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segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

"Decisão"



 "Decisão"

Depois de amanhã
Irei com o Álvaro de Campos para Glasgow.
[...]
O Álvaro de Campos gosta muito de gente
Que está fora do centro de gravidade.

Diz ele que isto de entrar a horas no emprego,
De um tipo pôr gravata e ter de pedir licença ao porteiro,
De tirar atestados de bom comportamento
Diz ele que tudo isto é muito chato muito estúpido.

E tem razão. Gosto de tipos assim.
Que são do avesso.
Que dormem de dia e têm a noite para viver.

São formidáveis!
Conhecem o que vós jamais conhecereis,
Burocratas estúpidos, carneiros de gravata,
Vós que não enetendeus, por que é que o Álvaro
Quer que o Tejo corra ao contrário.

É por isso que eu vou com o Álvaro Campos para Glasgow.
[...]

José Terra 

(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)

sábado, 25 de novembro de 2023

Conversa Com Fernando Pessoa no Martinho

 


Conversa Com Fernando Pessoa no Martinho
 
 
A casa continua como quando aqui paravas.
Talvez sejam os mesmos que agora a povoam
destas conversas sonolentas e cruzadas.
Ali ao longe o rio persiste em navegar
e só as águas envelheceram. O resto é
a cidade quer dizer o nevoeiro
que quando desembarcaste. Fala-se na esperança
e acredita-se no medo. O resto é a cidade
que cantaste e te desconheceu
e ainda desconhece os que procuram
o violino de palavras que criaste.
 
 
Manuel Alberto Valente


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O Rio dos Poetas...


«O Poeta Gigante quando se chamava Alberto orgulhava-se do Rio da sua Aldeia, que é de facto único.

Nem me desagrada ver tantas barcas para cá e para lá. Talvez andem todos à procura da poesia que tu tens encontrado de tantos poetas...

Poesia que se encontra facilmente nas margens e no meio do Tejo...»

(Texto da Bela)


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

"Olhar o Tejo a pensar num verso de Pessoa"...


A minha homenagem a Eduardo Lourenço, uma das grandes figuras da cultura portuguesa do nosso tempo. Talvez um dos melhores exemplos do que é um intelectual, essa figura em extinção na sociedade portuguesa.

Numa entrevista ele falou do Tejo, numa situação muito especial (pelo lugar e pelo tempo que se vivia...), que transcrevo com a devida vénia:


«A única vez em que estive na [Rua] António Maria Cardoso [sede da PIDE], no famoso terceiro andar, um andar de más recordações para muita gente, estava um dia maravilhoso. Eu olhava o Tejo e lembrava-me de um verso do Pessoa (já naquela altura). Vem um rapaz: “Ó Sr. Dr., está em França. Não me pode arranjar lá um emprego?”. Isto não se acredita. “Ó homem, você está aqui tão bem... Vão ao cinema e andam nos carros eléctricos de borla.” Um bocado cínico da minha parte... Mas aquilo não era uma brincadeira. Muita gente pagou caramente, eram militantes a sério.»


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 27 de março de 2020

"Amo o Tejo..."



«[...] Nada disso me interessa, nada disso desejo. Mas amo o Tejo porque há uma cidade grande à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar de rua da Baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de São Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido variadíssimo de Lisboa. [...]»

[Bernardo Soares, in "Livro do Desassossego"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Querer Atravessar o Rio...


«[...] Muita vez me tem sucedido querer atravessar o rio, estes dez minutos do Terreiro do Paço a Cacilhas. E quase sempre tive como que a timidez de tanta gente, de mim mesmo e do meu propósito. Uma ou outra vez tenho ido, sempre opresso, sempre pondo somente o pé em terra de quando estou de volta.
Quando se sente de mais, o Tejo é Atlântico sem número, e Cacilhas outro continente, ou até outro universo. [...]

[Bernardo Soares, In "Livro do Desassossego"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, 13 de junho de 2019

O Tejo, Lago Azul...



Porque hoje é dia do nosso Fernando António...


«[...] Tenho um sorriso grandemente metafísico para os que sonham que o sonho é sonho, e amo a verdade do exterior absoluto com uma virtude nobre do entendimento. O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suíça achatada. Sai um navio pequeno — vapor de carga preto — dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo. Que os Deuses todos me conservem, até à hora em que cesse este meu aspeto de mim, a noção clara e solar da realidade externa, o instinto da minha importância, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz. [...]»

[Bernardo Soares, In "Livro do Desassossego"]


(Fotografia de Luís Eme)

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Lisboa Revisitada...


Fernando Álvaro de Campos Pessoa revisitou Lisboa, com os olhos presos no Tejo:



Lisboa Revisitada

[...] 
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
[...]


[Álvaro de Campos, in "Poemas"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

terça-feira, 30 de abril de 2019

Ver (à noite) o Rio e os Barcos...


[…] 
«A coisa mais natural do mundo é chegar-se um homem à beira do cais, mesmo sendo noite, para ver o rio e os barcos, este Tejo que não corre pela minha aldeia, o Tejo que corre pela minha aldeia chama-se Douro, por isso, por não ter o mesmo nome, é que o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.» 
[…]

[José Saramago, in “O Ano da Morte de Ricardo Reis”] 


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O Tejo do Fernando, Pessoa (s)...


Fernando Pessoa escolheu Alberto Caeiro ("Guardador de Rebanhos"), um dos "reflexos do seu espelho", para nos falar do Tejo e também do Rio da sua Aldeia...

Começa assim:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

E diz coisas tão simples como:

O Tejo desde de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.

E depois acaba assim:

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)