos nossos melhores baladeiros, cantou...

Começa assim:


Tejo que levas as águas
correndo de par em par

lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar

[...]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, 9 de julho de 2019

Vozes, Olhares e Memorações...



José Cardoso Pires, abre o seu "Lisboa Livro de Bordo - vozes, olhares, memorações", com um excelente texto sobre Lisboa e o Tejo.

«Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa dos ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para o oceano. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.»

(Fotografia de Luís Eme)


quarta-feira, 3 de julho de 2019

"A Ponte é uma Miragem"


Hoje volto a "casa"...

[...]
olhar que se cruza
com um Rio de “visões”
tanto a norte como a sul
e que se deixa levar
em todas as direcções

sentidos explorados
pelo som que se confunde com o vento
de um tabuleiro povoado de carros
suspenso pelos cabos do tempo

sentidos encantados
pelas cores de um Tejo radiante
que pinta toda a paisagem
de uma forma contagiante
e transforma a ponte na tal miragem


[Luís Alves Milheiro, in "A Ponte é uma Miragem" - catálogo de exposição]


(Fotografia de Luís Eme)