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sábado, 7 de fevereiro de 2026

"Dizia, orgulhosamente, que devia ser o único lisboeta que jamais saíra da sua cidade..."


«Júlio Verne dizia, aos sete ventos, que quase tudo o que aprendera sobre o mundo fora nas mesas de café.
Mas a faceta mais curiosa e inimaginável da sua vida, era o facto deste artista surrealista alfacinha nunca ter saído de Lisboa. Dizia, orgulhosamente, que devia ser o único lisboeta que jamais saíra da sua cidade.
Júlio nem sequer tivera a tentação de atravessar o Rio Tejo em qualquer barca para apreciar as saborosas mariscadas de Cacilhas... quanto mais envolver-se em outras viagens por esse mundo fora. [...]»
 
[Luís Alves Milheiro in "Um Café com Sabor Diferente"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A noite de Lisboa...


«Lá fora uma chuva sem peso confundia-se com a humidade do rio. Saímos para a noite do nosso tempo, para os reflexos luminosos dos candeeiros no asfalto brilhante, para o uivo das sirenes e dos motores, para a respiração inconfundível da cidade. Mandámos parar o primeiro táxi que descia a Avenida da Liberdade e preparámo-nos para rodear a noite de Lisboa pela margem norte do Tejo rumo ao Atlântico.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, 30 de setembro de 2024

"Os Montes Claros"...


«Os Montes Claros tornaram-se o lugar de eleição de Kaloust, O Chauffeur levava-o com regularidade para uma clareira de onde o magnata, sentado por baixo de uma acácia, permanecia horas a contemplar o estuário do Tejo em toda a sua largura por cima da copa das árvores, com as colinas da outra margem recortadas a cinzento acima do horizonte azul.»

[José Rodrigues dos Santos, in "Um Milionário em Lisboa"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

"A larga bacia resplandecente do Tejo"


«A larga bacia resplandecente do Tejo estendia-se em frente à cidade, à esquerda, como um vasto piso de mármore espelhado por onde os cacilheiros da Parceria dos Vapores Lisbonenses  deslizavam com preguiça de tartaruga, enquanto Almada espreitava na outra margem. O Sol deitava-se já num prenúncio de crepúsculo, rasgando o céu em aguarelas vermelhas e lilases e arrancando ao arménio um suave suspiro de nostalgia.»

[José Rodrigues dos Santos, in "Um Milionário em Lisboa"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, 26 de julho de 2024

"Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto"


«Vitorino emagreceu, o bigode foi-se-lhe tornando todo branco. Um belo dia, juntou-se com Vera Quitério, no velho apartamento das Avenidas, e passou também a dizer "era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto".

Uma ocasião, Jorge Matos encontrou-o e dirigiu-lhe pela quinquagésima vez a pergunta que todos os comunistas de todo o Mundo já se fizeram, no íntimo, pelo menos quatrocentas vezes: "que significa ser comunista, hoje?". Vitorino recolheu-se, sisudo, durante um momento brevíssimo. Depois, abriu um sorriso jovial, de orelha a orelha, e deu-lhe uma palmada sonora nas costas: "É pá, tem calma, pá!", disse.

E o Tejo continuou a correr, e os tempos a não haver meio de os parar.»

 

[Mário de Carvalho in "Era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto"]

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, 19 de março de 2024

Queria embarcar num cacilheiro e navegar..."


«Olhou a janela do quarto da residencial, descobriu uma rua pouco movimentada que o confundia. Ao longe esperava-o um quadro diferente, o Tejo das horas boas e das horas más.

Voltava a sentir um desejo avassalador de percorrer as ruas de Lisboa e olhar ninfas que prometiam coisas que nunca cumpriam. Parar em esplanadas carregadas de inúteis que apenas sabiam contar anedotas com barbas e conversar sobre o tempo. Queria embarcar num cacilheiro e navegar no rio grande que transformava a capital numa ilha.»

[Luís Alves Milheiro, in "Bilhete para a Violência"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, 20 de outubro de 2023

"Às vezes, ao fim da tarde..."


[...] «Às vezes, ao fim da tarde, descíamos a Avenida, depois a Baixa, íamos até ao rio. Nos dias de sol havia sempre junto da amurada crianças que olhavam deslumbradas para os barcos ou que corriam alegremente atrás das pombas.» [...]


[Maria Judite de Carvalho, in "tanta gente Mariana..."]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, 21 de novembro de 2021

"Voltar à Infância"


«Quando apanhou o cacilheiro no Cais Sodré e se viu no meio do rio, recordou-se da meninice passada rente ao Tejo, nas brincadeiras diárias que fazia ao longo do Ginjal com os amigos, por entre os operários das várias indústrias que davam vida aquele lugar tão aprazível.

Vieram-lhe à memória dois ou três rostos de amigos mais chegados. O que seria deles, vinte e muitos anos depois? Talvez não os reconhecesse às primeiras, sabia o quanto a vida gostava de nos mudar por dentro e por fora...

Deixou as pessoas irem saindo, enquanto olhava pela janela do cacilheiro o que podia ver de Cacilhas e do Ginjal. Depois desceu as escadas e saiu calmamente para terra. Primeiro espreitou o Ginjal. Estranhou ser recebido por placas informativas colocadas pelo Município, que eram no mínimo alarmantes, pois identificavam várias casas e armazéns em perigo de ruir. Ficou com uma vontade enorme de seguir por aquele caminho quase proibido, mas ao olhar o relógio, achou que era melhor ideia este passeio ficar para depois do almoço.

Percorreu com alguma emoção o Largo de Cacilhas e depois entrou na Rua Cândido dos Reis. Olhou para os vários restaurantes, ainda sem se decidir onde iria comer uma caldeirada de peixe. Tinha prometido a si mesmo só parar rente ao número 27.» 

(começo de um texto inédito escrito no final do século XX)

[Luís (Alves) Milheiro]

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, 26 de maio de 2021

"Sonhos Cor de Água"


Ainda com o Tejo, com o "Casario" e com as minhas palavras...

«[...] Enquanto esperava, calmamente, pelo cacilheiro, ficou com a sensação que aquele largo que, fora nos anos oitenta o maior centro de circulação de pessoas e transportes da Europa, estava cada vez mais calmo. Tudo graças ao comboio da ponte...
Uns metros mais à frente descobriu uma cara conhecida, Pedro Sempre, outro herói das suas crónicas mundanas.
Pedro era um velho contador de histórias que passava parte dos seus dias fundeado num banco de madeira, assistindo ao cair da tarde rente ao seu Tejo.
Quem quisesse ouvir qualquer aventura do mundo só precisava de se sentar e escutar com atenção, a sua voz pausada, o melhor bilhete para uma mão cheia de viagens, extraordinárias, pelo Ocidente e Oriente, que se tentavam aproximar das de Fernão Mendes Pinto.
À medida que falava, o velho fazia festas ao Banzé, o seu companheiro de sempre, um cão escanzelado que lhe aquecia os pés e a alma, escondendo com o seu pelo deslavado, os buracos dos sapatos gastos, com ar de quem já dera mais que uma volta ao mundo [...]»

[Parte do conto "Sonhos Cor de Água", in "Um Café com Sabor Diferente", de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, 13 de maio de 2021

"Dava Grandes Passeios com o Avô..."


Continuando com as primeiras publicações no "Casario do Ginjal", uma transcrição do meu primeiro e único romance, publicado em 1995, com o Tejo e o Ginjal:

« [...] Quis recordar-se da sua primeira visita ao Oceano Atlântico, não conseguiu qualquer imagem. Devia ser demasiado pequeno. Ter vivido sempre paredes-meias com o Tejo não ajudou muito, o rio foi o seu primeiro mar. Dava grandes passeios com o avô pela estrada marginal do Ginjal. O velho Vasco Gama falava-lhe do tempo dos golfinhos e dos homens que nadavam até Lisboa. Os seus olhos brilhavam quase encantados, seguindo o voo das gaivotas e escutando aquelas palavras mágicas, acompanhadas pelo marulho leve das águas que lavavam as paredes da pedra do cais e eram mais que música de fundo [...].»

[In "Bilhete para a Violência", de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sábado, 1 de agosto de 2020

"A Marca"...


O livro de contos "Nasci com Passaporte de Turista", de Alves Redol, como não podia deixar de ser, visita o Tejo, mais escondido e amargo, que ele conheceu tão bem, rente à sua Vila Franca de Xira e a outras terras próximas. 

Do conto "A Marca" retirámos estas palavras:

[...] «O outro ficou deitado, bagas de suor frio a perlá-lo, crispações de dor a percorrê-lo. E as mulheres voltaram a atirar-lhe lama, ferindo-lhe a camisa de pontos negros que alastravam.
O Ti Rendeiro tremente de ira, como sacudido por um frio de sezões, estava entre  os dois guardas que o agarravam, cabeça erguida, olhar parado no Tejo, fixando-lhe o ondular manso.
Nascera a ouvir-lhe o canto brando nos cascos frágeis das bateiras e nos arcaboiços rijos das fragatas. Crescera a namorar-lhe a safira do dorso e a mirar as velas que o percorriam de lés a lés, num vaivém constante.
Brincara junto dele, conhecera-lhe a voz - aprendera-lhe os segredos. Em noites de luar vinha estender-se-lhe nas margens, sentindo-o tocar-lhe os pés numa carícia de noiva rendida pelos desejos.» [...]


(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)

terça-feira, 19 de maio de 2020

«Porque me chamam Gaivota?»


Maria Rosa Colaço em 1982 publicou um conto sobre o "Gaivota", com o mesmo título. "Gaivota" era um rapazola de Cacilhas, que cresceu paredes meias com o Tejo. Deixo aqui uma pequena transcrição, onde ele esboça a sua "história de vida"...

«[...] Porque me chamam "Gaivota"?
Está mesmo a ver-se... Tenho passado entre os barcos e o Tejo, em cima deste paredão, correndo e escorregando nestas pedras húmidas, mais de metade da minha vida: às vezes, até a pele me sabe a sal.
Ando nisto desde que o meu pai morreu; ajudo um e outro, vendo jornais, pensos, aprendo bocados de palavras de outras terras; invento ruas de outros países quando vejo os estrangeiros de cabelos amarelos e  dinheiro nos bolsos, a comer camarão e lagosta: vivo!
Como tenho a mania de andar em cima desta parede, de asas abertas, como as gaivotas, um dia começaram a chamar-me "Gaivota" e "Gaivota" fiquei. O meu nome é Alfredo. Mas isso não interessa porque ninguém o sabe e Gaivota, afinal, é o que eu queria ser. De verdade, pois! Asinhas a dar-a-dar; peixinho fresco e, lá em cima, lá em cima no vento, no azul, avião-sem-motor, namorado das ondas, sol morno nas costas, dono do Tejo, dono de mim, bicho livre! [...]»

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A Impressão de se Morar num Romance...


António Lobo Antunes na sua estreia literária, com a "Memória do Elefante", foca Lisboa e o Tejo de uma forma peculiar:

«[...] Na noite de Lisboa tem-se a impressão de se morar num romance de Eugene Sue com página para o Tejo, em que a rua Barão de Sabrosa é a fitinha desbotada de marcar o lugar de leitura, apesar de os telhados onde florescem plantações de antenas de televisão idênticas a arbustos de Miró. [...]»


(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)

domingo, 27 de outubro de 2019

"Uma Gaivota com Óculos"



O Carlos Pinhão, além de excelente jornalista, era também um grande contador de histórias. Escreveu vários livros, especialmente para o público mais jovem.

Um desses livros foi "Uma Gaivota com Óculos", que começa com o relato pitoresco de uma viagem a Almada, que passo a transcrever:

[...] «Era uma vez um sujeito que vivia em Lisboa e que foi convidado para ir a Almada contar histórias às crianças, Disse que sim, pegou nuns papéis em que tinha umas histórias escritas e, no Terreiro do Paço, apanhou um barco para Cacilhas.
Ia no barco a reler os papéis, a ver se decorava as histórias, quando o vento, inesperadamente, lhe arrancou as folhas das mãos. Ficou muito aflito a ver os papéis no ar.
Logo passou a aflição ao Sujeito dos Papéis, agora muito entusiasmado com aquele espectáculo imprevisto. As gaivotas devem ter pensado que se tratava de peixe, porque foram apanhar as folhas que estavam na água e deram-lhe valentes bicadas, enquanto mais acima, outras gaivotas disputavam outras folhas, puxando cada qual para seu lado.» [...]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Querer Atravessar o Rio...


«[...] Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo. [...]

[Bernardo Soares, In "Livro do Desassossego"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

domingo, 7 de abril de 2019

O Tejo, Romeu, Almada e Lisboa...


Romeu Correia, o grande escritor de Almada, também se inspirou no Tejo (que está presente em muitos dos seus livros). 

Ele que viveu parte da infância e adolescência no Cais de Ginjal, quase dentro do "Melhor Rio do Mundo"...

«A vila fica num alto e lá em baixo há o rio. Todo o estuário do Tejo pode ser observado lá de riba, e ainda o anfiteatro de Lisboa que, num rodar de cabeça, abrange do Bugio ao Poço do Bispo. Chama-se Almada, a vila. Terra que pertenceu à moirama, e agora é povoada por gente de trabalho que cedo se habituou a sociabilidade, fundando filarmónicas, centros recreativos e culturais, montepios, cooperativas de consumo e grupos desportivos.»
[...]

[Romeu Correia, in "Sábado sem Sol"]


(Fotografia de Luís Eme - Almada)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O Tejo e o Neo-realismo...


Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes, escritores neo-realistas, que cresceram e viveram à beira do Tejo, em Vila Franca de Xira e Alhandra, escreveram várias obras que homenageiam as gentes do Rio. 

Os belos romances, "Avieiros" e "Esteiros", são um bom exemplo do que acabamos de dizer, pelo que transcrevemos, com a devida vénia, duas frases curtas, mas de grande simbolismo: 

«[...] Os velhos falavam num Tejo que fora um jardim de peixes; e diziam que andavam todos a pagar o pecado das guerras e das artes modernas de pescar. [...]» (Avieiros)

«[...] Quando o Tejo passa, algo acontece sempre, porque um rio tem as suas glórias e os seus dramas como os homens. Um rio vive, respira, trabalha, constrói e destrói. [...]» (Esteiros)

(Fotografia de Luís Eme -Trafaria)