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quinta-feira, 23 de julho de 2026

"Retrato de Amália"

 

Retrato de Amália
 
És filha de Camões filha de Inês
assassinada voz de portuguesa
cantando a nossa imensa pequenez
com laranjas e gomos de tristeza.
 
É no claro Mondego dos teus olhos
que se debruça o mal da nossa mágoa.
Ao Tejo dos teus gestos que se acolhe
o nosso coração a pulsar água.
 
Falando desatada de saudade
choras um povo cantas a balada
mais bonita que soa na cidade
de Lisboa por ti apaixonada.
 
José Carlos Ary dos Santos


(Fotografia de Luís Eme - Alcochete)


quarta-feira, 3 de junho de 2026

"E o Tejo fica assim..."



E o Tejo fica assim...

Parecem grades, mas não o são, 
muito menos pilares.
É apenas um gradeamento de protecção, 
para todos aqueles que têm vontade voar
quando se aproximam de qualquer "abismo"...

E o Tejo fica assim, 
depois de uma noite ventosa,
em que as suas águas se transvestem de Mar, com ondas...

Agora está calmo, quase chão,
onde apetece caminhar por cima,
como se não passasse de uma bonita estrada azul...

[Luís Alves Milheiro, in "Largo da Memória"]


(Fotografia de Luis Eme - Tejo)


terça-feira, 19 de maio de 2026

"Gosto de melros, os espertotes..."


«Gosto de melros, os espertotes, ladinos, com aquele jeito preto de recalcitrar de lado. Há poucos pelas relvas de Lisboa, não sei se da concorrência de pardais fura-vidas e pombalhões abafa-espaços, se duma vontade de saltitar ao de leve por outras bandas.

Ainda assim, aparecem uns tantos na feira do livro, a lavrar no parque. Negrejam aos picos no verde, dão-se a uns desenfados de voejo breve, armados em superiores. Bonito bicho, de muita inspiração literária. Ele é o Jean-Baptiste Clément, ele é o Junqueiro…

Não há melros num espaço fechado, num armazém tristonho e esquadrinhado de encontrões sem sol. Todos os anos aquele para-baixo e para-cima, os encontros de fulano e cicrano, as capas que amadurecem de ano para ano, a luz explosiva de Lisboa, os revérberos, o Marquês que medita, as frondes da avenida, o Tejo glauco a fechar as vistas.

Tenho estado em salões, por essa Europa. Salões, salas grandes, com o seu quê de fábrica e hangar. Em parte nenhuma há esta cor, esta brisa, este céu, esta extensão clara, esta alegria. Mude-se o que houver a mudar. O espaço, deixar estar».


[Mário de Carvalho, in "Os Livros no Parque"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, 9 de março de 2026

"Vi que estava lá o rio Tejo..."


«Há uma história de infância que conto num dos meus livros. Eu brincava numa rua íngreme por trás da minha casa. Um dia subi-a, desci e fiz uma coisa que nunca tinha feito, que é olhar para o horizonte. E vi que estava lá o rio Tejo. Foi uma experiência muito forte, a de sentir que aquilo estava lá antes de o ter visto. Onde eu estava a começar, estava a continuar. Nós só começamos depois de continuar.»

 

                                       [Maria Filomena Molder, “E (exp)”, 06 Jul 16]

(Fotografia de Luís Eme - Lisb0a)


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"Dias bonitos e cruéis..."


«[...] Doem-lhe as pernas de tanto andar. Mais ainda lhe dói o peito, opresso, de tanta humilhação que tem enxugado, tanta indiferença a repeli-lo. Lá do cimo da Ajuda, onde mora ainda com os pais (sem isso como sobreviver?) vira logo de manhã o cavalo cor-de-rosa da alvorada empinar-se sobre o Tejo, esparzindo com os cascos as suas chamas subtis. Podia ser bom sinal. Mas não. Os dias bonitos até são às vezes os mais cruéis. [...]»

 

[Urbano Tavares Rodrigues, in “O Adeus à Brisa”]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"Carlos Botelho é o pintor de Lisboa"


«[...] Carlos Botelho é o pintor de Lisboa. Não o único, bem entendido, embora seja  porventura o mais fascinado, e é por isso também que existem muitas Lisboas. Esta de Carlos Botelho, quase sempre plácida e luminosa, quase sempre castiça e extasiada, um presépio róseo em que o objecto de adoração é o rio - um rio-veleiro, um rio-viagem, um rio-pasmo. [...]»

[Fernando Namora, in "Jornal sem Data"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 20 de setembro de 2025

ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio...


«Diante dos meus olhos fluíam as águas turvas do Tejo e realmente o filósofo acertava quando sentenciava a conhecida divisa de que tudo flui e ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio. Tanto pelo rio, que é diferente na mesma curva, verde, negro, pardo, ocre, cinzento-aço ou loiro-cinzento, como pelos olhos que o olham volúveis, cambiantes, inquietos, viajantes da alma que jamais repetem a mesma inclinação no olhar. O meu tinha naquela manhã a suave queda da evocação e do sonho.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A noite de Lisboa...


«Lá fora uma chuva sem peso confundia-se com a humidade do rio. Saímos para a noite do nosso tempo, para os reflexos luminosos dos candeeiros no asfalto brilhante, para o uivo das sirenes e dos motores, para a respiração inconfundível da cidade. Mandámos parar o primeiro táxi que descia a Avenida da Liberdade e preparámo-nos para rodear a noite de Lisboa pela margem norte do Tejo rumo ao Atlântico.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

"Aquilo era o Mar..."

 

«Para mim, vir para aqui já era ir a Nova Iorque. Não se respirava no país, mas eu respirava quando vinha a Lisboa. A primeira coisa que fazia era sair no Rossio e dirigir-me ao Tejo para respirar o mar. Aquilo era o mar.»

                                                           [Eduardo Lourenço, “Público”, 11 de Maio 2014]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 13 de agosto de 2025

"Praça João do Rio (ou o segundo poema do português errante)"


"Praça João do Rio"

Lisboa é esta praça com árvores e com pássaros
melros piscos toutinegras rouxinóis
e barcos inconcretos nos telhados onde
o azul do céu é já um mar do avesso
um reflexo do Tejo ou talvez um
pressentimento de ocidente ocado Cabo Raso
um navegar só verbo em navio nenhum.
Lisboa é esta janela de onde vejo
tudo o que não se vê que é o que há mais
em Lisboa onde se mesmo sem ver o Tejo
e onde cada varanda é sempre um cais.
Lisboa é esta praça e esta janela
minha nau capitânia sobre o insondável
dentro de casa eu vou de caravela
Bartolomeu Dias neste mar inavegável
não há Índia perdida que não possa ser achada
Lisboa é esta praça e esta viagem
esta partida mesmo se parada
este embarcar no azul até chegar àquela margem
em cuja linha só o abstracto pensamento passa
a margem única e absoluta não mais que pura imagem
sem precisar sequer sair da Praça
João do Rio número onze quarto direito
onde eu Ulisses vou à proa
além de qualquer cabo e qualquer estreito
em Lisboa por dentro de Lisboa.

[Manuel Alegre, in "Livro do Português Errante"]

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)

sexta-feira, 18 de julho de 2025

"Lisboa que Amanhece"


Lisboa que Amanhece 

Cansados vão os corpos para casa
Dos ritmos imitados d'outra dança
A noite finge ser ainda uma criança de olhos na lua
Com a sua cegueira da razão e do desejo
A noite é cega e as sombras de Lisboa
São da cidade branca e escura face
Lisboa é mãe solteira
Amou como se fosse a mais indefesa
Princesa que as trevas algum dia coroaram
Não sei se dura sempre esse teu beijo
Ou apenas o que resta desta noite
O vento, enfim, parou
Já mal o vejo por sobre o Tejo
E já tudo pode ser tudo aquilo que parece
Na Lisboa que amanhece
O Tejo que reflecte o dia à solta
À noite é prisioneiro dos olhares
Ao Cais dos Miradoiros
Vão chegando dos bares os navegantes
Amantes das teias que o amor e o fumo tecem
[...]

Sérgio Godinho

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 6 de julho de 2025

"Tardes em que Lisboa carrega uma névoa de melancolia..."


«Havia e há tardes em que Lisboa carrega uma névoa de melancolia que se nos entranha pelo corpo adentro, que confundimos com a também latente humidade vinda do Tejo mas que é diferente e que, por vezes, nos apanha mesmo num dia quente de verão. Trata-se de uma melancolia leve, que não chega ainda a ser doença mas pode durar vários dias, e que nos impede de pensar ou ver para além do nevoeiro, que não é um nevoeiro meteorológico mas é como se fosse, apesar de estar dentro de nós.»

[Daniel Blaufuks, in "Lisboa Cliché"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 17 de maio de 2025

"Duas Faluas perdidas no Tejo"...


«Vagavam no Tejo duas faluas perdidas, as quais soturnamente homenageavam as antigas caravelas que haviam percorrido a esfera do Mundo. Sentava-se ainda uma varina desolada, tentando vender os sobejos da última safra, praticando preços que ninguém conseguia pagar. E apetecia-me cobrir o rosto, tomado por vergonha das lágrimas e pelo desejo de nada ver.»

[Mário Cláudio, in "As Batalhas do Caia"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sábado, 26 de abril de 2025

Para um Operário da Lisnave


Para um Operário da Lisnave

Sou um operário!
Amarra certa
neste cais de angústia.

Olho o casco azul
de um navio do mundo
sonho por momentos
com viagens que nunca farei.

Sem trabalho
aqui estou frente ao Tejo

Mas permaneço
vigilante.

Maria Rosa Colaço

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, 17 de abril de 2025

(Viva esta espontaneidade tão boa!)



(Viva esta espontaneidade tão boa!)

Sei lá se há estrelas!
Daqui nas as vejo.
Qualquer dia hei-de ir vê-las
no rio Tejo:

Não no céu tão longe e incerto
onde a custo as descobrimos,
mas a brilharem mais perto
nas águas de treva e limos

Só assim desse modo
consigo entendê-las
Caídas no lodo
é que são estrelas.

José Gomes Ferreira

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, 5 de abril de 2025

Gaivotas



Gaivotas

Da lama voam
e o Tejo não é
espelho d'asas

entram nas casas
e os gritos magoam

José Correia Tavares


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



terça-feira, 11 de março de 2025

"Lisboa na vertente luminosa não mudou"

«A mesma luz branca de Lisboa imortalizada pelo realizador suíço Alain Tanner continua a banhar a cidade, reflectida pelo rio e espelhada no seu casario. Se hoje chegasse a Portugal o marinheiro, personagem principal do filme de Tanner, talvez ainda fosse vítima de roubo e agressão e com um pouco de sorte encontraria Rita a criada de quarto com um diamante negro entre as pernas e viveria as mais belas cenas eróticas da sua paragem na cidade branca.

Lisboa na vertente luminosa não mudou. Mas alterou e muito a sua componente sociológica e tornou-se uma cidade mais caótica e desregulada que a Lisboa de Tanner dos anos 80 do século passado.

Quem vive em Lisboa, ou quem a visita e a percorre de carro ou a atravessa a pé, nota as diferenças com bastante facilidade. Entram, diariamente, cerca de 400 mil carros que se juntam aos 200 mil que existem na capital.»


                                                           [António Capinha, “D. Notícias”, 07 Mar 25]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Ginjal (início)


 Ginjal (inicio)

Foi há muito tempo...
quase quatro décadas,
que descobri a estrada à beira rio,
conhecida como o "Cais do Ginjal".
Ainda havia operários nas primeiras casas,
alguns habitantes no seu coração
e dois restaurantes no fim...

Era uma forma feliz de caminhar
e falar com o Tejo...

[Luís (Alves) Milheiro]

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

"Sempre o Tempo"


Sempre o Tempo

O Tejo continua igual.
Nós é que estamos diferentes.
Não me vou desculpar com o tempo,
mesmo que ele, simpático,
deixe que o usem para tudo.

Talvez hoje seja mais fotografado.
É estranho, pode ser mais guardado
mas é olhado com menos intensidade, 
por menos tempo e com menos contemplação.

Pois é,
lá volta ele,
sempre o tempo...

[Luís (Alves) Milheiro]

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


domingo, 22 de dezembro de 2024

Os olhos de Cristina

 


Os olhos de Cristina

Inquietos, sacudidos pelo bulício da cidade antiga, os olhos de Cristina vieram da cidade nova e são dois faróis a avisarem a navegação das próximas tempestades quotidianas. Cristina saiu da estação do Metro da Baixa-Chiado e atravessou a muralha mandada construir por D. Fernando para beber um café e comer um bolo. Vista ao longe, diluída na pressa dos semáforos, Cristina não é apenas uma mulher. É também a imagem de uma cidade. Cidade habitada por afectos, cruzada por ruas de sonhos, por praças projectadas na vontade de ser feliz. Se Lisboa é uma cidade-mulher, luminosa e pronta a ser conquistada todas as manhãs, Cristina é uma mulher-cidade e os seus olhos, ora inquietos ora serenos, são as portas dessa cidade luminosa mas apenas existente nas metáforas e nas imagens. À direita, o Rio Tejo dá nos olhos de Cristina a ilusão de estar colocado nos últimos telhados da Rua do Alecrim. («Alecrim, alecrim aos molhos, por causa de ti choram os meus olhos» – diz a cantiga popular. Adiante.) Os cacilheiros, repletos de pessoas e de viaturas parecem desaguar num cais insólito feito de telhas antigas e de gaivotas ruidosas. Para o fim da tarde, no regresso a casa na cidade nova, os olhos de Cristina estão serenos pelo cansaço e pela presença luminosa de Raquel, sua filha. Se de manhã se juntou a cidade-mulher (Lisboa) à mulher-cidade (Cristina) então de tarde vemos que a mistura feliz é da mulher-menina (Cristina) com a menina-mulher (Raquel). Os olhos de Cristina, motivo do texto, são uma espécie de selo branco que vai certificar o momento feliz de encontro e de plenitude que esta crónica procura representar. Ou seja: dar um testemunho feito de palavras resgatadas à pressa da cidade. 

José do Carmo Francisco


(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)