Mostrar mensagens com a etiqueta homenagem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta homenagem. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 23 de julho de 2026

"Retrato de Amália"

 

Retrato de Amália
 
És filha de Camões filha de Inês
assassinada voz de portuguesa
cantando a nossa imensa pequenez
com laranjas e gomos de tristeza.
 
É no claro Mondego dos teus olhos
que se debruça o mal da nossa mágoa.
Ao Tejo dos teus gestos que se acolhe
o nosso coração a pulsar água.
 
Falando desatada de saudade
choras um povo cantas a balada
mais bonita que soa na cidade
de Lisboa por ti apaixonada.
 
José Carlos Ary dos Santos


(Fotografia de Luís Eme - Alcochete)


quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

"Fragatas"

  


Eram casinhas ponteagudas
movidas pela associação do vento com os panos.
Deslizavam formando pequenos relevos alvos
que se desdobravam nas águas azuis, ainda límpidas.
Havia alegria nos que habitavam as embarcações, 
alegria que se transmitia à passagem coalhada
de gémeas de muitas cores.
Só as velas eram brancas.
- Mas as gaivotas também!
E os vôos altaneiros, com piares de entendimentos
eram a vocação de sentinelas felizes
que sentiam a plenitude poética deste Tejo.


[Fernando Barão, "In Margem Sul"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


Nota: Porque hoje é dia de homenagear este Amigo, recordo aqui um dos seus poemas com Tejo, barcas e gaivotas...


quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

"Almada Terra Coragem"



 Almada Terra Coragem
 
Vive em frente de Lisboa
Sobre o Tejo Debruçada
Terra de gente de proa
Linda Cidade de Almada
 
Há quem lhe chame Outra Banda
Por morar do lado esquerdo
Ser sentinela e varanda
De um povo que não tem medo
 
Foi terra valente
Por nós sempre amada
Foi grito, semente 
De gente acordada
 
Almada fabril
De ganga vestida
Almada de Abril
Nunca foi vencida
 
No tempo da tirania
A velha Vila de Almada
Lutou p'la democracia
Foi bandeira e foi vanguarda
 
Por isso a ti, ó Cidade
Quero prestar-te homenagem
Raiz, Força, Liberdade
Almada, Terra Coragem

 
[Poema de Orlando Laranjeiro, do livro que tem como título este poema, "Almada Terra Coragem"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

domingo, 20 de junho de 2021

"Ó Minha Cidade Bela"


Porque hoje se comemora o centenário no nascimento da escritora, Matilde Rosa Araújo, publico aqui com a devida vénia, o seu bonito poema, "Ó Minha Cidade Bela", do seu livro, "O Cantar de Tila":


Ó minha cidade bela

 Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
Meu coração é um navio,
P'las ruas a navegar.

Ó minha cidade bela,
Feita de mar e de rio:
Teus passeios são as ondas
Eu lá vou com meu navio!

Já sou uma senhorinha
Tenho sapatos de salto:
Ó minha cidade bela,
Já navego no mar alto!

Já navego no mar alto!
Sem ninguém à minha beira:
As cores do meu navio
São flores de laranjeira!

Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
É tão branco o meu navio
Não o deixes naufragar!


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Lisboa, Tejo e Carlos do Carmo


Carlos do Carmo que nos deixou no dia primeiro deste ano de dois mil e vinte e um, cantou Lisboa e o Tejo como muito poucos, porque sempre foi um apaixonado e um protector da sua (e nossa) Cidade. 

O facto de ter nascido e crescido na Bica, quase com o Tejo no final da rua, fez com que se deliciasse desde muito cedo com as mil e uma tonalidades que o Rio lhe oferecia, espelhando um céu, quase sempre azul...

Depois do casamento foi viver para as Avenidas Novas mas nunca deixou a Velha Lisboa, que amou e cantou com a cumplicidade dos nossos melhores poetas.

Deixamos aqui três testemunhos do seu amor pela Cidade e pelo Rio: 

«Eu tenho um olhar muito romântico sobre a cidade, e os olhares românticos são incuráveis, completamente incurável. E as mazelas e os seus defeitos, não é que os esconda, não lhes dou importância que provoquem infelicidade, sabe? Lisboa tem coisas tão boas, que eu deixo que no campeonato ela fique esses pontos todos à frente das coisas que estão mal feitas.»                              

«Lisboa é uma cidade sui generis. Há que ter apreço pelo trabalho de quem foi pondo a população virada para o rio, porque vivemos anos nesta coisa sombria, de costas para o Tejo. Isto deu luz à cidade. E o português é acolhedor, sem ser servil. Deixe-me circunscrever à minha cidade, sendo eu bairrista. Mas Lisboa tem uma luz imbatível. As pessoas ficam desvairadas. Os miradouros, os bairros antigos que são o pulsar de uma história de quase 900 anos. E tem uma autenticidade…» 

 «Durante muitos anos o Tejo foi-nos vedado. Hoje há casais a passear com as crianças à beira-rio. De cada vez que vou a uma esplanada junto ao Tejo penso que sou um privilegiado por viver numa cidade com este rio e com esta luz.» 

Nota: Frases retiradas de entrevistas publicadas do Diário de Notícias de 9 de Setembro de 2016  Notícias Magazine” de 23 de Julho de 2014 e “Tabú (Sol)” de 4 de Outubro de 2008.


(Fotografia de Luís Eme - Tejo e Lisboa)


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

"Olhar o Tejo a pensar num verso de Pessoa"...


A minha homenagem a Eduardo Lourenço, uma das grandes figuras da cultura portuguesa do nosso tempo. Talvez um dos melhores exemplos do que é um intelectual, essa figura em extinção na sociedade portuguesa.

Numa entrevista ele falou do Tejo, numa situação muito especial (pelo lugar e pelo tempo que se vivia...), que transcrevo com a devida vénia:


«A única vez em que estive na [Rua] António Maria Cardoso [sede da PIDE], no famoso terceiro andar, um andar de más recordações para muita gente, estava um dia maravilhoso. Eu olhava o Tejo e lembrava-me de um verso do Pessoa (já naquela altura). Vem um rapaz: “Ó Sr. Dr., está em França. Não me pode arranjar lá um emprego?”. Isto não se acredita. “Ó homem, você está aqui tão bem... Vão ao cinema e andam nos carros eléctricos de borla.” Um bocado cínico da minha parte... Mas aquilo não era uma brincadeira. Muita gente pagou caramente, eram militantes a sério.»


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, 31 de maio de 2020

"O Fotógrafo da Névoa"


Mais uma homenagem  ao meu amigo, Fernando Barão, que nos deixou na passada segunda-feira, com um poema onde me inspiro no amante da fotografia, que adorava tirar retratos em dias com nevoeiro...
              
                                                                      (ao Fernando Barão)



O Fotógrafo da Névoa

Quando ouve a ronca do Farol
sente que o chamam no cais
para tirar retratos sem Sol
de belas paisagens fluviais

Prepara tudo com cuidado
a "kodak" é uma caixa de surpresas
que às vezes o deixa abismado
por o deixar fixar tantas belezas

A sua Isabel fica ao balcão
ele lá vai, atrás do nevoeiro
movido pela sua outra paixão.

Quem o olha, ali rente ao rio
ignora aquele artista de corpo inteiro
capaz de arrancar beleza até do vazio.

[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A Sophia e o "Nocturno da Graça"...


Hoje é dia da Sophia e por isso deixo aqui partes do seu poema "Nocturno da Graça"...

Há um rumor de bosque no pequeno jardim
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilhas.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.
[...]

Com os seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.
[...]

Sozinha estou contra a cidade alheia
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)