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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

"O espelhado e tranquilo estuário do Tejo"


«Fiel ao sentimento de saudade ficou a obra de Francisco Smith, mas para sempre impregnada da fina luminosidade e do colorido natural da sua cidade - desta Lisboa, que se mira no espelhado e tranquilo estuário do Tejo, sob o céu azul do céu puríssimo, perfumada, fresca do hálito marinho.»

[Manuel Mendes, in "Colóquio Artes e Letras", Maio de 1962]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 26 de março de 2025

Influente

 


Influente

O maior afluente do Tejo
é este mar de povo
que da rua do Ouro
todos os dias se faz
à Outra Banda.

José Correia Tavares


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Retrato breve de Filipa em Vila Franca

 


Retrato breve de Filipa em Vila Franca
 
Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
Passam alunos da Escola
Que ficam na fotografia
Todos usam camisola
A manhã está muito fria
Fecharam as tronqueiras
Já se sente uma emoção
As paixões verdadeiras
Não precisam explicação 
Entre gaibéus e avieiros
Passa a memória sentida
Do Tejo a encher esteiros
Com água que traz a vida
Os barcos cheios de areia
Chegam de manhã ao cais
Hoje o Gil Conde passeia
Nas águas do nunca mais
E no comboio que passa
Tão veloz para o Oriente
Há memória da barcaça
Com automóveis e gente
Ao lado fica um jardim
O ringue de patinagem
Os jogos não tinham fim
As palmas eram coragem
Olha de longe o Mouchão
Onde só olhar é preciso
E a terra vem dar razão
A quem busca o paraíso
Água, fogo, ar e terra
Conjugados num lugar
Coração em pé de guerra
Tem um poema de cantar
Flor da Lezíria, menina
Em Vila Franca, cidade
Descobre a cada esquina
O mapa de uma saudade
 
José do Carmo Francisco

(Fotografia de Luís Eme - Vila Franca de Xira)

quinta-feira, 21 de março de 2024

"Lisboa Pequenina"

 

Lisboa Pequenina (fado)


Oh, Lisboa pequenina
és um pregão de varina
a menina dos meus olhos
põe-me um braço na cintura
dá-me um beijo com ternura
veste uma saia de folhos

Pus no dedo uma aliança
mandei vir uma criança
que é filha da Madragoa
outra linda assim não vejo
fui baptizá-la no Tejo
dei-lhe o nome de Lisboa
[…]


Tiago Torres da Silva


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

 

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

"Seu Apelido - Lisboa"


Seu apelido – Lisboa
 
 
É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata
 
Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile
Baila no baile co’ o mar.
 
É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
E nas veias o latido
Do motor duma traineira
E nas veias o latido
Do motor duma traineira
 
Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa
Seu nome próprio - Maria
 
 
David Mourão-Ferreira


(Fotografia Luís Eme - Lisboa)


domingo, 20 de junho de 2021

"Ó Minha Cidade Bela"


Porque hoje se comemora o centenário no nascimento da escritora, Matilde Rosa Araújo, publico aqui com a devida vénia, o seu bonito poema, "Ó Minha Cidade Bela", do seu livro, "O Cantar de Tila":


Ó minha cidade bela

 Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
Meu coração é um navio,
P'las ruas a navegar.

Ó minha cidade bela,
Feita de mar e de rio:
Teus passeios são as ondas
Eu lá vou com meu navio!

Já sou uma senhorinha
Tenho sapatos de salto:
Ó minha cidade bela,
Já navego no mar alto!

Já navego no mar alto!
Sem ninguém à minha beira:
As cores do meu navio
São flores de laranjeira!

Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
É tão branco o meu navio
Não o deixes naufragar!


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 26 de maio de 2021

"Sonhos Cor de Água"


Ainda com o Tejo, com o "Casario" e com as minhas palavras...

«[...] Enquanto esperava, calmamente, pelo cacilheiro, ficou com a sensação que aquele largo que, fora nos anos oitenta o maior centro de circulação de pessoas e transportes da Europa, estava cada vez mais calmo. Tudo graças ao comboio da ponte...
Uns metros mais à frente descobriu uma cara conhecida, Pedro Sempre, outro herói das suas crónicas mundanas.
Pedro era um velho contador de histórias que passava parte dos seus dias fundeado num banco de madeira, assistindo ao cair da tarde rente ao seu Tejo.
Quem quisesse ouvir qualquer aventura do mundo só precisava de se sentar e escutar com atenção, a sua voz pausada, o melhor bilhete para uma mão cheia de viagens, extraordinárias, pelo Ocidente e Oriente, que se tentavam aproximar das de Fernão Mendes Pinto.
À medida que falava, o velho fazia festas ao Banzé, o seu companheiro de sempre, um cão escanzelado que lhe aquecia os pés e a alma, escondendo com o seu pelo deslavado, os buracos dos sapatos gastos, com ar de quem já dera mais que uma volta ao mundo [...]»

[Parte do conto "Sonhos Cor de Água", in "Um Café com Sabor Diferente", de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


terça-feira, 19 de maio de 2020

«Porque me chamam Gaivota?»


Maria Rosa Colaço em 1982 publicou um conto sobre o "Gaivota", com o mesmo título. "Gaivota" era um rapazola de Cacilhas, que cresceu paredes meias com o Tejo. Deixo aqui uma pequena transcrição, onde ele esboça a sua "história de vida"...

«[...] Porque me chamam "Gaivota"?
Está mesmo a ver-se... Tenho passado entre os barcos e o Tejo, em cima deste paredão, correndo e escorregando nestas pedras húmidas, mais de metade da minha vida: às vezes, até a pele me sabe a sal.
Ando nisto desde que o meu pai morreu; ajudo um e outro, vendo jornais, pensos, aprendo bocados de palavras de outras terras; invento ruas de outros países quando vejo os estrangeiros de cabelos amarelos e  dinheiro nos bolsos, a comer camarão e lagosta: vivo!
Como tenho a mania de andar em cima desta parede, de asas abertas, como as gaivotas, um dia começaram a chamar-me "Gaivota" e "Gaivota" fiquei. O meu nome é Alfredo. Mas isso não interessa porque ninguém o sabe e Gaivota, afinal, é o que eu queria ser. De verdade, pois! Asinhas a dar-a-dar; peixinho fresco e, lá em cima, lá em cima no vento, no azul, avião-sem-motor, namorado das ondas, sol morno nas costas, dono do Tejo, dono de mim, bicho livre! [...]»

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

domingo, 10 de maio de 2020

"Descobrir Lisboa e a Luz Vinda do Rio-Mar..."


Hoje publico o conselho dado pelo realizador José Fonseca e Costa, que já nos deixou, em 2010, nas páginas do "Público":

«Aprendam a descobrir Lisboa e a luz vinda do rio-mar em que a cidade se deixa envolver, este rio Tejo misteriosamente aberto num mar mediterrâneo à sua frente, um mar que começa no mais belo cais com que uma cidade ao mar se possa juntar, o Cais das Colunas – nossa “Saudade de Pedra”.»
   
                         
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O teu Olhar Brilha quando Olhas o Tejo...


«O teu olhar brilha e ganha vida quando olhas o Tejo.

Sentes-te feliz por sentires que ele vive uma "segunda vida", que já passou o tempo em que quase se limitava a ver passar os cacilheiros. Agora está sempre cheio de barcas, de múltiplos tamanhos e modelos, que levam os turistas até à foz... e depois voltam.

Até o Mar da Palha está diferente (o teu avô contou-te a história do seu nome, que ele começou a ser chamado desta forma pelos pescadores que chocavam com paus, palhas e juncos, por ali ficavam a flutuar, arrancados pelas correntes e pelas marés vivas, das margens das lezírias). Está mais vivo, mais azul...»


(texto meu, com a tentação de ser a legenda da fotografia...)

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, 26 de novembro de 2019

“Isto é Constantinopla. Não há nada mais parecido”


Tenho deixado um pouco ao abandono este "Olha o Tejo". Mas hoje, durante o meu trabalho de pesquisa, "tropecei" numa frase que diz muito de Lisboa, de José Sarmento de Matos, historiador de Arte (entrevista à revista "E", de 6 de Maio de 2017).

«O ar, a cor, a luz... A maneira como a cidade se foi adaptando à orografia, tornando-se barroca no sentido das perspetivas inesperadas. Vai-se na Rua da Escola Politécnica, olha-se para a esquerda e tem-se o Tejo lá em baixo. É também barroca no sentido da surpresa, é feita de pequenos recantos onde tudo se encaixa. Isto é das coisas que mais me encanta. E a luz, claro, que tem a ver com a sorte de apanhar o vento norte que limpa tudo e fica só a reflexão da bacia do mar da Palha. Neste aspecto, Lisboa tem uma condição única. Tem o mar à frente. Só é comparável a Istambul. O Calouste Gulbenkian saía do Hotel Avis, ia para o alto de Monsanto, sentava-se numa cadeirinha, ficava ali a olhar para o Tejo e dizia: “Isto é Constantinopla. Não há nada mais parecido”.»
                                              
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A Lapa, de onde se avistava a bela Lisboa...


Aproveito o Tejo para homenagear Idalina Alves Rebelo, uma senhora encantadora de Cacilhas (esta Lapa ficava em Cacilhas...) de quem fui amigo, que já nos deixou, e que assinava os seus poemas e quadros como Any Ana...


«A Lapa, de onde se avistava a bela Lisboa, o Rio Tejo com barcos de todas as espécies e "calados", o Largo com a velha Parceria dos barcos grandes e o embarque dos pequenos, o grande movimento de táxis, as primeiras camionetas, as barracas de frutos com seus vendedores, as carrinhas de fretes, que antes eram feitos em carroças puxados por muares, o Chafariz ali perto, o Farol ao fundo junto ao rio, contando com o vaivém dos operários, que ao som da "gonga" da doca enchiam de alegria e movimento, junto aos pregões dos vendedores ambulantes [...].»


[Any Ana, in "A Lapa"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Um Homem na Cidade (mais uma vez)...



[...]
À flor dum azulejo a cor do Tejo
e um barco antigo ainda por largar
distância que já não vejo
e enche Lisboa de infância
e enche Lisboa de mar.



[José Carlos Ary dos Santos, "Fado dos Azulejos" do disco "Um Homem na Cidade"]



(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, 17 de fevereiro de 2019

Uma Escritora, uma Rua e o Tejo...


Embora a transcrição que vou publicar não esteja directamente ligada com a imagem (algo que acontecerá algumas vezes por aqui, com alguma naturalidade...), pois a Rua Irene Lisboa (a minha rua desta Margem do Tejo), em Cacilhas, não é um lugar "tristissimo", e tem lá em baixo a Lisnave e o Mar da Palha, e não a parte mais estreita do Rio...
Neste caso particular achei por bem fazer a ligação da rua à escritora e ao Tejo, esquecendo as geografias do "melhor rio do mundo" escolhidas pela escritora no seu livro...

«Aquele sítio onde tinha ido arranjar casa era tristíssimo, muito arredio e pobre, com terras de entulho à frente. Velho arrabalde da cidade! O Tejo lá em baixo, na sua parte mais estreita, oferecia-lhe de longe uma miragem fantástica, admirável e desesperadora.»
                                                                                                     
 [Irene Lisboa, in "Esta Cidade!"]

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

O Tejo e o Neo-realismo...


Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes, escritores neo-realistas, que cresceram e viveram à beira do Tejo, em Vila Franca de Xira e Alhandra, escreveram várias obras que homenageiam as gentes do Rio. 

Os belos romances, "Avieiros" e "Esteiros", são um bom exemplo do que acabamos de dizer, pelo que transcrevemos, com a devida vénia, duas frases curtas, mas de grande simbolismo: 

«[...] Os velhos falavam num Tejo que fora um jardim de peixes; e diziam que andavam todos a pagar o pecado das guerras e das artes modernas de pescar. [...]» (Avieiros)

«[...] Quando o Tejo passa, algo acontece sempre, porque um rio tem as suas glórias e os seus dramas como os homens. Um rio vive, respira, trabalha, constrói e destrói. [...]» (Esteiros)

(Fotografia de Luís Eme -Trafaria)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Olhas o Rio...


Já tinha falado na hipótese de criar mais um blogue, que tivesse como principal temática o Tejo, no "Largo".

Esta minha ideia deve-se à beleza do "Rio da Minha Aldeia", e também ao facto de ser o pano de fundo da maior parte das minhas fotografias.

Aliás, este blogue será também de fotografia (em princípio exclusivamente das minhas fotografias...). Fotografias essas que serão acompanhadas com transcrições de poemas e parágrafos de livros, que se inspiram no Tejo, da minha autoria e também de outros autores...

Abro este blogue com um poema meu, que de alguma forma se aproxima do título do blogue e se pode generalizar, ainda que tenha sido escrito em homenagem a Alexandre Castanheira, um escritor almadense, resistente antifascista, que foi um bom amigo...


Olhas o Rio

Olhas o rio com ternura,
Sentado, junto ao cais...

Foi daqui que partiste,
Para uma viagem
Quase sem destino...

Depois foram anos de luta,
Quase sempre “escondido”
No porão da barca vermelha
Que navegava de terra em terra,
Em busca da Liberdade sonhada...

Olhas o rio com saudade,
Sentado, junto ao cais...

Foi daqui que partiste...

[Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)