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quarta-feira, 19 de julho de 2023

"Toda a bacia do rio, feito um mar, se limpou, se alisou, se esmaltou de preciosas cores e nelas corriam as microscópias velas brancas das faluas"


«Recordo a última tarde que fui a Penha de França. Era em Agosto e a atmosfera enovoada, mas de finíssima cinza, não de pérola transluzente, baralhava as linhas da larga paisagem. O rio mal se distinguia da terra pela aglomeração de bagos de arroz, de pedacitos de cal, onde se denunciavam a custo as povoações da beira-de-água. A noroeste ondulavam com branduras de feltro as serranias que rematam em Sintra, a qual, orgulhosa e teimosa, sempre recortava o céu com o seu característico desenho, mais agudamente e miudamente dentado no castelo. Um bafo, leve, de brisa joeirou a cinza ténue do Sol que ao declinar jorrava oiro vermelho pelo boqueirão da barra. Toda a bacia do rio, feito um mar, se limpou, se alisou, se esmaltou de preciosas cores e nelas corriam as microscópias velas brancas das faluas, tão numerosas, tantas, perseguindo-se, cruzando-se, roçando-se, quase sopradas e caídas aos molhos.»

[M. Teixeira Gomes, in "Agosto Azul"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa com outras "faluas"...)


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Lisboa, Tejo e Carlos do Carmo


Carlos do Carmo que nos deixou no dia primeiro deste ano de dois mil e vinte e um, cantou Lisboa e o Tejo como muito poucos, porque sempre foi um apaixonado e um protector da sua (e nossa) Cidade. 

O facto de ter nascido e crescido na Bica, quase com o Tejo no final da rua, fez com que se deliciasse desde muito cedo com as mil e uma tonalidades que o Rio lhe oferecia, espelhando um céu, quase sempre azul...

Depois do casamento foi viver para as Avenidas Novas mas nunca deixou a Velha Lisboa, que amou e cantou com a cumplicidade dos nossos melhores poetas.

Deixamos aqui três testemunhos do seu amor pela Cidade e pelo Rio: 

«Eu tenho um olhar muito romântico sobre a cidade, e os olhares românticos são incuráveis, completamente incurável. E as mazelas e os seus defeitos, não é que os esconda, não lhes dou importância que provoquem infelicidade, sabe? Lisboa tem coisas tão boas, que eu deixo que no campeonato ela fique esses pontos todos à frente das coisas que estão mal feitas.»                              

«Lisboa é uma cidade sui generis. Há que ter apreço pelo trabalho de quem foi pondo a população virada para o rio, porque vivemos anos nesta coisa sombria, de costas para o Tejo. Isto deu luz à cidade. E o português é acolhedor, sem ser servil. Deixe-me circunscrever à minha cidade, sendo eu bairrista. Mas Lisboa tem uma luz imbatível. As pessoas ficam desvairadas. Os miradouros, os bairros antigos que são o pulsar de uma história de quase 900 anos. E tem uma autenticidade…» 

 «Durante muitos anos o Tejo foi-nos vedado. Hoje há casais a passear com as crianças à beira-rio. De cada vez que vou a uma esplanada junto ao Tejo penso que sou um privilegiado por viver numa cidade com este rio e com esta luz.» 

Nota: Frases retiradas de entrevistas publicadas do Diário de Notícias de 9 de Setembro de 2016  Notícias Magazine” de 23 de Julho de 2014 e “Tabú (Sol)” de 4 de Outubro de 2008.


(Fotografia de Luís Eme - Tejo e Lisboa)


segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

"Amo-te Lisboa Virada ao Tejo"


Amores de e por Lisboa... de Rogério Martins Simões:


Amo-te Lisboa Virada ao Tejo

  
Dizem que um dia alguém cantou…
Que por amores Lisboa se perdeu!
Por amores se perde quem lá voltou.
De amores se perde quem lá nasceu.

Dizem que um dia alguém contou.
Que uma moira cativa no Tejo desceu.
Por amores, Lisboa, a moura libertou,
De amores, por Lisboa, a moira morreu.

Juntaram-se os telhados enfeitiçados,
Apertadinhos os dois e entrelaçados,
Num fado castiço, numa rua de Alfama.

E o Tejo, que é velho, beija a Cidade:
Morre-se de amor em qualquer idade,
Perde-se por Lisboa, quem muito ama!



(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A Sophia e o "Nocturno da Graça"...


Hoje é dia da Sophia e por isso deixo aqui partes do seu poema "Nocturno da Graça"...

Há um rumor de bosque no pequeno jardim
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilhas.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.
[...]

Com os seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.
[...]

Sozinha estou contra a cidade alheia
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, 1 de março de 2019

«É a esta cidade, que eu volto sempre...»


«[...] Em resumo, cresci e espalhei os passos pelas ruas dos bairros próximos que acabei por conhecer a palmos: a Graça, a Senhora do Monte, a Penha de França, as redondezas do Liceu Gil Vicente, a Feira da Ladra, a Alfama, o Cais, o Tejo, os miradouros, "os jardins da Celeste, giroflé-giroflé", as "terras" onde os púrrias se batiam à pedrada com denoto fascista. [...]»

«[...] É a esta cidade que eu volto sempre, quando quero encher os olhos de Lisboa. [...]»

[José Gomes Ferreira, in "Gaveta de Nuvens"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)