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domingo, 28 de janeiro de 2024

"Écloga"

 

Écloga

Pastora, grácil, vieste,
sempre caminho do Sul...
E rosa brava, trouxeste,
nos cabelos, um agreste
céu azul...

Tu me encontraste, pastora,
velado, sem nenhum céu.
Mas agora um céu me doura
a vida que, muito embora,
se perdeu...

Era nas margens do Tejo...
(Nem noutras margens seria).
Sobre nós dois, o adejo
das gaivotas, num desejo
de alegria...

E não mudou o cenário
para pastor e pastora.
Mas o Fado, sempre vário, 
muda a história do cenário,
de hora a hora...

[...]

E condenaram-me a tanto:
viver, viver... e sem ti!
Vivendo sem no entanto
me ausentar daquele encanto
que perdi...

O Tejo, verde e correcto,
como no tempo passado...
Eu, porém, mais inquieto,
e, por este mal secreto,
- tão mudado!

[David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"]

(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

"Seu Apelido - Lisboa"


Seu apelido – Lisboa
 
 
É varina, usa chinela,
tem movimentos de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata
 
Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile
Baila no baile co’ o mar.
 
É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor de uma traineira.
E nas veias o latido
Do motor duma traineira
E nas veias o latido
Do motor duma traineira
 
Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido, Lisboa
Seu nome próprio - Maria
 
 
David Mourão-Ferreira


(Fotografia Luís Eme - Lisboa)