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sábado, 20 de setembro de 2025

ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio...


«Diante dos meus olhos fluíam as águas turvas do Tejo e realmente o filósofo acertava quando sentenciava a conhecida divisa de que tudo flui e ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio. Tanto pelo rio, que é diferente na mesma curva, verde, negro, pardo, ocre, cinzento-aço ou loiro-cinzento, como pelos olhos que o olham volúveis, cambiantes, inquietos, viajantes da alma que jamais repetem a mesma inclinação no olhar. O meu tinha naquela manhã a suave queda da evocação e do sonho.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, 10 de junho de 2025

"Aquela ninharia de ouvir chamar 'Tejo' "...



«Aquela ninharia de ouvir chamar "Tejo" a um cão que ladrava em norueguês. lisonjeou-me.»

[José Gomes Ferreira, in "Tempo Escandinavo]



(Fotografia de Luis Eme - Trafaria)

domingo, 20 de outubro de 2024

"Convém não esquecer o brilho do Tejo..."


«Convém não esquecer o brilho do Tejo que aparece por entre uma viela, um beco, umas escadas, do cimo de um adro de igreja. Peregrinar, como diria o mestre, é afinal divagar. No café da D. Teresa “flippers” a piscarem luzinhas e a darem bip-bip, as cerimónias do Dia de Portugal lá em cima nas terras da tua infância, um metalúrgico-fadista que não chegou a cantar o fado pois as senhoras queriam ver a TV e as variedades, zangado comigo por querer ir-me embora, uma sopa bem quente para cortar a ressaca.»

 

                                                           [Eduardo Guerra Carneiro, “Sete”, 20 Jun 79]


 (Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



domingo, 25 de fevereiro de 2024

"Ficou ainda a música no ar..."


«Havia um contraste muito forte entre a tua imagem e o azul do rio bastante largo para parecer um mar. Digamos que não era bem o teu corpo que me afligia mas sim tu que estavas nele e eu não conhecia. Veio um cego de acordeão cheio de sol e houve música também entremeada à luz. Um criado expulsou-o mas ficou ainda a música no ar, e toda a gente, pareceu-me, ficou contente com a música que não ouviu mas se espalhou na esplanada, agora sem a cegueira triste do homem que a fez existir. E eu sorri porque tu paraste depois de algumas garfadas e ficaste a olhar o invisível.»


[Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"]


(Fotografia de Luís Eme - Almada)


terça-feira, 30 de novembro de 2021

("Afinal")


21.

A palavra «Tágide» vem de um tempo antigo (pastoras, flautas, canções, águas sossegadas) sem esquecer que os bons dicionários  a referem como  «Ninfa do Tejo».
Hoje ainda há «Tágides» na febre da cidade, na pressa para coisa nenhuma, no ruído que esconde as palavras.
Afinal, esse tempo antigo permanece na força de um olhar que separa a terra da água.

[José do Carmo Francisco, in "Afinal"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

"Duas Sombras"


Pensava que este meu blogue, que flutua, nada e mergulha nas águas do Tejo, ia ser um sucesso. "Pensava" porque cometia um velho erro, esse mesmo, o de pensar que "o meu gosto é parecido com o gosto dos outros".

Parece que afinal não é.

Mudando de assunto, felizmente tenho alguns amigos que amam e escreveram sobre o Tejo, como é o caso do poeta Alberto Afonso, autor deste bonito poema:


Duas sombras
 
Duas sombras
Vogam em total liberdade,
Um imenso corpo
Feito de águas e de batalhas.
 
São duas aves brancas
Que anunciam o regresso
De uma breve viagem
No tempo e na vida.
 
Poisaram nas margens do Tejo
Como quem poisa num sonho
Perfumado por vozes e maresia.
 
São agora dois seres imensuráveis
Embriagados de um silêncio azul e voluptuoso
Tal como o rio, que os viu nascer há tanto.
 
Em fino areal humedecido
Homem e mulher, caminham harmoniosamente
Como se fossem dois dóceis animais
Que desvendam
Em cada concha sem vida
Tudo o que lhes resta
Do seu mundo de memórias por contar

(Foto de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

"Perdida entre o Porto Brandão e a Trafaria"


Apanho o barco em Belém.

Não tenho destino. Tanto posso ficar no Porto Brandão como na Trafaria.

No meio do rio olho ambas as margens, com entusiasmo. À medida que vou chegando ao Porto Brandão, vou descobrindo alguns encantos e também algumas indústrias com torres fumarentas.

À última hora, desisto de desembarcar. Prefiro passar ao largo da "Torre Velha" e do "Asilo", que vão ser hotel de cinco estrelas. Ainda continuam deslumbrantes, lá no alto.

E sim, prefiro que sejam um hotel com estrelas, que ruínas, cada vez mais decadentes e perigosas. 

Continuará a ser um lugar vistoso, que quase abraça o Tejo, lá do cimo da quase montanha...

[Ester Núncio]


(Fotografia Luís Eme - Porto Brandão)


sábado, 11 de julho de 2020

"Um Número Mágico"...


Descubro em muitos jornais, grandes testemunhos de amor por Lisboa e pelo Tejo. Este foi do realizador João Botelho:


«Todos sabem que o número sete, o das colinas, é um número mágico, mas que culpa tenho eu que os deuses a dispusessem assim e lhe dessem um rio que é um verdadeiro mar, para reflectir o azul do céu de uma forma perfeita, inundando de luz única, não há outra igual no mundo, as casas que sobem as encostas. Ah! Quem me dera saber escrever sem adjectivos, mas é quase impossível fazê-lo quando se trata de Lisboa.»


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)