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sábado, 7 de fevereiro de 2026

"Dizia, orgulhosamente, que devia ser o único lisboeta que jamais saíra da sua cidade..."


«Júlio Verne dizia, aos sete ventos, que quase tudo o que aprendera sobre o mundo fora nas mesas de café.
Mas a faceta mais curiosa e inimaginável da sua vida, era o facto deste artista surrealista alfacinha nunca ter saído de Lisboa. Dizia, orgulhosamente, que devia ser o único lisboeta que jamais saíra da sua cidade.
Júlio nem sequer tivera a tentação de atravessar o Rio Tejo em qualquer barca para apreciar as saborosas mariscadas de Cacilhas... quanto mais envolver-se em outras viagens por esse mundo fora. [...]»
 
[Luís Alves Milheiro in "Um Café com Sabor Diferente"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 27 de abril de 2022

As "Odes ao Tejo" de Armindo Rodrigues


Em 1972 o poeta Armindo Rodrigues publicou um livro que dividiu em três partes: "Odes ao Tejo", "As Sete Luas do Poeta Gomes Leal" e "Lisboa Próxima e Distante".

Por razões óbvias, é a primeira parte que nos interessa e é por isso que publicamos algumas das "quintilhas" que escreveu da "Ode Primeira":


Nas tardes dos domingos em que o sol
tem um brilho mais nítido e mais quente
e os cafés estão cheios de uma gente
burguesa, tola, amargurada e mole,
busco a beira Tejo, transparente

[...]

Olho o lado da barra, que não vejo,
e de novo Camões o Tejo cruza, ´
opondo ao tempo a epopeia lusa,
e Bocage de novo cruza o Tejo,
tangendo, magoa sua vária musa.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



quarta-feira, 22 de setembro de 2021

"Outra Canção Gratuita"

 


Outra Canção Gratuita

Café glacé... Vida boa...
Tempo plano, claro, quieto...
Rodar suave do eléctrico...
Última tarde em Lisboa...

Há um quadrante doirado,
Rosa-chá por desfolhar,
Naquela casa de esquina
Com alecrim no telhado...

Café glacé... Vida amiga...
âncora na água do rio...
grão de areia, remo esguio...
Minha infância reavida...

Tão sossegada à janela
Prostitutinha de branco...
E a brisa fresca do Tejo
Não desfaz a aguarela...

[Cristovam Pavia, in "Lisboa com Seus Poetas", antologia de poesia sobre Lisboa, organizada por Adosinha Providência Torgal e Clotilde Correia Botelho]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

As "Lavadeiras" do professor Américo e do Tejo...


Parece quase ficção, o que acontecia na primeira metade do século vinte (e em tempos mais antigos claro...), na "Praia das Lavadeiras", hoje conhecida internacionalmente pelos muitos turistas que vêm propositadamente ao Ginjal, para almoçar, petiscar ou jantar à beira Tejo, nos dois restaurantes mais apetecíveis da margem sul do rio.

Provavelmente chamam-lhe a "praia dos restaurantes"... Mal eles sonham que bastava abrir uma pequena cova, na maré-baixa, para que daquela areia pouco límpida, brotasse água doce. Água que era aproveitada pelas mulheres de Almada e Cacilhas, para lavarem a sua roupa branca, que depois ficava ali a "corar", ao sol...

Atrás da história e da amizade, deixo-vos o poema, "Lavadeiras", de Américo Morgado, professor e amigo desta nossa margem, com saudades dos nossos cafés, sempre acompanhados por palavras simples e sábias...

 

Lavadeiras
 
Lavadeira de Cacilhas
trouxa branca, levais
ao rio Tejo azul correndo
vai pro mar manso demais
á espera dos teus olhos
cor de mel, a doçura
a loucura da tua roupa
invejada brancura.
As cantigas e as brigas
alegria, ciúme
é dança, gritos, queixume
da pobreza malvada.
 
Suave cotovelada.
 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)