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terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Retrato breve de Filipa em Vila Franca

 


Retrato breve de Filipa em Vila Franca
 
Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
Passam alunos da Escola
Que ficam na fotografia
Todos usam camisola
A manhã está muito fria
Fecharam as tronqueiras
Já se sente uma emoção
As paixões verdadeiras
Não precisam explicação 
Entre gaibéus e avieiros
Passa a memória sentida
Do Tejo a encher esteiros
Com água que traz a vida
Os barcos cheios de areia
Chegam de manhã ao cais
Hoje o Gil Conde passeia
Nas águas do nunca mais
E no comboio que passa
Tão veloz para o Oriente
Há memória da barcaça
Com automóveis e gente
Ao lado fica um jardim
O ringue de patinagem
Os jogos não tinham fim
As palmas eram coragem
Olha de longe o Mouchão
Onde só olhar é preciso
E a terra vem dar razão
A quem busca o paraíso
Água, fogo, ar e terra
Conjugados num lugar
Coração em pé de guerra
Tem um poema de cantar
Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Vila Franca de Xira)

sexta-feira, 28 de junho de 2024

"A Água-Furtada"

 

A Água-Furtada

«Mas a vista era o melhor do quarto. Daquela água furtada seguia-se o Tejo por aí acima, desde o mar até perder-se à esquerda. Em redor as casas ficavam devassadas por aquela janela de telhado e as traseiras dos prédios com a actividade das criadas davam ao Antunes a impressão de entrar no segredo dos andares. Uma por uma, cada janela por onde os seus olhos entravam sabiam-lhe a ninho.

A cama de ferro, a mesa de pinho, a cómoda indigente, o lavatório inventado e o espelho da lata justo para a cara... não havia mais remédio do que ir recompensar-se no panorama.

Do seu novo quarto. Lisboa parecia ao Antunes uma cidade desconhecida com as traseiras de fora. Interiormente, parecia-lhe que a sua vida acabava de bem merecer aquele franciscanismo. Mas o verdadeiro merecimento deste novo quarto para o Antunes consistia em que tudo o que a ele tinha acontecido até esta água-furtada era para rasgar. Só depois de bem rasgado tudo o que de até este quarto é que Antunes poderia então começar a pensar na maneira de arranjar para si uma nova alma mais competente.»

[Almada Negreiros, in "Nome de Guerra"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, 25 de fevereiro de 2024

"Ficou ainda a música no ar..."


«Havia um contraste muito forte entre a tua imagem e o azul do rio bastante largo para parecer um mar. Digamos que não era bem o teu corpo que me afligia mas sim tu que estavas nele e eu não conhecia. Veio um cego de acordeão cheio de sol e houve música também entremeada à luz. Um criado expulsou-o mas ficou ainda a música no ar, e toda a gente, pareceu-me, ficou contente com a música que não ouviu mas se espalhou na esplanada, agora sem a cegueira triste do homem que a fez existir. E eu sorri porque tu paraste depois de algumas garfadas e ficaste a olhar o invisível.»


[Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"]


(Fotografia de Luís Eme - Almada)


quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

"Tejo"


 
Tejo

É um lento e majestoso
Caudal de claridade
Que corre no teu leito,
Rio perfeito
Como o dia a passar,
Largo, sereno, aberto. 
Logo à partida, certo
De chegar...


[Miguel Torga, in "Diário XI"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sábado, 25 de novembro de 2023

Conversa Com Fernando Pessoa no Martinho

 


Conversa Com Fernando Pessoa no Martinho
 
 
A casa continua como quando aqui paravas.
Talvez sejam os mesmos que agora a povoam
destas conversas sonolentas e cruzadas.
Ali ao longe o rio persiste em navegar
e só as águas envelheceram. O resto é
a cidade quer dizer o nevoeiro
que quando desembarcaste. Fala-se na esperança
e acredita-se no medo. O resto é a cidade
que cantaste e te desconheceu
e ainda desconhece os que procuram
o violino de palavras que criaste.
 
 
Manuel Alberto Valente


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, 31 de agosto de 2023

"Quinta da Alegria"


«No início do Verão de 1987 vim viver para Cacilhas - devo esclarecer desde já algumas mentes perversas, que atravessei o rio Tejo de cacilheiro, e que não caí de para-quedas como insinuam - livre e solto de qualquer raiz familiar. Como não encontro nenhuma razão especial para explicar o porquê desta opção, quase que me apetece dizer que vim morar para Almada porque sim.

Claro que a possibilidade de reencontrar o Tejo pesou muito nesta escolha. Nunca esqueci a janela da marquise da casa do Zé e da Elisete, na Cruz Quebrada, onde assisti muitas vezes ao último mergulho do Sol nas águas do Atlântico, e à transformação do Rio num imenso Oceano...»

[Luís Alves Milheiro, in "Geografias da Margem Sul"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, 19 de agosto de 2023

O Recorte do Tejo...


«Subimos ao piso superior para ver as quatro máquinas desenhadas e construídas nas oficinas do fabricante inglês E. Windsor e Filhos, que representava a melhor engenharia de então. Funcionaram até 1928. Atravessamos a sala de soalho de madeira, olhando o recorte do Tejo que preenche a grande janela virada a sul, oferendo a sua visão de espelho de água, neste dia de luz clara. Depois desse longínquo dia de inauguração da Estação dos Barbadinhos e de muitos acrescentos e melhorias no sistema de distribuição, foram precisas mais de sete décadas para a água do Tejo entrar finalmente na urbe.»

[Ana Soromenho, "Expresso", 18 de Agosto de 2023]


(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)


quarta-feira, 19 de julho de 2023

"Toda a bacia do rio, feito um mar, se limpou, se alisou, se esmaltou de preciosas cores e nelas corriam as microscópias velas brancas das faluas"


«Recordo a última tarde que fui a Penha de França. Era em Agosto e a atmosfera enovoada, mas de finíssima cinza, não de pérola transluzente, baralhava as linhas da larga paisagem. O rio mal se distinguia da terra pela aglomeração de bagos de arroz, de pedacitos de cal, onde se denunciavam a custo as povoações da beira-de-água. A noroeste ondulavam com branduras de feltro as serranias que rematam em Sintra, a qual, orgulhosa e teimosa, sempre recortava o céu com o seu característico desenho, mais agudamente e miudamente dentado no castelo. Um bafo, leve, de brisa joeirou a cinza ténue do Sol que ao declinar jorrava oiro vermelho pelo boqueirão da barra. Toda a bacia do rio, feito um mar, se limpou, se alisou, se esmaltou de preciosas cores e nelas corriam as microscópias velas brancas das faluas, tão numerosas, tantas, perseguindo-se, cruzando-se, roçando-se, quase sopradas e caídas aos molhos.»

[M. Teixeira Gomes, in "Agosto Azul"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa com outras "faluas"...)


terça-feira, 21 de junho de 2022

"Lisboa (1)"



Lisboa (1)

por trás dos muros da cidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios - cresce um voz
que sobe e fende a brandura das casas

da escrita dos inumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da europa

mais além - para os lados do corpo - permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro

plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem nos olha contra um céu desesperado - jardim
de íris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul - lisboa

lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres

e morres
carregado de tristezas e de mistérios - morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
no inferno marítimo das aves


[Al Berto in "Horto de Incêndio]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



                                                                    domingo, 21 de junho de 2020

                                                                    Trafaria Hoje



                                                                    Trafaria Hoje

                                                                    Gostamos de alguns lugares
                                                                    sem que exista uma razão aparente.

                                                                    Trafaria é um desses lugares
                                                                    talvez por nos oferecer uma beleza diferente...

                                                                    Quando passeio nas suas ruas
                                                                    ainda descubro vestígios da sua grandeza.

                                                                    Olho as casas apalaçadas, quase nuas, 
                                                                    com um misto de ternura e tristeza.

                                                                    Da antiga praia não me apetece falar.
                                                                    É sobretudo um estaleiro dos pescadores.

                                                                    A areia suja e os barcos de pernas para o ar,
                                                                    oferecem-nos um quadro cheio de desamores.

                                                                    Sinto que o amanhã pode ser diferente,
                                                                    talvez seja apenas uma ilusão.

                                                                    Quero muito que o Tejo a Trafaria  e a sua gente
                                                                    voltem a despertar a nossa paixão.


                                                                    [Luís (Alves) Milheiro]


                                                                    (Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


                                                                    quarta-feira, 22 de abril de 2020

                                                                    "A vista corre, lés a lés deste vasto cenário..."


                                                                    No meu trabalho de pesquisa encontrei um texto sobre o Tejo, que é de tal forma abrangente, que percorre quase mais do que a nossa vista alcança, num dos muitos miradouros, da banda de cá e da banda de lá. Embora o texto de Jaime Cortesão tenha sido publicado no já desaparecido "O Jornal", penso que deveria ser uma transcrição, de um qualquer artigo sobre Lisboa, publicado anteriormente.


                                                                    [...] «Para lá deste tumulto de formas e cores, rasga-se em frente a enseada azul do Tejo, tão ampla e tamisada de tons que logo funde tudo e mais em seu esplendor e vastidão.
                                                                    A vista corre, lés a lés deste vasto cenário, desde a barra e o mar até às vastas lezírias do Ribatejo, que já mal se lobrigam ao nascente. Entre a barra e o portal de Cacilhas, apertado a sul pelas colinas baixas da Trafaria, Lazareto e Almada, estende-se o canal do rio, dum azul intenso e concentrado. Logo, e de chofre, o Tejo abre a enseada imensa, que mais diríamos um lago, tão remansoso e fechado nos fica a toda a volta. Para lá do pontal, mais abrigada, a enseada do Alfeite espelha as águas límpidas e quietas dum azul leitoso.» [...]


                                                                    (Fotografia de Luís Eme - Tejo)

                                                                    sábado, 21 de março de 2020

                                                                    "Olhar o Tejo" (e esta?)




                                                                    Olhar o Tejo


                                                                    Sempre que desço até ao cais
                                                                    Fico por ali, encantado a olhar
                                                                    Maravilho-me com as barcas e os arrais
                                                                    Mesmo sem saber onde fica o mar

                                                                    Olho para Norte e para Sul
                                                                    Para toda aquela largueza
                                                                    De água pintada de verde e azul
                                                                    Que me enche os olhos de beleza

                                                                    Prefiro ficar por ali a sonhar
                                                                    Nunca pergunto a ninguém
                                                                    Onde acaba o Tejo e começa o mar
                                                                    Ou para que lado fica Belém

                                                                    Sei que um dia vou descobrir
                                                                    E depois nunca mais esqueço
                                                                    Sem tão pouco deixar de sorrir
                                                                    Para este rio, tão belo e tão avesso

                                                                    Sempre que desço até ao cais
                                                                    Fico por ali, encantado a olhar
                                                                    Maravilho-me com as barcas e os arrais
                                                                    Mesmo sem saber onde fica o mar

                                                                    Nunca pergunto a ninguém
                                                                    Onde acaba o Tejo e começa o mar
                                                                    Ou para que lado fica Belém
                                                                    Prefiro ficar por ali a sonhar

                                                                    [Luís (Alves) Milheiro]


                                                                    (Fotografia de Luís Eme - Tejo)


                                                                    terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

                                                                    O teu Olhar Brilha quando Olhas o Tejo...


                                                                    «O teu olhar brilha e ganha vida quando olhas o Tejo.

                                                                    Sentes-te feliz por sentires que ele vive uma "segunda vida", que já passou o tempo em que quase se limitava a ver passar os cacilheiros. Agora está sempre cheio de barcas, de múltiplos tamanhos e modelos, que levam os turistas até à foz... e depois voltam.

                                                                    Até o Mar da Palha está diferente (o teu avô contou-te a história do seu nome, que ele começou a ser chamado desta forma pelos pescadores que chocavam com paus, palhas e juncos, por ali ficavam a flutuar, arrancados pelas correntes e pelas marés vivas, das margens das lezírias). Está mais vivo, mais azul...»


                                                                    (texto meu, com a tentação de ser a legenda da fotografia...)

                                                                    (Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


                                                                    sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

                                                                    "Tejo-Mar"


                                                                    Um soneto "fresquinho", que nasceu hoje, à beira-Tejo...


                                                                    Tejo-Mar

                                                                    Passeio ao lado do Tejo-Mar
                                                                    sem qualquer barca-coragem.
                                                                    Talvez lhes falte jeito para dançar
                                                                    com qualquer musa selvagem.

                                                                    (um minuto depois...)

                                                                    Fico feliz ao ver um cacilheiro
                                                                    que acabou de deixar o cais.
                                                                    Como se o seu "coração-marinheiro"
                                                                    não se assustasse com temporais...

                                                                    (dois minutos depois)

                                                                    E depois descubro um veleiro
                                                                    também sem medo da maresia
                                                                    e deste tempo quase traiçoeiro

                                                                    Fura as ondas com subtileza
                                                                    com um toque de aventura e magia
                                                                    oferecendo imagens de rara beleza.


                                                                    [Luís Alves Milheiro]



                                                                    (Fotografia Luís Eme - Tejo)

                                                                    domingo, 27 de outubro de 2019

                                                                    "Uma Gaivota com Óculos"



                                                                    O Carlos Pinhão, além de excelente jornalista, era também um grande contador de histórias. Escreveu vários livros, especialmente para o público mais jovem.

                                                                    Um desses livros foi "Uma Gaivota com Óculos", que começa com o relato pitoresco de uma viagem a Almada, que passo a transcrever:

                                                                    [...] «Era uma vez um sujeito que vivia em Lisboa e que foi convidado para ir a Almada contar histórias às crianças, Disse que sim, pegou nuns papéis em que tinha umas histórias escritas e, no Terreiro do Paço, apanhou um barco para Cacilhas.
                                                                    Ia no barco a reler os papéis, a ver se decorava as histórias, quando o vento, inesperadamente, lhe arrancou as folhas das mãos. Ficou muito aflito a ver os papéis no ar.
                                                                    Logo passou a aflição ao Sujeito dos Papéis, agora muito entusiasmado com aquele espectáculo imprevisto. As gaivotas devem ter pensado que se tratava de peixe, porque foram apanhar as folhas que estavam na água e deram-lhe valentes bicadas, enquanto mais acima, outras gaivotas disputavam outras folhas, puxando cada qual para seu lado.» [...]

                                                                    (Fotografia de Luís Eme - Tejo)

                                                                    segunda-feira, 5 de agosto de 2019

                                                                    A Arealva


                                                                    Claro que a Arealva dos nossos dias é um conjunto de ruínas, mas já foi outra coisa, bonita e agradável...


                                                                    A Arealva
                                                                      
                                                                    A quinta é um sossego.
                                                                    Às vezes penso que a quinta é o paraíso.

                                                                    Sei que o Inverno é horrível,
                                                                    que o Sol mal passa por ali
                                                                    e o Tejo enche tudo de humidade.

                                                                    Mas depois chega a Primavera
                                                                    e esquecemos tudo.
                                                                    Assim que abrimos a janela
                                                                    olhamos o Rio e descobrimos logo
                                                                    uma bonita aguarela.

                                                                    E então quando chega o Verão
                                                                    temos praia e temos campo.

                                                                    É por isso que a Arealva
                                                                    é um encanto…


                                                                    [Luís Alves Milheiro - "Ginjal 1940, poemas"]



                                                                    (Fotografia de Luís Eme - Arealva)