terça-feira, 9 de julho de 2019

Vozes, Olhares e Memorações...



José Cardoso Pires, abre o seu "Lisboa Livro de Bordo - vozes, olhares, memorações", com um excelente texto sobre Lisboa e o Tejo.

«Logo a abrir, apareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar. Não me admiro: sempre que me sinto em alturas de abranger o mundo, no pico dum miradouro ou sentado numa nuvem, vejo-te em cidade-nave, barca com ruas e jardins por dentro e até a brisa que corre me sabe a sal. Há ondas de mar aberto desenhadas nas tuas calçadas; há âncoras, há sereias. O convés, em praça larga com uma rosa dos ventos bordada no empedrado, tem a comandá-lo duas colunas saídas das águas que fazem guarda de honra à partida para o oceano. Ladeiam a proa ou figuram como tal, é a ideia que dão; um pouco atrás, está um rei-menino montado num cavalo verde a olhar, por entre elas, para o outro lado da Terra e a seus pés vêem-se nomes de navegadores e datas de descobrimentos anotados a basalto no terreiro batido pelo sol. Em frente é o rio que corre para os meridianos do paraíso. O tal Tejo de que falam os cronistas enlouquecidos, povoando-o de tritões a cavalo de golfinhos.»

(Fotografia de Luís Eme)


quarta-feira, 3 de julho de 2019

"A Ponte é uma Miragem"


Hoje volto a "casa"...

[...]
olhar que se cruza
com um Rio de “visões”
tanto a norte como a sul
e que se deixa levar
em todas as direcções

sentidos explorados
pelo som que se confunde com o vento
de um tabuleiro povoado de carros
suspenso pelos cabos do tempo

sentidos encantados
pelas cores de um Tejo radiante
que pinta toda a paisagem
de uma forma contagiante
e transforma a ponte na tal miragem


[Luís Alves Milheiro, in "A Ponte é uma Miragem" - catálogo de exposição]


(Fotografia de Luís Eme)

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Tela Portuguesa



[...] «Já não me reconheço na criança que às vezes vinha de Moura e atravessava o grande rio, de olhos deslumbrados, entre gaivotas e navios descomunais, e desembarcava no Terreiro do Paço, todo simétrico na sua verde harmonia palaciana.» [...]


[Urbano Tavares Rodrigues, in “Tela Portuguesa”]


(Fotografia de Luís Eme)

domingo, 16 de junho de 2019

Adeus Lisboa!


António Gedeão, volta ao "Olha o Tejo", porque sim...


Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.
Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.
[…]

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma
toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!



[António Gedeão, in "Adeus Lisboa"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

quinta-feira, 13 de junho de 2019

O Tejo, Lago Azul...



Porque hoje é dia do nosso Fernando António...


«[...] Tenho um sorriso grandemente metafísico para os que sonham que o sonho é sonho, e amo a verdade do exterior absoluto com uma virtude nobre do entendimento. O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma Suíça achatada. Sai um navio pequeno — vapor de carga preto — dos lados do Poço do Bispo para a barra que não vejo. Que os Deuses todos me conservem, até à hora em que cesse este meu aspeto de mim, a noção clara e solar da realidade externa, o instinto da minha importância, o conforto de ser pequeno e de poder pensar em ser feliz. [...]»

[Bernardo Soares, In "Livro do Desassossego"]


(Fotografia de Luís Eme)

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Rio à Beira da Ribeira de Lisboa...


Porque hoje é um dia diferente, faço uma homenagem dentro de outra homenagem, ao Mestre Lagoa Henriques...


[…]
a alfama onde moram
as tuas varinas
peixeiras
como tu dizes
são elas próprias
feitas de bairro
alicerce movente
arquitectura sem paredes
portas e janelas de ternura.

[...]
de gestos-de gestos
os gestos da tua pintura
os gritos modulados do
teu desenho no céu claro
fortemente iluminado
da beira-rio

da beira-tejo
do rio à beira
da ribeira de lisboa.
[…]

[Poema de Lagoa Henriques de homenagem a Luis Dourdil]



(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

A Lapa, de onde se avistava a bela Lisboa...


Aproveito o Tejo para homenagear Idalina Alves Rebelo, uma senhora encantadora de Cacilhas (esta Lapa ficava em Cacilhas...) de quem fui amigo, que já nos deixou, e que assinava os seus poemas e quadros como Any Ana...


«A Lapa, de onde se avistava a bela Lisboa, o Rio Tejo com barcos de todas as espécies e "calados", o Largo com a velha Parceria dos barcos grandes e o embarque dos pequenos, o grande movimento de táxis, as primeiras camionetas, as barracas de frutos com seus vendedores, as carrinhas de fretes, que antes eram feitos em carroças puxados por muares, o Chafariz ali perto, o Farol ao fundo junto ao rio, contando com o vaivém dos operários, que ao som da "gonga" da doca enchiam de alegria e movimento, junto aos pregões dos vendedores ambulantes [...].»


[Any Ana, in "A Lapa"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Lisboa Revisitada...


Fernando Álvaro de Campos Pessoa revisitou Lisboa, com os olhos presos no Tejo:



Lisboa Revisitada

[...] 
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
[...]


[Álvaro de Campos, in "Poemas"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Cacilhas e o Tejo


Um poema de Clara Mestre, uma Amiga e Mulher especial. Uma das muitas lisboetas que vieram para a Margem Sul, para ficar...


Cacilhas e o Tejo
  
Cacilhas tem muitas histórias famosas
Espalhadas pelas ondas murmurantes
E meigas confidências amorosas
Que ela ouve, em suspiros sussurrantes.
Rio lindo, de intensa aguarela.
A ponte sobressai sobre este quase mar
Cada onda tem pincelada singela
No céu rosado, o Sol o vem beijar…



[Clara Mestre]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sábado, 18 de maio de 2019

Sentado a Olhar os Cacilheiros...



«[...] Quando chegou a casa eram quase sete horas. Tinha-se demorado um bom bocado no Terreiro do Paço, sentado num banco, a olhar os cacilheiros que iam para a outra margem do Tejo. Estava um belo fim de tarde, e Pereira quis ficar a gozá-lo. Acendeu um charuto e aspirou o fumo avidamente. Estava sentado num banco em frente ao rio e junto dele veio sentar-se um mendigo com um acordeão que começou a tocar velhas canções de Coimbra. [...]»


[Antonio Tabucchi in "Afirma Pereira"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, 11 de maio de 2019

Não, Tejo... Sou eu...



[...]
Não, Tejo,
Não és tu que em mim te vês.
- Sou eu que em ti me vejo!
Tejo desta canção, que o teu correr
Não seja o meu pretexto de saudade.
Saudades tenho sim, mas de perder,
Sem as poder deter,
As águas vivas da realidade!

Não, Tejo,
Não és tu que em mim te vês.
- Sou eu que em ti me vejo!


[Alexandre O’Neill]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sábado, 4 de maio de 2019

O Farol (de Cacilhas)



O Farol


O velho Farol de Cacilhas
vive quase adormecido
e só ganha importância
quando está mau tempo no canal.
A sua luz é uma constância
que tenta furar o nevoeiro
de mão dada com a “ronca”
que chega ao meio do Tejo
e é música para os ouvidos
do povo e dos marinheiros,
que se sentem perdidos
no meio do nevoeiro frio,
desejosos de desembarcar
e virar as costas ao rio,
que nestes dias
é um quase um mar…


[Luís Alves Milheiro, in "Palavras ao Tejo]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)