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segunda-feira, 31 de julho de 2023

"Este Rio" (o outro...)


«Recordo aquele rio que os parisienses enfeitam com barracas de velhas gravuras e livros em segunda mão, com tranquilos e esperançosos pescadores à linha, com estudantes, com namorados, com simples adoradores do Sol. E vejo este rio tão deserto. Porque é uma estranha cidade, esta que não o merece. Um rio tão belo como poucas cidades podem gabar-se de possuir. Lisboa, no entanto voltou-lhe as costas e transformou-o em objecto de luxo para ver ao longe. Uma espécie de quadro na parede. E anunciam-se no jornal casas, geralmente muitas casas, com vista para o rio. Com vista, é tudo.»

[parte inicial de uma das memoráveis crónicas de Maria Judite de Carvalho, imortalizadas no livro, "Este Tempo", datada de Dezembro de 1974]

Nota: Como disse noutra transcrição das palavras da Maria Judite, felizmente já neste novo século conseguimos resgatar o Tejo, voltámos a ter as suas margens libertas, para todos nós o pudermos usufruir...


(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

"A Avenida da Margem Sul e os Transportes no Tejo" (dois)


Continuamos com a conferência de Agro Ferreira, de 1933...

[...] «Vemos frequentemente discutidos o porto de Lisboa, os cais, a margem citadina pejada de depósitos de toda a natureza, oferecendo por vezes o espectáculo de estendal de sucatas.

O Porto de Lisboa... Meio porto, afinal lhe chamo eu, pois só se tem contado com a margem norte do Tejo, esquecendo que existe a margem sul, e que, enquanto a entrada do Tejo oferecer estes espectáculo de abandono, o porto de Lisboa dará sempre a impressão de pequenez miserável, resultante do desaproveitamento do natural conjunto das suas margens.» [...]

Nota: Infelizmente tivemos de esperar pelo século XXI para que as margens do rio fossem aproveitadas e devolvidas aos lisboetas e visitantes...

(Fotografia de Luís Eme - Porto Brandão)


sábado, 25 de fevereiro de 2023

"A Avenida da Margem Sul e os Transportes no Tejo" (um)


Em 1933, um homem chamado Agro Ferreira, já via muito mais longe que as pessoas que estavam no poder, na relação das duas Margens do Tejo, quer de Almada, quer de Lisboa, com o "Mais Belo Rio do Mundo"...

Vamos transcrever as partes mais importantes da sua conferência "A Avenida da Margem Sul do Tejo e os Transportes do Tejo", proferida em Almada, em Março de 1933, graças ao Boletim "Almada na História" (19-20), por aqui:

«Antes de enfrentar o mar e para chegar naturalmente até ele, Lisboa deveria ter acompanhado o Tejo.

Tudo indicava que assim deveria ter sido; tudo indica que assim deverá, ainda, ser para o futuro.

O Tejo das descobertas, o Tejo porto de mar, o Tejo cais da Europa, o Tejo porto de pesca, o soberbo Tejo panorâmico, rodeado do lado Norte de suaves encostas, até Cascais, indicava na verdade, historicamente, artisticamente, e até higienicamente, a orientação da urbanização citadina.

E assim se teria atingido o mar com as novas avenidas, que lançadas para o interior, ficariam confinadas, sem as prespectivas, que pelas meias encostas, no sentido longitudinal, lhes eram oferecidas, pelo estuário soberbo, ou, já mais adiante, pela baía majestosa, pelo mar, em fim.» [...]

(Fotografia der Luís Eme - Olho de Boi)


segunda-feira, 28 de março de 2022

"Quase uma Ode ao Tejo"

 

Quase uma Ode ao Tejo

O rio dá cabo de mim. 
Recolho pedras, pedrinhas,
à beira,
onde o cais soçobra.
Nos olhos, pedras, blocos mágicos
limosos, submersos;
pedrinhas, na algibeira, quantas posso
e tenho
com elas tolas teimosias
entre os dedos
curiosos de tudo.
Todas não recolho.
Escolho-as uma a uma.
Atiro algumas ao voo das ondas
e pasmo de ver a cidade
carregar de luzes um navio
que procura o mar.
São luzes enigmáticas, difusas;
outras, fulgurantes,
as que salpicam, o mundo das águas,
o que vou pensar.

O rio dá cabo de mim.
Vejo-o molhar o casco do navio.

[Rui Cinatti, in "Tempo da Cidade"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, 25 de março de 2022

"A Outra Margem"

 

A Outra Margem

O silêncio que me habita vive
numa casa-castelo habitada
por crianças sem olhos, dementes
sempre sempre abandonadas.

Um rio nos separa delas, tanto...
Um rio fundo, feroz, intratável. 
Passar o rio custa muito...
ou não custa - raios! - nada mesmo.

Abrir as portas do castelo-casa,
sentir crianças cegas, destroçadas,
esse o problema 
que me persegue...

Resisto por mais que custe...
Paro perante fachadas.
Pairo no rio e cresço...
temente sempre que uma das portas se abra.

[Rui Cinatti, in "Tempo da Cidade"]


Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sexta-feira, 23 de abril de 2021

O Tejo com Livros


Se há um lugar que nos ajuda a entrar dentro dos livros, é à beira do Tejo, o rio que é da "minha aldeia", e que por isto e por aquilo, "é o melhor rio do mundo"...

Foi o que pensou a "Musa", que entrou dentro da minha fotografia, sem dar por isso. 

O livro e o Tejo eram as coisas "mais importantes do mundo"...


(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


domingo, 31 de janeiro de 2021

O que o Tejo nos Dá...


É normal que em tempos como os que estamos a viver, se procurem mais as margens do Tejo.

As suas águas dão-nos a sensação de liberdade, de paz, que precisamos, nestes tempos de "guerra", cheio de "prisões" voluntárias e involuntárias...

Felizmente na minha margem (Sul), mais cinzenta, fechada e húmida, é possível caminhar, ainda que quase clandestinamente, ao lado do Tejo (também colocaram fitas a fechar alguns caminhos, mas muitas foram cortadas, em nome da "liberdade anarca"...), sem nos cruzarmos com muita gente.

(Fotografia de Luís Eme - Boca do Vento)


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

As "Lavadeiras" do professor Américo e do Tejo...


Parece quase ficção, o que acontecia na primeira metade do século vinte (e em tempos mais antigos claro...), na "Praia das Lavadeiras", hoje conhecida internacionalmente pelos muitos turistas que vêm propositadamente ao Ginjal, para almoçar, petiscar ou jantar à beira Tejo, nos dois restaurantes mais apetecíveis da margem sul do rio.

Provavelmente chamam-lhe a "praia dos restaurantes"... Mal eles sonham que bastava abrir uma pequena cova, na maré-baixa, para que daquela areia pouco límpida, brotasse água doce. Água que era aproveitada pelas mulheres de Almada e Cacilhas, para lavarem a sua roupa branca, que depois ficava ali a "corar", ao sol...

Atrás da história e da amizade, deixo-vos o poema, "Lavadeiras", de Américo Morgado, professor e amigo desta nossa margem, com saudades dos nossos cafés, sempre acompanhados por palavras simples e sábias...

 

Lavadeiras
 
Lavadeira de Cacilhas
trouxa branca, levais
ao rio Tejo azul correndo
vai pro mar manso demais
á espera dos teus olhos
cor de mel, a doçura
a loucura da tua roupa
invejada brancura.
As cantigas e as brigas
alegria, ciúme
é dança, gritos, queixume
da pobreza malvada.
 
Suave cotovelada.
 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

"Perdida entre o Porto Brandão e a Trafaria"


Apanho o barco em Belém.

Não tenho destino. Tanto posso ficar no Porto Brandão como na Trafaria.

No meio do rio olho ambas as margens, com entusiasmo. À medida que vou chegando ao Porto Brandão, vou descobrindo alguns encantos e também algumas indústrias com torres fumarentas.

À última hora, desisto de desembarcar. Prefiro passar ao largo da "Torre Velha" e do "Asilo", que vão ser hotel de cinco estrelas. Ainda continuam deslumbrantes, lá no alto.

E sim, prefiro que sejam um hotel com estrelas, que ruínas, cada vez mais decadentes e perigosas. 

Continuará a ser um lugar vistoso, que quase abraça o Tejo, lá do cimo da quase montanha...

[Ester Núncio]


(Fotografia Luís Eme - Porto Brandão)


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

"Sem Muros"



A vista é maravilhosa. Sempre foi. 

Mesmo quando existiam "muros invisíveis", até mesmo junto ao Cais de Sodré...

Talvez existissem demasiadas pessoas distraídas, noutros tempos. Graças aos muitos políticos que lhe viravam costas, sempre que podiam, ou "construíam "mostrengos" rente às suas margens.

Gosto que o Tejo esteja "mais" em todo o lado, que além de Lisboa e de Almada, ele continue belo no Barreiro, no Seixal, em Alcochete ou em Vila Franca de Xira...

Gosto de olhar o rio na tua casa, mas também na da avó ou da do tio Quim.

E nenhum deles mora, felizmente, no bairro do "Picapau Amarelo", que uma política pequenina, inveja, ao ponto de querer ir para lá morar "ontem"...

[Ester Núncio]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)