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sexta-feira, 10 de abril de 2026

"O mistério de Lisboa é o Tejo e as suas margens"


«No Tejo, vêem-se os cacilheiros captados pelo amigo Sebastião Braga no videoclipe de Ocean wave, e às tantas Casper exclama, como se tivesse visto a luz: “O mistério de Lisboa é esse, as suas margens. O rio, de Almada ao Barreiro, o mar, da Costa ao Meco, e a serra de Sintra do outro lado. Não é tanto o centro da cidade, são as possibilidades à sua volta. É apanhar o barco até a Cacilhas, estar lá algumas horas e, depois, embarcar de volta, tantas vezes a correr para o último cacilheiro, à 01h20 da noite. Tão bom!”.»

                                                           [Vitor Balenciano, in “Ípsilon”, 14 Jan 21]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sábado, 22 de novembro de 2025

"No tempo em que éramos quase pobres..."


«No tempo em que éramos quase pobres, tinha poucos amigos da minha idade com carro.
Aos vinte e muitos poucos anos recordo que boa parte dos amigos da "borga", com quem me aventurava na noite, eram todos ligeiramente mais velhos que eu.
Estou a falar da primeira metade dos anos oitenta. Há quase trinta anos...
Dentro da noite, conhecíamos algumas mulheres, quase "aves nocturnas", que também escolhiam a quinta-feira como espaço de diversão, escapando às enchentes do fim de semana.
Como ninguém tinha carro e gostávamos mais de gastar dinheiro em cerveja que em táxis, esperávamos quase sempre pelo primeiro barco da manhã.
Nem sempre estávamos em bom estado, mas como éramos jovens, não custava nada fazer uma directa. O quase ligeiro peso dos olhos era coisa pouca, mesmo quando com mais uns "quilos" depois do almoço...
Esperávamos muitas vezes o barco à beira-mar, a olhar o rio com a neblina matinal, quase sempre divertidos e sem esperar que aparecesse ele rei dom Sebastião.»

[Luís Alves Milheiro, in "Largo da Memoria”, 16 Dec 11]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, 25 de setembro de 2024

"A larga bacia resplandecente do Tejo"


«A larga bacia resplandecente do Tejo estendia-se em frente à cidade, à esquerda, como um vasto piso de mármore espelhado por onde os cacilheiros da Parceria dos Vapores Lisbonenses  deslizavam com preguiça de tartaruga, enquanto Almada espreitava na outra margem. O Sol deitava-se já num prenúncio de crepúsculo, rasgando o céu em aguarelas vermelhas e lilases e arrancando ao arménio um suave suspiro de nostalgia.»

[José Rodrigues dos Santos, in "Um Milionário em Lisboa"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, 19 de março de 2024

Queria embarcar num cacilheiro e navegar..."


«Olhou a janela do quarto da residencial, descobriu uma rua pouco movimentada que o confundia. Ao longe esperava-o um quadro diferente, o Tejo das horas boas e das horas más.

Voltava a sentir um desejo avassalador de percorrer as ruas de Lisboa e olhar ninfas que prometiam coisas que nunca cumpriam. Parar em esplanadas carregadas de inúteis que apenas sabiam contar anedotas com barbas e conversar sobre o tempo. Queria embarcar num cacilheiro e navegar no rio grande que transformava a capital numa ilha.»

[Luís Alves Milheiro, in "Bilhete para a Violência"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, 17 de outubro de 2023

"Cais de Lisboa"

                                 

                              Cais de Lisboa


Colunas de séculos passados
Onde o tempo não perdoa
São dois mastros apontados
Ao céu da Nossa Lisboa

Foste cais da realeza
Admirado, ainda és
Até a coroa inglesa
Ancorou a vossos pés

Nesses tempos da lonjura
Caravelas a partir
Homens bravos à procura
Dum mundo por descobrir

Gaivotas em movimento
No cais de tanta saudade
São como notas ao vento
Chilreando Liberdade

A nossa ponte imponente
De Abril só há gemidos
Mas o Tejo comovente
Amena os cravos esquecidos

Onde estão os cacilheiros
Que a câmara não captou?
Mais os velhos marinheiros
Que o pai Tejo adoptou?

Estas águas que nos levam
E nos corta a respiração
É o rio onde navegam
As mágoas que vão pró mar.

Luís Alves

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

domingo, 30 de abril de 2023

"Abril, Cacilhas e Tejo"

 


Abril, Cacilhas e Tejo

Abril vai embora,
mais mansinho,
cada vez mais mansinho.

Talvez seja verdade, 
e já não exista tempo 
para revolucionários e revoluções...

O Sol enche tudo
até as esplanadas de gente
que fala inglês com e sem sotaque.

O Tejo está cada vez mais salgado,
nesta outra Cacilhas que pisca o olho 
a quem atravessa o rio de Cacilheiro.

O Tejo está cada vez mais azul
nesta outra Cacilhas que faz vénias
a quem vem gastar dinheiro.

Zé Gê Éfe


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, 20 de abril de 2023

"Era uma Delícia a Travessia do Tejo entre Margens"


[...] «No Verão, era uma delícia a travessia do Tejo entre margens. Cardumes de peixes eram visíveis e bandos de roazes nas suas cabriolices acompanhavam os barcos. Os passageiros já estavam tão habituados que não lhes ligavam. Alguns patuscos decalçavam-se e lá vinham com os pés dentro de água...

Era frequente, roazes e golfinhos subirem o Tejo junto à margem sul à caça de chocos e lulas que na época própria entravam no estuário à procura dos sapais do Seixal, Moita e Montijo para desovarem. Eram dias de festa para os cetáceos e pescadores de Cacilhas.» [...]


[Diamantino Lourenço, in "Cacilhas, ponto de  partidas, local de passagem"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quinta-feira, 29 de setembro de 2022

(Já não é impossível...)


«Sendo impossível lançar sobre as águas uma ponte, em razão da extrema largura do Tejo, encarregam-se da travessia os vapores do sr. Burnay, que, em poucos minutos, nos depõem na Outra Banda.»


[Alberto Pimentel, in "Fotografias de Lisboa]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Diálogos quase Surdos...


«Isto é mar não é?»

(Não, não é, é apenas o Tejo...)

«Mas tem ondas!»

(Um dia vais perceber que o vento faz grandes ondas...)

«E é tão largo. Os rios não são assim, como os mares...»

(E a criança continuou, por ali, no interior do cacilheiro cheio de perguntas e  de dúvidas, ao mesmo tempo que várias pessoas tentavam levar o Tejo para casa, dentro do seu telemóvel, nas janelas do Cacilheiro)


(Fotografia de Luís Eme - Cacilheiro)


domingo, 9 de janeiro de 2022

"Onde Estás?"



"Onde Estás?"

Sai do Cacilheiro,
quase vazio.
E depois
fiz-me ao teu Ginjal.
Apeteceu-me telefonar-te.
Saber de ti neste começo
de um ano que parece 
que já nasceu velho.
Sentei-me da esplanada
das mesas e cadeiras amarelas.
Bebi um chá quente
puxei do meu caderno
e comecei a escrever
com a pergunta:
"onde estás?"

Laura Martinho


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)



domingo, 25 de outubro de 2020

O Primeiro Olhar...


A primeira vez que olhei o Tejo, era tão pequeno que tenho a sensação que nem sequer conhecia o medo. Foi tudo quase natural, rente ao Cais das Colunas.

Foi também a primeira vez que atravessei o rio para a Outra Banda (para visitarmos o Cristo-Rei...). Tenho uma ligeira lembrança das janelas e dos bancos de madeira, envernizados,  e também da "estrada" que a proa do cacilheiro deixava no Rio.

Atravessar o rio ao colo do meu pai, com os olhos presos à janela, deve ter ajudado a sentir-me seguro. Não me lembro, mas devo ter-me cruzado com uma ou outra fragata, com as velas ao vento, mais para o meio do rio, como era normal nesses já longínquos anos sessenta...

[Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, 5 de abril de 2020

"Habituei-me a ver o Tejo, ao fim da tarde..."


O Tejo não inspira apenas poemas, há também quem o misture dentro das suas crónicas, como aconteceu com Maria Filomena Mónica, no "Expresso" (Agosto de 2013)


«[...] Gosto do rio que corre na minha cidade, porque através dele se chega ao mundo. Durante cinco infelizes anos trabalhei num gabinete no Terreiro do Paço, no edifício que faz esquina com a Rua do Ouro. Habituei-me a ver o Tejo, ao fim da tarde, atravessado por cacilheiros que partiam para a outra banda. Ainda hoje, sempre que desço à zona ribeirinha, sinto a melancolia que, aos 21 anos, me enchia a alma. [...]»

                      
(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 7 de março de 2020

O Tejo ao Fim da Tarde...


A tarde fugia e um Cacilheiro navegava no Tejo, com o olhar preso ao cais de Cacilhas.

Lembrei-me dos tempos em que ficava à tua espera, sem ter a certeza, se era aquele o cacilheiro, que te trazia de volta a casa...

Entretanto passaram mais de duas décadas e o mundo é ligeiramente diferente.

Ainda não havia telemóveis, nem dava muito jeito, fazer "sinais de fumo", de uma margem para a outra...

O comboio da ponte, o teu transporte de hoje, ainda era só um projecto...


(texto meu, de memória...)

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

domingo, 16 de junho de 2019

Adeus Lisboa!


António Gedeão, volta ao "Olha o Tejo", porque sim...


Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.
Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.
[…]

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma
toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!



[António Gedeão, in "Adeus Lisboa"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 18 de maio de 2019

Sentado a Olhar os Cacilheiros...



«[...] Quando chegou a casa eram quase sete horas. Tinha-se demorado um bom bocado no Terreiro do Paço, sentado num banco, a olhar os cacilheiros que iam para a outra margem do Tejo. Estava um belo fim de tarde, e Pereira quis ficar a gozá-lo. Acendeu um charuto e aspirou o fumo avidamente. Estava sentado num banco em frente ao rio e junto dele veio sentar-se um mendigo com um acordeão que começou a tocar velhas canções de Coimbra. [...]»


[Antonio Tabucchi in "Afirma Pereira"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quinta-feira, 28 de março de 2019

O gozo de quem "lava os olhos naquelas águas"...


Eis a satisfação (ou o gozo, para sermos mais precisos...) de António Alçada Baptista, 

[...]
«Aqui na Bica tenho o Tejo à janela e o elevador à porta. Ter uma janela com o Tejo à frente é um gozo porque a gente, logo pela manhã, lava o olhar naquelas águas e vê passar os cacilheiros.»
[...]

[António Alçada Baptista, in "O Mistério de Lisboa"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)