quarta-feira, 27 de abril de 2022

As "Odes ao Tejo" de Armindo Rodrigues


Em 1972 o poeta Armindo Rodrigues publicou um livro que dividiu em três partes: "Odes ao Tejo", "As Sete Luas do Poeta Gomes Leal" e "Lisboa Próxima e Distante".

Por razões óbvias, é a primeira parte que nos interessa e é por isso que publicamos algumas das "quintilhas" que escreveu da "Ode Primeira":


Nas tardes dos domingos em que o sol
tem um brilho mais nítido e mais quente
e os cafés estão cheios de uma gente
burguesa, tola, amargurada e mole,
busco a beira Tejo, transparente

[...]

Olho o lado da barra, que não vejo,
e de novo Camões o Tejo cruza, ´
opondo ao tempo a epopeia lusa,
e Bocage de novo cruza o Tejo,
tangendo, magoa sua vária musa.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



terça-feira, 19 de abril de 2022

"Uma Janela para esse Monumento que é o Tejo..."


Raul Solnado, um dos grandes comediantes portugueses do século XX, falou do Tejo no inesquecível suplemento DNA,  do Diário de Notícias", em Outubro de 1997:

«E o Tejo? É uma estátua descomunal. No outro dia vinha num barco e vi um milhão de janelas e pensei assim: “Meu Deus, eu nunca consegui ter assim uma janela para esse monumento que é o Tejo…”.»

                                            

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


segunda-feira, 28 de março de 2022

"Quase uma Ode ao Tejo"

 

Quase uma Ode ao Tejo

O rio dá cabo de mim. 
Recolho pedras, pedrinhas,
à beira,
onde o cais soçobra.
Nos olhos, pedras, blocos mágicos
limosos, submersos;
pedrinhas, na algibeira, quantas posso
e tenho
com elas tolas teimosias
entre os dedos
curiosos de tudo.
Todas não recolho.
Escolho-as uma a uma.
Atiro algumas ao voo das ondas
e pasmo de ver a cidade
carregar de luzes um navio
que procura o mar.
São luzes enigmáticas, difusas;
outras, fulgurantes,
as que salpicam, o mundo das águas,
o que vou pensar.

O rio dá cabo de mim.
Vejo-o molhar o casco do navio.

[Rui Cinatti, in "Tempo da Cidade"]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


sexta-feira, 25 de março de 2022

"A Outra Margem"

 

A Outra Margem

O silêncio que me habita vive
numa casa-castelo habitada
por crianças sem olhos, dementes
sempre sempre abandonadas.

Um rio nos separa delas, tanto...
Um rio fundo, feroz, intratável. 
Passar o rio custa muito...
ou não custa - raios! - nada mesmo.

Abrir as portas do castelo-casa,
sentir crianças cegas, destroçadas,
esse o problema 
que me persegue...

Resisto por mais que custe...
Paro perante fachadas.
Pairo no rio e cresço...
temente sempre que uma das portas se abra.

[Rui Cinatti, in "Tempo da Cidade"]


Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

"A Enseada Azul do Tejo"

 

«Para lá deste tumulto de formas e cores, rasga-se em frente a enseada azul do Tejo, tão ampla e tamisada de tons que logo funde tudo e mais em seu esplendor e vastidão.

A vista corre, lés a lés deste vasto cenário, desde a barra e o mar até às vastas lezírias do Ribatejo, que já mal se lobrigam ao nascente. Entre a barra e o pontal de Cacilhas, apertado a sul pelas colinas baixas da Trafaria, Lazareto e Almada, estende-se o canal do rio, dum azul intenso e concentrado. Logo, e de chofre, o Tejo abre a enseada imensa, que mais diríamos um lago, tão remansoso e fechado nos fica a toda a volta. Para lá do pontal, mais abrigada, a enseada do Alfeite espelha as águas límpidas e quietas dum azul leitoso.»


                                                           [Jaime Cortesão, “O Jornal”, 22 Ago 86]

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)



domingo, 9 de janeiro de 2022

"Onde Estás?"



"Onde Estás?"

Sai do Cacilheiro,
quase vazio.
E depois
fiz-me ao teu Ginjal.
Apeteceu-me telefonar-te.
Saber de ti neste começo
de um ano que parece 
que já nasceu velho.
Sentei-me da esplanada
das mesas e cadeiras amarelas.
Bebi um chá quente
puxei do meu caderno
e comecei a escrever
com a pergunta:
"onde estás?"

Laura Martinho


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)



sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

"O Meu Postal"


O meu Postal

Escrevi-te um postal
falei da tua outra Cidade
do Tejo que alinda o teu Ginjal,
que parece não ter idade.
Não esqueci as cores,
os cheiros e as gentes
reféns de histórias de amores
um tudo nada diferentes.

Escrevi-te um postal
chamei-te amigo inteiro
sem esquecer o teu sabor a sal
e teu ar sorridente de marinheiro.

Não esqueci o vento
do final da nossa tarde.

Guardo-te no meu pensamento
e no meu coração, que arde...

Laura Martinho

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)



terça-feira, 30 de novembro de 2021

("Afinal")


21.

A palavra «Tágide» vem de um tempo antigo (pastoras, flautas, canções, águas sossegadas) sem esquecer que os bons dicionários  a referem como  «Ninfa do Tejo».
Hoje ainda há «Tágides» na febre da cidade, na pressa para coisa nenhuma, no ruído que esconde as palavras.
Afinal, esse tempo antigo permanece na força de um olhar que separa a terra da água.

[José do Carmo Francisco, in "Afinal"]

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


domingo, 21 de novembro de 2021

"Voltar à Infância"


«Quando apanhou o cacilheiro no Cais Sodré e se viu no meio do rio, recordou-se da meninice passada rente ao Tejo, nas brincadeiras diárias que fazia ao longo do Ginjal com os amigos, por entre os operários das várias indústrias que davam vida aquele lugar tão aprazível.

Vieram-lhe à memória dois ou três rostos de amigos mais chegados. O que seria deles, vinte e muitos anos depois? Talvez não os reconhecesse às primeiras, sabia o quanto a vida gostava de nos mudar por dentro e por fora...

Deixou as pessoas irem saindo, enquanto olhava pela janela do cacilheiro o que podia ver de Cacilhas e do Ginjal. Depois desceu as escadas e saiu calmamente para terra. Primeiro espreitou o Ginjal. Estranhou ser recebido por placas informativas colocadas pelo Município, que eram no mínimo alarmantes, pois identificavam várias casas e armazéns em perigo de ruir. Ficou com uma vontade enorme de seguir por aquele caminho quase proibido, mas ao olhar o relógio, achou que era melhor ideia este passeio ficar para depois do almoço.

Percorreu com alguma emoção o Largo de Cacilhas e depois entrou na Rua Cândido dos Reis. Olhou para os vários restaurantes, ainda sem se decidir onde iria comer uma caldeirada de peixe. Tinha prometido a si mesmo só parar rente ao número 27.» 

(começo de um texto inédito escrito no final do século XX)

[Luís (Alves) Milheiro]

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

"As Portas de Rodão"

«Durante milhões de anos, o Tejo foi “a mão construtora desta paisagem”, definia momentos antes Filipa Almeida, arquitecta paisagista e apicultora, uma das nossas principais cicerones nesta viagem pelas terras da Beira Baixa. A cordilheira onde nos situamos foi formada há cerca de 600 milhões de anos, rompendo o horizonte numa crista quartzítica crispada. Durante anos e anos, as águas do Tejo foram pacientemente escavando a base da serra das Talhadas, feita de xisto, uma pedra menos dura que o quartzo, no topo. A erosão provocada pela acção do rio acabaria por rasgar uma cascata e, mais tarde, abrir uma passagem que se foi, entretanto, alargando: as Portas de Ródão, classificadas como monumento natural desde 2009.»

[Mara Gonçalves, "Fugas (Público)", 15 Nov 19]


(Fotografia de Luís Eme - Vila Velha de Rodão)


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

"Restelo"



Restelo

Sentado à beira-Tejo, à porta de Lisboa,
eu penso em quantas naus outrora havidas
não estiveram presentes nas chegadas,
na glória de contar as glórias idas, 
tendo estado nas fainas perfiladas
para o clamor e o assombro das partidas.



[João Rui de Sousa in "Lisboa com Seus Poetas", antologia de poesia sobre Lisboa, organizada por Adosinha Providência Torgal e Clotilde Correia Botelho]


(Fotografia de Luís Eme - Belém)


quarta-feira, 22 de setembro de 2021

"Outra Canção Gratuita"

 


Outra Canção Gratuita

Café glacé... Vida boa...
Tempo plano, claro, quieto...
Rodar suave do eléctrico...
Última tarde em Lisboa...

Há um quadrante doirado,
Rosa-chá por desfolhar,
Naquela casa de esquina
Com alecrim no telhado...

Café glacé... Vida amiga...
âncora na água do rio...
grão de areia, remo esguio...
Minha infância reavida...

Tão sossegada à janela
Prostitutinha de branco...
E a brisa fresca do Tejo
Não desfaz a aguarela...

[Cristovam Pavia, in "Lisboa com Seus Poetas", antologia de poesia sobre Lisboa, organizada por Adosinha Providência Torgal e Clotilde Correia Botelho]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)