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segunda-feira, 9 de março de 2026

"Vi que estava lá o rio Tejo..."


«Há uma história de infância que conto num dos meus livros. Eu brincava numa rua íngreme por trás da minha casa. Um dia subi-a, desci e fiz uma coisa que nunca tinha feito, que é olhar para o horizonte. E vi que estava lá o rio Tejo. Foi uma experiência muito forte, a de sentir que aquilo estava lá antes de o ter visto. Onde eu estava a começar, estava a continuar. Nós só começamos depois de continuar.»

 

                                       [Maria Filomena Molder, “E (exp)”, 06 Jul 16]

(Fotografia de Luís Eme - Lisb0a)


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Atravessar o Rio era uma aventura sem parágrafos..."


«Vez por outra, o meu pai levava-me até à Trafaria. Atravessar o rio era uma aventura sem parágrafos. Colocava-me na amurada do vapor e seguia o doce movimento das ondas, perdidas em outras ondas e em espuma e em salpicos. As gaivotas soltavam gritos estridentes e poisavam levemente nas águas, procurando comida, ou seguiam em bando a uns metros da popa do barco. O barco deixava um sulco borbulhante nas águas. Os meus pensamentos voavam, iam para longe, e eu era um capitão nos Mares da China, um bandeirante na selva, um aviador destemido, um caçador de leões.»

Baptista-Bastos in "A Bolsa da Avó Palhaça"] 


(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

"As noites calmas..."


Há noites assim, calmas e solitárias.
Parece que está tudo a dormir e que a noite nos pertence, completamente...
Estava ali, sentado, à beira rio, à espera de ti e do cacilheiro que te transportava para a nossa Margem, quase sem pensar em nada, além do Tejo e da Lua.
Foi então que, sem nenhuma razão aparente, lembrei-me que na infância os dias são quase infinitos, temos tempo para fazer tudo.


[Luís Alves Milheiro, In “Largo da Memoria”, 21 Mai 13]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

domingo, 9 de novembro de 2025

"A minha primeira Cacilhas..."


A primeira vez que me recordo de ouvir falar de Cacilhas, foi nas páginas de um dos livros de leitura da escola primária.

Era um texto de algum escritor (tenho de investigar o caso...) que vinha acompanhado de uma imagem nocturna do Tejo, com um Cacilheiro a fazer a travessia e tinha como fundo as luzes da Outra Banda.

Não me lembro do conteúdo do texto, mas pela imagem que ficou gravada na minha cabeça, à distância de mais de meio século, penso que se devia falar do regresso a casa das muitas pessoas que trabalhavam em Lisboa e viviam na outra margem do Rio. 

Sim, a Cacilhas desse tempo, não fugia do epiteto de "dormitório da Capital", que continua actual...

[Luís Alves Milheiro, in "Casario do Ginjal", 04 Nov 25]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

"Aquilo era o Mar..."

 

«Para mim, vir para aqui já era ir a Nova Iorque. Não se respirava no país, mas eu respirava quando vinha a Lisboa. A primeira coisa que fazia era sair no Rossio e dirigir-me ao Tejo para respirar o mar. Aquilo era o mar.»

                                                           [Eduardo Lourenço, “Público”, 11 de Maio 2014]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Ginjal (início)


 Ginjal (inicio)

Foi há muito tempo...
quase quatro décadas,
que descobri a estrada à beira rio,
conhecida como o "Cais do Ginjal".
Ainda havia operários nas primeiras casas,
alguns habitantes no seu coração
e dois restaurantes no fim...

Era uma forma feliz de caminhar
e falar com o Tejo...

[Luís (Alves) Milheiro]

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 28 de julho de 2024

"O Tejo quando ainda tinha fragatas..."

 

«O Tejo quando ainda tinha fragatas a passearem-se pelas águas e voavam golfinhos a caminho da Barra.
O José Quitério a falar dos prazeres de uma caldeirada, à fragateiro, na “Floresta do Ginjal”, com fragatas a entrarem-lhe pelos olhos dentro.
O grito das gaivotas, o vai-vem dos cacilheiros, um estado de espírito ondulado.
Esta fotografia deslavada foi tirada com um caixote-kodak,  a minha primeira máquina fotográfica, prenda, pelos meus 15 anos, do António Colaço.
Memórias doces e afáveis.»
 
[Sammy, in “Cais do Olhar”]


(Fotografia e texto publicados no blogue "Cais do Olhar", a 11 de Janeiro de 2011)


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

"Fragatas"

  


Eram casinhas ponteagudas
movidas pela associação do vento com os panos.
Deslizavam formando pequenos relevos alvos
que se desdobravam nas águas azuis, ainda límpidas.
Havia alegria nos que habitavam as embarcações, 
alegria que se transmitia à passagem coalhada
de gémeas de muitas cores.
Só as velas eram brancas.
- Mas as gaivotas também!
E os vôos altaneiros, com piares de entendimentos
eram a vocação de sentinelas felizes
que sentiam a plenitude poética deste Tejo.


[Fernando Barão, "In Margem Sul"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


Nota: Porque hoje é dia de homenagear este Amigo, recordo aqui um dos seus poemas com Tejo, barcas e gaivotas...


quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

"Poema da Memória"


Poema da Memória
 
Havia no meu tempo um rio chamado Tejo
que se estendia ao Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um espelho
porque, do que sabia,
só um espelho com isso se parecia.
 
De joelhos no banco, o busto inteiriçado,
só tinha olhos para o rio distante,
os olhos do animal embalsamado
mas vivo
na vítrea fixidez dos olhos penetrantes.
 
Diria o rio que havia no seu tempo
um recorte quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
onde dois grandes olhos,
grandes e ávidos, fixos e pasmados,
o fitavam sem tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos grandes,
olhos de bicho atento
que espera apenas por amor de esperar.
 
E por que não galgar sobre os telhados,
os telhados vermelhos
das casas baixas com varandas verdes
e nas varandas verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da história que voava
com asas grandes, grandes, flutuantes,
e poisava onde bem lhe apetecia,
e espreitava pelos vidros das janelas
das casas baixas com varandas verdes!
Ai que bom seria!
Espreitar não, que é feio,
mas ir até ao longe e tocar nele,
e nele ver os seus olhos repetidos,
grandes e húmidos, vorazes e inocentes.
Como seria bom!
 
Descaem-se-me as pálpebras e, com isso,
(tão simples isso)
não há olhos, nem rio, nem varandas, nem nada.
 
[António Gedeão in Poemas Póstumos]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


segunda-feira, 31 de julho de 2023

"Este Rio" (o outro...)


«Recordo aquele rio que os parisienses enfeitam com barracas de velhas gravuras e livros em segunda mão, com tranquilos e esperançosos pescadores à linha, com estudantes, com namorados, com simples adoradores do Sol. E vejo este rio tão deserto. Porque é uma estranha cidade, esta que não o merece. Um rio tão belo como poucas cidades podem gabar-se de possuir. Lisboa, no entanto voltou-lhe as costas e transformou-o em objecto de luxo para ver ao longe. Uma espécie de quadro na parede. E anunciam-se no jornal casas, geralmente muitas casas, com vista para o rio. Com vista, é tudo.»

[parte inicial de uma das memoráveis crónicas de Maria Judite de Carvalho, imortalizadas no livro, "Este Tempo", datada de Dezembro de 1974]

Nota: Como disse noutra transcrição das palavras da Maria Judite, felizmente já neste novo século conseguimos resgatar o Tejo, voltámos a ter as suas margens libertas, para todos nós o pudermos usufruir...


(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)



segunda-feira, 10 de julho de 2023

"Rio Tejo" (felizmente voltou a ser nosso...)


«Mesmo que o Mercado da Primavera não tivesse outro interesse, tinha, sem dúvida, um e importante, o de nos proporcionar durante o tempo da visita, uma nesga do rio Tejo, e de podermos comer ou tomar um café, ali, com o rio por assim dizer aos nossos pés.

Este Tejo é, de facto, um rio abandonado pelos deuses dos rios. Está quase todo tapado, vedado, escondido, armazenado, por assim dizer, lá para o fundo da cidade. Fábricas, estaleiros, sei lá, tudo serve para que o não veja o lisboeta nem mesmo o turista - é bom não esquecer o turista, o sol e o céu azul não bastam para o atrair, é bom ajudar um pouco. E o Tejo... para o observarmos de perto temos de ir por aí fora para as bandas de Vila Franca, ou então desembocar da auto-estrada em Caxias, onde ele ainda não é mar mas também já não é rio.»

[parte inicial de uma das memoráveis crónicas de Maria Judite de Carvalho, imortalizadas no livro, "Este Tempo", datada de Junho de 1971]

Nota: Felizmente já neste novo século conseguimos resgatar o Tejo, voltámos a ter as suas margens libertas, para todos nós o pudermos usufruir...


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, 20 de abril de 2023

"Era uma Delícia a Travessia do Tejo entre Margens"


[...] «No Verão, era uma delícia a travessia do Tejo entre margens. Cardumes de peixes eram visíveis e bandos de roazes nas suas cabriolices acompanhavam os barcos. Os passageiros já estavam tão habituados que não lhes ligavam. Alguns patuscos decalçavam-se e lá vinham com os pés dentro de água...

Era frequente, roazes e golfinhos subirem o Tejo junto à margem sul à caça de chocos e lulas que na época própria entravam no estuário à procura dos sapais do Seixal, Moita e Montijo para desovarem. Eram dias de festa para os cetáceos e pescadores de Cacilhas.» [...]


[Diamantino Lourenço, in "Cacilhas, ponto de  partidas, local de passagem"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

"Anos Quarenta, os Meus"


Anos Quarenta, os Meus

De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavão alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma

alma e ar reféns dentro do pulmão
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mão ).
Salazar três vezes, no eco da aula.

As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra Cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.

  

[Luiza Neto Jorge, in Revista Colóquio/Letras, n.º 97, Maio 1987]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



quarta-feira, 30 de junho de 2021

Romeu e as suas Memórias do Cais do Ginjal


«Passei os primeiros vinte anos da minha vida no Cais do Ginjal, aprendi desde muito cedo a nadar no Tejo, que ainda estava habitado por muitos peixes... e havia o folclore único dos golfinhos. Estou a falar de uma época em que tanto no cais como no rio havia muita vida, uma vez que o Ginjal estava cheio de fábricas e armazéns, donde se destacavam as tanoarias e as fábricas de conserva de peixe.»

[In "Gente D'Almada", Romeu Correia o Escritor e o Desportista", entrevista de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 9 de maio de 2021

"Além das Pedras, Temos o Rio" (um começo...)


No final de Maio de 2006 criei o meu primeiro blogue, que ainda continua a resistir ao tempo - o "Casario do Ginjal".

Como escrevi no seu subtítulo: "nasceu como um espaço de opinião, informação e divulgação de tudo aquilo que vivia ou sobrevivia nas proximidades do Ginjal e do Tejo, mas foi alargando os horizontes...

O mais curioso foi eu perceber que ele estava mesmo "cheio de Tejo", nos primeiros textos que publiquei (fui ler e gostei...). É por isso que durante este Maio de 2021, quinze anos depois deste começo, vou republicar essas prosas poéticas e poesias prosaicas. 

Começo com as primeiras palavras:


Além das Pedras, Temos o Rio…
 
 
Além das pedras e do entulho amontuado,
(nesta margem esquerda)
sinais vulgares de abandono,
temos o Rio,
esse mesmo, (único)
o Tejo...
 
é ele que dá vida a este meu casario,
do Ginjal...
 
[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal-Tejo)


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

As "Lavadeiras" do professor Américo e do Tejo...


Parece quase ficção, o que acontecia na primeira metade do século vinte (e em tempos mais antigos claro...), na "Praia das Lavadeiras", hoje conhecida internacionalmente pelos muitos turistas que vêm propositadamente ao Ginjal, para almoçar, petiscar ou jantar à beira Tejo, nos dois restaurantes mais apetecíveis da margem sul do rio.

Provavelmente chamam-lhe a "praia dos restaurantes"... Mal eles sonham que bastava abrir uma pequena cova, na maré-baixa, para que daquela areia pouco límpida, brotasse água doce. Água que era aproveitada pelas mulheres de Almada e Cacilhas, para lavarem a sua roupa branca, que depois ficava ali a "corar", ao sol...

Atrás da história e da amizade, deixo-vos o poema, "Lavadeiras", de Américo Morgado, professor e amigo desta nossa margem, com saudades dos nossos cafés, sempre acompanhados por palavras simples e sábias...

 

Lavadeiras
 
Lavadeira de Cacilhas
trouxa branca, levais
ao rio Tejo azul correndo
vai pro mar manso demais
á espera dos teus olhos
cor de mel, a doçura
a loucura da tua roupa
invejada brancura.
As cantigas e as brigas
alegria, ciúme
é dança, gritos, queixume
da pobreza malvada.
 
Suave cotovelada.
 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, 17 de novembro de 2020

O Ginjal do Romeu (com o Rio)...


A minha homenagem a Romeu Correia, que faz hoje 103 anos. E que ainda continua a ser a grande figura da literatura almadense.

«Que sítio deslumbrante! Havia o lavadouro das mulheres, as escadinhas para o cais do Ginjal, e o rio e os barcos… O rio e os barcos sobretudo! E metia-lhe uma confusão de encantar aquela enorme massa de água assim toda junta – porque tão depressa aquilo parecia estar no seu devido lugar, como ser um comprido pano azul ligado ao próprio céu.»

[Romeu Correia, in "Os Tanoeiros"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 25 de outubro de 2020

O Primeiro Olhar...


A primeira vez que olhei o Tejo, era tão pequeno que tenho a sensação que nem sequer conhecia o medo. Foi tudo quase natural, rente ao Cais das Colunas.

Foi também a primeira vez que atravessei o rio para a Outra Banda (para visitarmos o Cristo-Rei...). Tenho uma ligeira lembrança das janelas e dos bancos de madeira, envernizados,  e também da "estrada" que a proa do cacilheiro deixava no Rio.

Atravessar o rio ao colo do meu pai, com os olhos presos à janela, deve ter ajudado a sentir-me seguro. Não me lembro, mas devo ter-me cruzado com uma ou outra fragata, com as velas ao vento, mais para o meio do rio, como era normal nesses já longínquos anos sessenta...

[Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, 25 de maio de 2020

"Aquelas Praias"


Hoje abro uma excepção fotográfica e publico juntamente com o poema "Aquelas Praias", de Fernando Barão, uma sua fotografia da "Praia das Lavandeiras", que faz jus ao nome, no Ginjal (praia onde hoje se encontra o restaurante "Atira-te ao Rio").

É a homenagem a um amigo, que partiu hoje...

Aquelas Praias

Éramos como bandos de pardais livres como o vento. 
- Até as gaivotas deveriam ficar enciumadas -
Logo, a baixas horas,  os caminhos eram percorridos em tropel
O meio liquido estava ali à nossa vista para o regabofe
com as roupas que Deus nos ofereceu à nascença...
Margueira, Lavadeiras, Alfeite, refúgios dos que sabiam nadar
e dos que se agarravam à água...
Nos tempos frios a malta ficava nostálgica, sem brilho, 
sem fulgor, sem aquele visionamento de horizontes azuis
que se alongavam até terras do Ribatejo.

(Fotografia de Fernando Barão - Ginjal)


sábado, 7 de março de 2020

O Tejo ao Fim da Tarde...


A tarde fugia e um Cacilheiro navegava no Tejo, com o olhar preso ao cais de Cacilhas.

Lembrei-me dos tempos em que ficava à tua espera, sem ter a certeza, se era aquele o cacilheiro, que te trazia de volta a casa...

Entretanto passaram mais de duas décadas e o mundo é ligeiramente diferente.

Ainda não havia telemóveis, nem dava muito jeito, fazer "sinais de fumo", de uma margem para a outra...

O comboio da ponte, o teu transporte de hoje, ainda era só um projecto...


(texto meu, de memória...)

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)