quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

"Atravessar o Rio era uma aventura sem parágrafos..."


«Vez por outra, o meu pai levava-me até à Trafaria. Atravessar o rio era uma aventura sem parágrafos. Colocava-me na amurada do vapor e seguia o doce movimento das ondas, perdidas em outras ondas e em espuma e em salpicos. As gaivotas soltavam gritos estridentes e poisavam levemente nas águas, procurando comida, ou seguiam em bando a uns metros da popa do barco. O barco deixava um sulco borbulhante nas águas. Os meus pensamentos voavam, iam para longe, e eu era um capitão nos Mares da China, um bandeirante na selva, um aviador destemido, um caçador de leões.»

Baptista-Bastos in "A Bolsa da Avó Palhaça"] 


(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

"Dias bonitos e cruéis..."


«[...] Doem-lhe as pernas de tanto andar. Mais ainda lhe dói o peito, opresso, de tanta humilhação que tem enxugado, tanta indiferença a repeli-lo. Lá do cimo da Ajuda, onde mora ainda com os pais (sem isso como sobreviver?) vira logo de manhã o cavalo cor-de-rosa da alvorada empinar-se sobre o Tejo, esparzindo com os cascos as suas chamas subtis. Podia ser bom sinal. Mas não. Os dias bonitos até são às vezes os mais cruéis. [...]»

 

[Urbano Tavares Rodrigues, in “O Adeus à Brisa”]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

"Carlos Botelho é o pintor de Lisboa"


«[...] Carlos Botelho é o pintor de Lisboa. Não o único, bem entendido, embora seja  porventura o mais fascinado, e é por isso também que existem muitas Lisboas. Esta de Carlos Botelho, quase sempre plácida e luminosa, quase sempre castiça e extasiada, um presépio róseo em que o objecto de adoração é o rio - um rio-veleiro, um rio-viagem, um rio-pasmo. [...]»

[Fernando Namora, in "Jornal sem Data"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

"Gaivotas em Terra…"


Começa a ser comum ver gaivotas em terra por aqui.

Mesmo quando não há sinais de "tempestade"...
Isto não acontece apenas devido à proximidade do Tejo ou do Atlântico.
Aliás, eles estão aqui, desde sempre.
Até parece que as gaivotas estão a querer fazer parte da paisagem diária de Almada...



[Luís Alves Milheiro, in “Largo da Memoria”, 18 Dec 13]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

"As noites calmas..."


Há noites assim, calmas e solitárias.
Parece que está tudo a dormir e que a noite nos pertence, completamente...
Estava ali, sentado, à beira rio, à espera de ti e do cacilheiro que te transportava para a nossa Margem, quase sem pensar em nada, além do Tejo e da Lua.
Foi então que, sem nenhuma razão aparente, lembrei-me que na infância os dias são quase infinitos, temos tempo para fazer tudo.


[Luís Alves Milheiro, In “Largo da Memoria”, 21 Mai 13]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 22 de novembro de 2025

"No tempo em que éramos quase pobres..."


«No tempo em que éramos quase pobres, tinha poucos amigos da minha idade com carro.
Aos vinte e muitos poucos anos recordo que boa parte dos amigos da "borga", com quem me aventurava na noite, eram todos ligeiramente mais velhos que eu.
Estou a falar da primeira metade dos anos oitenta. Há quase trinta anos...
Dentro da noite, conhecíamos algumas mulheres, quase "aves nocturnas", que também escolhiam a quinta-feira como espaço de diversão, escapando às enchentes do fim de semana.
Como ninguém tinha carro e gostávamos mais de gastar dinheiro em cerveja que em táxis, esperávamos quase sempre pelo primeiro barco da manhã.
Nem sempre estávamos em bom estado, mas como éramos jovens, não custava nada fazer uma directa. O quase ligeiro peso dos olhos era coisa pouca, mesmo quando com mais uns "quilos" depois do almoço...
Esperávamos muitas vezes o barco à beira-mar, a olhar o rio com a neblina matinal, quase sempre divertidos e sem esperar que aparecesse ele rei dom Sebastião.»

[Luís Alves Milheiro, in "Largo da Memoria”, 16 Dec 11]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


domingo, 9 de novembro de 2025

"A minha primeira Cacilhas..."


A primeira vez que me recordo de ouvir falar de Cacilhas, foi nas páginas de um dos livros de leitura da escola primária.

Era um texto de algum escritor (tenho de investigar o caso...) que vinha acompanhado de uma imagem nocturna do Tejo, com um Cacilheiro a fazer a travessia e tinha como fundo as luzes da Outra Banda.

Não me lembro do conteúdo do texto, mas pela imagem que ficou gravada na minha cabeça, à distância de mais de meio século, penso que se devia falar do regresso a casa das muitas pessoas que trabalhavam em Lisboa e viviam na outra margem do Rio. 

Sim, a Cacilhas desse tempo, não fugia do epiteto de "dormitório da Capital", que continua actual...

[Luís Alves Milheiro, in "Casario do Ginjal", 04 Nov 25]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, 28 de outubro de 2025

"Uma paixão que me tira o fôlego..."


«Eu sou uma lisboeta naturalizada, não me entendam mal. Se alguém quiser mandar-me para a minha terra, não será para Lisboa. Mas tenho por esta cidade um amor daqueles que não se explicam, uma paixão que me tira o fôlego sempre que vejo uma nesga de Tejo a espreitar por uma viela. Fico sem ar quando estamos muito tempo longe e não consigo imaginar como é que alguém consegue gostar de viver noutro lugar.»

[Margarida Davim, “Visão”, 12 Set 25]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

"O espelhado e tranquilo estuário do Tejo"


«Fiel ao sentimento de saudade ficou a obra de Francisco Smith, mas para sempre impregnada da fina luminosidade e do colorido natural da sua cidade - desta Lisboa, que se mira no espelhado e tranquilo estuário do Tejo, sob o céu azul do céu puríssimo, perfumada, fresca do hálito marinho.»

[Manuel Mendes, in "Colóquio Artes e Letras", Maio de 1962]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 20 de setembro de 2025

ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio...


«Diante dos meus olhos fluíam as águas turvas do Tejo e realmente o filósofo acertava quando sentenciava a conhecida divisa de que tudo flui e ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio. Tanto pelo rio, que é diferente na mesma curva, verde, negro, pardo, ocre, cinzento-aço ou loiro-cinzento, como pelos olhos que o olham volúveis, cambiantes, inquietos, viajantes da alma que jamais repetem a mesma inclinação no olhar. O meu tinha naquela manhã a suave queda da evocação e do sonho.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A noite de Lisboa...


«Lá fora uma chuva sem peso confundia-se com a humidade do rio. Saímos para a noite do nosso tempo, para os reflexos luminosos dos candeeiros no asfalto brilhante, para o uivo das sirenes e dos motores, para a respiração inconfundível da cidade. Mandámos parar o primeiro táxi que descia a Avenida da Liberdade e preparámo-nos para rodear a noite de Lisboa pela margem norte do Tejo rumo ao Atlântico.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

"Aquilo era o Mar..."

 

«Para mim, vir para aqui já era ir a Nova Iorque. Não se respirava no país, mas eu respirava quando vinha a Lisboa. A primeira coisa que fazia era sair no Rossio e dirigir-me ao Tejo para respirar o mar. Aquilo era o mar.»

                                                           [Eduardo Lourenço, “Público”, 11 de Maio 2014]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)