terça-feira, 28 de outubro de 2025

"Uma paixão que me tira o fôlego..."


«Eu sou uma lisboeta naturalizada, não me entendam mal. Se alguém quiser mandar-me para a minha terra, não será para Lisboa. Mas tenho por esta cidade um amor daqueles que não se explicam, uma paixão que me tira o fôlego sempre que vejo uma nesga de Tejo a espreitar por uma viela. Fico sem ar quando estamos muito tempo longe e não consigo imaginar como é que alguém consegue gostar de viver noutro lugar.»

[Margarida Davim, “Visão”, 12 Set 25]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quinta-feira, 16 de outubro de 2025

"O espelhado e tranquilo estuário do Tejo"


«Fiel ao sentimento de saudade ficou a obra de Francisco Smith, mas para sempre impregnada da fina luminosidade e do colorido natural da sua cidade - desta Lisboa, que se mira no espelhado e tranquilo estuário do Tejo, sob o céu azul do céu puríssimo, perfumada, fresca do hálito marinho.»

[Manuel Mendes, in "Colóquio Artes e Letras", Maio de 1962]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 20 de setembro de 2025

ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio...


«Diante dos meus olhos fluíam as águas turvas do Tejo e realmente o filósofo acertava quando sentenciava a conhecida divisa de que tudo flui e ninguém toma banho duas vezes no mesmo rio. Tanto pelo rio, que é diferente na mesma curva, verde, negro, pardo, ocre, cinzento-aço ou loiro-cinzento, como pelos olhos que o olham volúveis, cambiantes, inquietos, viajantes da alma que jamais repetem a mesma inclinação no olhar. O meu tinha naquela manhã a suave queda da evocação e do sonho.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


sexta-feira, 12 de setembro de 2025

A noite de Lisboa...


«Lá fora uma chuva sem peso confundia-se com a humidade do rio. Saímos para a noite do nosso tempo, para os reflexos luminosos dos candeeiros no asfalto brilhante, para o uivo das sirenes e dos motores, para a respiração inconfundível da cidade. Mandámos parar o primeiro táxi que descia a Avenida da Liberdade e preparámo-nos para rodear a noite de Lisboa pela margem norte do Tejo rumo ao Atlântico.»

[Susana Fortes, in "Querido Corto Maltese"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

"Aquilo era o Mar..."

 

«Para mim, vir para aqui já era ir a Nova Iorque. Não se respirava no país, mas eu respirava quando vinha a Lisboa. A primeira coisa que fazia era sair no Rossio e dirigir-me ao Tejo para respirar o mar. Aquilo era o mar.»

                                                           [Eduardo Lourenço, “Público”, 11 de Maio 2014]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 30 de agosto de 2025

"O Mês"...

 

O Mês

Os espelhos partidos vidros restos
as fogueiras os séculos os degredos
saía-se do medo em largos gestos
o mês rompia pelos dedos.
[...]
As sílabas sublevadas o azul o som
partiam-se as vogais no tom inverso.
Era o mês em que Charles Fourier e André Breton
passaram por Lisboa a cavalo num verso.

A subterrânea floração e seu mistério
era o mês com seu rio pela rua
na minha língua abril é um falanstério
na outra face da lua,
[...]
Colhemos então as barcas sobre o Tejo
navegação por dentro - metáforas à solta em cada
rua: Lisboa entre a memória e o desejo
era o mês da pétala lusa.
[...]
Dai-me de novo as grandes subversões idiomáticas
as inesperadas e loucas opções de classe. Dai-me outra vez
as gramáticas perdidas das ilusões fantásticas
as páginas a abrir as manhãs mágicas o mês.

[Manuel Alegre, in "Livro do Português Errante"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

A "Marcha de Belém"

 

"Marcha de Belém" (2025)

Lisboa tem a cor de uma saudade
 Que canta quando brilha o nosso Tejo
 Lisboa é a dor de uma ansiedade
Que quando não te vê, rouba-te um beijo
E olhando de mansinho a noite escura 
Passando a cidade em sobressalto 
Salpicando a cidade de outras cores 
No preto e banco do chão de basalto
[...]

Henrique Vales


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

"Praça João do Rio (ou o segundo poema do português errante)"


"Praça João do Rio"

Lisboa é esta praça com árvores e com pássaros
melros piscos toutinegras rouxinóis
e barcos inconcretos nos telhados onde
o azul do céu é já um mar do avesso
um reflexo do Tejo ou talvez um
pressentimento de ocidente ocado Cabo Raso
um navegar só verbo em navio nenhum.
Lisboa é esta janela de onde vejo
tudo o que não se vê que é o que há mais
em Lisboa onde se mesmo sem ver o Tejo
e onde cada varanda é sempre um cais.
Lisboa é esta praça e esta janela
minha nau capitânia sobre o insondável
dentro de casa eu vou de caravela
Bartolomeu Dias neste mar inavegável
não há Índia perdida que não possa ser achada
Lisboa é esta praça e esta viagem
esta partida mesmo se parada
este embarcar no azul até chegar àquela margem
em cuja linha só o abstracto pensamento passa
a margem única e absoluta não mais que pura imagem
sem precisar sequer sair da Praça
João do Rio número onze quarto direito
onde eu Ulisses vou à proa
além de qualquer cabo e qualquer estreito
em Lisboa por dentro de Lisboa.

[Manuel Alegre, in "Livro do Português Errante"]

(Fotografia de Luis Eme - Lisboa)

terça-feira, 5 de agosto de 2025

A "Lisboa" da Sophia...


Lisboa 

Digo: “Lisboa”

Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver.

Sophia de Mello Breyner Andresen

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 18 de julho de 2025

"Lisboa que Amanhece"


Lisboa que Amanhece 

Cansados vão os corpos para casa
Dos ritmos imitados d'outra dança
A noite finge ser ainda uma criança de olhos na lua
Com a sua cegueira da razão e do desejo
A noite é cega e as sombras de Lisboa
São da cidade branca e escura face
Lisboa é mãe solteira
Amou como se fosse a mais indefesa
Princesa que as trevas algum dia coroaram
Não sei se dura sempre esse teu beijo
Ou apenas o que resta desta noite
O vento, enfim, parou
Já mal o vejo por sobre o Tejo
E já tudo pode ser tudo aquilo que parece
Na Lisboa que amanhece
O Tejo que reflecte o dia à solta
À noite é prisioneiro dos olhares
Ao Cais dos Miradoiros
Vão chegando dos bares os navegantes
Amantes das teias que o amor e o fumo tecem
[...]

Sérgio Godinho

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 6 de julho de 2025

"Tardes em que Lisboa carrega uma névoa de melancolia..."


«Havia e há tardes em que Lisboa carrega uma névoa de melancolia que se nos entranha pelo corpo adentro, que confundimos com a também latente humidade vinda do Tejo mas que é diferente e que, por vezes, nos apanha mesmo num dia quente de verão. Trata-se de uma melancolia leve, que não chega ainda a ser doença mas pode durar vários dias, e que nos impede de pensar ou ver para além do nevoeiro, que não é um nevoeiro meteorológico mas é como se fosse, apesar de estar dentro de nós.»

[Daniel Blaufuks, in "Lisboa Cliché"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, 10 de junho de 2025

"Aquela ninharia de ouvir chamar 'Tejo' "...



«Aquela ninharia de ouvir chamar "Tejo" a um cão que ladrava em norueguês. lisonjeou-me.»

[José Gomes Ferreira, in "Tempo Escandinavo]



(Fotografia de Luis Eme - Trafaria)