Mostrar mensagens com a etiqueta maria rosa colaço. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta maria rosa colaço. Mostrar todas as mensagens

sábado, 26 de abril de 2025

Para um Operário da Lisnave


Para um Operário da Lisnave

Sou um operário!
Amarra certa
neste cais de angústia.

Olho o casco azul
de um navio do mundo
sonho por momentos
com viagens que nunca farei.

Sem trabalho
aqui estou frente ao Tejo

Mas permaneço
vigilante.

Maria Rosa Colaço

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, 19 de maio de 2020

«Porque me chamam Gaivota?»


Maria Rosa Colaço em 1982 publicou um conto sobre o "Gaivota", com o mesmo título. "Gaivota" era um rapazola de Cacilhas, que cresceu paredes meias com o Tejo. Deixo aqui uma pequena transcrição, onde ele esboça a sua "história de vida"...

«[...] Porque me chamam "Gaivota"?
Está mesmo a ver-se... Tenho passado entre os barcos e o Tejo, em cima deste paredão, correndo e escorregando nestas pedras húmidas, mais de metade da minha vida: às vezes, até a pele me sabe a sal.
Ando nisto desde que o meu pai morreu; ajudo um e outro, vendo jornais, pensos, aprendo bocados de palavras de outras terras; invento ruas de outros países quando vejo os estrangeiros de cabelos amarelos e  dinheiro nos bolsos, a comer camarão e lagosta: vivo!
Como tenho a mania de andar em cima desta parede, de asas abertas, como as gaivotas, um dia começaram a chamar-me "Gaivota" e "Gaivota" fiquei. O meu nome é Alfredo. Mas isso não interessa porque ninguém o sabe e Gaivota, afinal, é o que eu queria ser. De verdade, pois! Asinhas a dar-a-dar; peixinho fresco e, lá em cima, lá em cima no vento, no azul, avião-sem-motor, namorado das ondas, sol morno nas costas, dono do Tejo, dono de mim, bicho livre! [...]»

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

O Cacilheiro e a Gaivota...


«[...] O cacilheiro no Tejo, é assim, diariamente, a estrada possível das outras viagens que nunca faremos. Nele começam e acabam as asas e as barbatanas de luz que séculos de adaptação à vida nos têm roubado.
É então que na manhã alada, o acordeão do cego nos devolve o eco da alegria possível.
Por entre pés, cestas, jornais, indiferença e alguns ouvidos atentos, vai o cego acordeando os fados da sua memória, deixando nas vigias algumas palavras de amor; quanto baste de saudade e as raivas, breves do nosso fado português,
Às vezes vou aqui, na amurada do cacilheiro; olho as gaivotas que pairam, voo rasteirinho, voo picado, voo maluco e penso, Liberdade é isto: ser gaivota branca.
Gaivota do Tejo. [...]»

                                              [Maria Rosa Colaço, in Almada, uma gaivota no vento"]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)