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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Atravessar o Rio era uma aventura sem parágrafos..."


«Vez por outra, o meu pai levava-me até à Trafaria. Atravessar o rio era uma aventura sem parágrafos. Colocava-me na amurada do vapor e seguia o doce movimento das ondas, perdidas em outras ondas e em espuma e em salpicos. As gaivotas soltavam gritos estridentes e poisavam levemente nas águas, procurando comida, ou seguiam em bando a uns metros da popa do barco. O barco deixava um sulco borbulhante nas águas. Os meus pensamentos voavam, iam para longe, e eu era um capitão nos Mares da China, um bandeirante na selva, um aviador destemido, um caçador de leões.»

Baptista-Bastos in "A Bolsa da Avó Palhaça"] 


(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


sábado, 22 de novembro de 2025

"No tempo em que éramos quase pobres..."


«No tempo em que éramos quase pobres, tinha poucos amigos da minha idade com carro.
Aos vinte e muitos poucos anos recordo que boa parte dos amigos da "borga", com quem me aventurava na noite, eram todos ligeiramente mais velhos que eu.
Estou a falar da primeira metade dos anos oitenta. Há quase trinta anos...
Dentro da noite, conhecíamos algumas mulheres, quase "aves nocturnas", que também escolhiam a quinta-feira como espaço de diversão, escapando às enchentes do fim de semana.
Como ninguém tinha carro e gostávamos mais de gastar dinheiro em cerveja que em táxis, esperávamos quase sempre pelo primeiro barco da manhã.
Nem sempre estávamos em bom estado, mas como éramos jovens, não custava nada fazer uma directa. O quase ligeiro peso dos olhos era coisa pouca, mesmo quando com mais uns "quilos" depois do almoço...
Esperávamos muitas vezes o barco à beira-mar, a olhar o rio com a neblina matinal, quase sempre divertidos e sem esperar que aparecesse ele rei dom Sebastião.»

[Luís Alves Milheiro, in "Largo da Memoria”, 16 Dec 11]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


quarta-feira, 30 de novembro de 2022

O Tejo Azul do Sul...

«Há o Tejo, que a todos reflectem; tanto Tejo azul em plataforma de riscos a debruar Lisboa, o Tejo que “Recordações da Casa Amarela” (João César Monteiro) já libertara.

Zéfiro, não pertencendo ao grupo das encomendas horárias, retrata com amor todo o Sul (e Lisboa é Sul no seu soprar), mostrando aldeias, desperdícios industriais, a poesia abandonada do Seixal, uma estrada a encher-se com um camião de bandeiras já é arquitectura. Fica-nos uma terrível vontade de captar para sempre nos olhos cheios aquele enamoramento; que sabemos guardado numa cadência histórica.»

 

                                      [Manuel Graça Dias, “Público”, 16 de Setembro de 1994]