quarta-feira, 5 de junho de 2019

A Lapa, de onde se avistava a bela Lisboa...


Aproveito o Tejo para homenagear Idalina Alves Rebelo, uma senhora encantadora de Cacilhas (esta Lapa ficava em Cacilhas...) de quem fui amigo, que já nos deixou, e que assinava os seus poemas e quadros como Any Ana...


«A Lapa, de onde se avistava a bela Lisboa, o Rio Tejo com barcos de todas as espécies e "calados", o Largo com a velha Parceria dos barcos grandes e o embarque dos pequenos, o grande movimento de táxis, as primeiras camionetas, as barracas de frutos com seus vendedores, as carrinhas de fretes, que antes eram feitos em carroças puxados por muares, o Chafariz ali perto, o Farol ao fundo junto ao rio, contando com o vaivém dos operários, que ao som da "gonga" da doca enchiam de alegria e movimento, junto aos pregões dos vendedores ambulantes [...].»


[Any Ana, in "A Lapa"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Lisboa Revisitada...


Fernando Álvaro de Campos Pessoa revisitou Lisboa, com os olhos presos no Tejo:



Lisboa Revisitada

[...] 
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
[...]


[Álvaro de Campos, in "Poemas"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Cacilhas e o Tejo


Um poema de Clara Mestre, uma Amiga e Mulher especial. Uma das muitas lisboetas que vieram para a Margem Sul, para ficar...


Cacilhas e o Tejo
  
Cacilhas tem muitas histórias famosas
Espalhadas pelas ondas murmurantes
E meigas confidências amorosas
Que ela ouve, em suspiros sussurrantes.
Rio lindo, de intensa aguarela.
A ponte sobressai sobre este quase mar
Cada onda tem pincelada singela
No céu rosado, o Sol o vem beijar…



[Clara Mestre]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sábado, 18 de maio de 2019

Sentado a Olhar os Cacilheiros...



«[...] Quando chegou a casa eram quase sete horas. Tinha-se demorado um bom bocado no Terreiro do Paço, sentado num banco, a olhar os cacilheiros que iam para a outra margem do Tejo. Estava um belo fim de tarde, e Pereira quis ficar a gozá-lo. Acendeu um charuto e aspirou o fumo avidamente. Estava sentado num banco em frente ao rio e junto dele veio sentar-se um mendigo com um acordeão que começou a tocar velhas canções de Coimbra. [...]»


[Antonio Tabucchi in "Afirma Pereira"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, 11 de maio de 2019

Não, Tejo... Sou eu...



[...]
Não, Tejo,
Não és tu que em mim te vês.
- Sou eu que em ti me vejo!
Tejo desta canção, que o teu correr
Não seja o meu pretexto de saudade.
Saudades tenho sim, mas de perder,
Sem as poder deter,
As águas vivas da realidade!

Não, Tejo,
Não és tu que em mim te vês.
- Sou eu que em ti me vejo!


[Alexandre O’Neill]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, 4 de maio de 2019

O Farol (de Cacilhas)



O Farol


O velho Farol de Cacilhas
vive quase adormecido
e só ganha importância
quando está mau tempo no canal.
A sua luz é uma constância
que tenta furar o nevoeiro
de mão dada com a “ronca”
que chega ao meio do Tejo
e é música para os ouvidos
do povo e dos marinheiros,
que se sentem perdidos
no meio do nevoeiro frio,
desejosos de desembarcar
e virar as costas ao rio,
que nestes dias
é um quase um mar…


[Luís Alves Milheiro, in "Palavras ao Tejo]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

terça-feira, 30 de abril de 2019

Ver (à noite) o Rio e os Barcos...


[…] 
«A coisa mais natural do mundo é chegar-se um homem à beira do cais, mesmo sendo noite, para ver o rio e os barcos, este Tejo que não corre pela minha aldeia, o Tejo que corre pela minha aldeia chama-se Douro, por isso, por não ter o mesmo nome, é que o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia.» 
[…]

[José Saramago, in “O Ano da Morte de Ricardo Reis”] 


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Um Homem na Cidade (mais uma vez)...



[...]
À flor dum azulejo a cor do Tejo
e um barco antigo ainda por largar
distância que já não vejo
e enche Lisboa de infância
e enche Lisboa de mar.



[José Carlos Ary dos Santos, "Fado dos Azulejos" do disco "Um Homem na Cidade"]



(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, 18 de abril de 2019

«Basta uma janela para me fazer feliz...»


«Uma vez subi a um quarto andar onde mora um tipógrafo; ia com ganas de lhe comer os fígados, porque me andava a enganar desde que o livro entrara na oficina. Pois recebeu-me, lá no alto, um sol magnífico a cair sobre Lisboa: isto tudo visto por uma pequena janela. Adeus, fúrias, adeus palavras como punhais! Basta uma janela para me fazer feliz e foi o que me aconteceu, quando cheguei à sala 19. Era o Castelo, era o Tejo, era a Cidade de mármore e granito (como dizem) a espreitar para dentro da aula.»


[Sebastião da Gama, in “Diário”]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, 13 de abril de 2019

O (meu) Sonho Adiado...



O Sonho Adiado

O poeta continua a viagem
Pelo cais dos sonhos...

Mesmo sem a luz do Farol,
Sem a frescura da água
Das bicas do Xafariz,
Não desiste de sonhar...

Percorre o Ginjal
De mão dada com a serenidade
Deixa-se empurrar pelo vento
Naquele carreiro da liberdade

Apesar das paredes cinzentas
Marcadas pelo abandono
Acredita num futuro azul
Inspirado na beleza do Tejo
E no encanto das suas margens

O poeta continua a viagem
Pelo cais dos sonhos...

E promete, nunca desistir de sonhar...

[Luís Alves Milheiro, in "Palavras ao Tejo"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

domingo, 7 de abril de 2019

O Tejo, Romeu, Almada e Lisboa...


Romeu Correia, o grande escritor de Almada, também se inspirou no Tejo (que está presente em muitos dos seus livros). 

Ele que viveu parte da infância e adolescência no Cais de Ginjal, quase dentro do "Melhor Rio do Mundo"...

«A vila fica num alto e lá em baixo há o rio. Todo o estuário do Tejo pode ser observado lá de riba, e ainda o anfiteatro de Lisboa que, num rodar de cabeça, abrange do Bugio ao Poço do Bispo. Chama-se Almada, a vila. Terra que pertenceu à moirama, e agora é povoada por gente de trabalho que cedo se habituou a sociabilidade, fundando filarmónicas, centros recreativos e culturais, montepios, cooperativas de consumo e grupos desportivos.»
[...]

[Romeu Correia, in "Sábado sem Sol"]


(Fotografia de Luís Eme - Almada)

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Digo: "Lisboa"...


Lisboa


Digo
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
e a cidade a que chego abre-se
como se do seu nome nascesse

Abre-se e ergue-se em sua extensão
nocturna
em seu longo luzir de azul e rio
em seu corpo amontoado de colinas
[...]

[Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Navegações"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)