quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

"A presença liquida do Tejo faz parte da minha vida"


«Abro a janela do meu minúsculo apartamento na Graça, mais ninho de águia ou caixa de fósforos que outra coisa...

A presença liquida do Tejo faz parte da minha vida. É a minha auréola de graça desde a Ponte Vasco da Gama até ao Cristo-Rei que vejo ao lado duma ameia do Castelo de São Jorge...

O Tejo é agora um grande rio caudaloso de vinho que me atormenta...

Então à noite, oiço-o chamar-me...

É uivo de cacilheiro... Mugido de rebocador... Vozeirão de paquete...»


[Manuel da Silva Ramos, "O Sol da Meia Noite"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa/ Tejo)


domingo, 31 de janeiro de 2021

O que o Tejo nos Dá...


É normal que em tempos como os que estamos a viver, se procurem mais as margens do Tejo.

As suas águas dão-nos a sensação de liberdade, de paz, que precisamos, nestes tempos de "guerra", cheio de "prisões" voluntárias e involuntárias...

Felizmente na minha margem (Sul), mais cinzenta, fechada e húmida, é possível caminhar, ainda que quase clandestinamente, ao lado do Tejo (também colocaram fitas a fechar alguns caminhos, mas muitas foram cortadas, em nome da "liberdade anarca"...), sem nos cruzarmos com muita gente.

(Fotografia de Luís Eme - Boca do Vento)


segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Lisboa, Tejo e Carlos do Carmo


Carlos do Carmo que nos deixou no dia primeiro deste ano de dois mil e vinte e um, cantou Lisboa e o Tejo como muito poucos, porque sempre foi um apaixonado e um protector da sua (e nossa) Cidade. 

O facto de ter nascido e crescido na Bica, quase com o Tejo no final da rua, fez com que se deliciasse desde muito cedo com as mil e uma tonalidades que o Rio lhe oferecia, espelhando um céu, quase sempre azul...

Depois do casamento foi viver para as Avenidas Novas mas nunca deixou a Velha Lisboa, que amou e cantou com a cumplicidade dos nossos melhores poetas.

Deixamos aqui três testemunhos do seu amor pela Cidade e pelo Rio: 

«Eu tenho um olhar muito romântico sobre a cidade, e os olhares românticos são incuráveis, completamente incurável. E as mazelas e os seus defeitos, não é que os esconda, não lhes dou importância que provoquem infelicidade, sabe? Lisboa tem coisas tão boas, que eu deixo que no campeonato ela fique esses pontos todos à frente das coisas que estão mal feitas.»                              

«Lisboa é uma cidade sui generis. Há que ter apreço pelo trabalho de quem foi pondo a população virada para o rio, porque vivemos anos nesta coisa sombria, de costas para o Tejo. Isto deu luz à cidade. E o português é acolhedor, sem ser servil. Deixe-me circunscrever à minha cidade, sendo eu bairrista. Mas Lisboa tem uma luz imbatível. As pessoas ficam desvairadas. Os miradouros, os bairros antigos que são o pulsar de uma história de quase 900 anos. E tem uma autenticidade…» 

 «Durante muitos anos o Tejo foi-nos vedado. Hoje há casais a passear com as crianças à beira-rio. De cada vez que vou a uma esplanada junto ao Tejo penso que sou um privilegiado por viver numa cidade com este rio e com esta luz.» 

Nota: Frases retiradas de entrevistas publicadas do Diário de Notícias de 9 de Setembro de 2016  Notícias Magazine” de 23 de Julho de 2014 e “Tabú (Sol)” de 4 de Outubro de 2008.


(Fotografia de Luís Eme - Tejo e Lisboa)


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

As "Lavadeiras" do professor Américo e do Tejo...


Parece quase ficção, o que acontecia na primeira metade do século vinte (e em tempos mais antigos claro...), na "Praia das Lavadeiras", hoje conhecida internacionalmente pelos muitos turistas que vêm propositadamente ao Ginjal, para almoçar, petiscar ou jantar à beira Tejo, nos dois restaurantes mais apetecíveis da margem sul do rio.

Provavelmente chamam-lhe a "praia dos restaurantes"... Mal eles sonham que bastava abrir uma pequena cova, na maré-baixa, para que daquela areia pouco límpida, brotasse água doce. Água que era aproveitada pelas mulheres de Almada e Cacilhas, para lavarem a sua roupa branca, que depois ficava ali a "corar", ao sol...

Atrás da história e da amizade, deixo-vos o poema, "Lavadeiras", de Américo Morgado, professor e amigo desta nossa margem, com saudades dos nossos cafés, sempre acompanhados por palavras simples e sábias...

 

Lavadeiras
 
Lavadeira de Cacilhas
trouxa branca, levais
ao rio Tejo azul correndo
vai pro mar manso demais
á espera dos teus olhos
cor de mel, a doçura
a loucura da tua roupa
invejada brancura.
As cantigas e as brigas
alegria, ciúme
é dança, gritos, queixume
da pobreza malvada.
 
Suave cotovelada.
 

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

"Olhar o Tejo a pensar num verso de Pessoa"...


A minha homenagem a Eduardo Lourenço, uma das grandes figuras da cultura portuguesa do nosso tempo. Talvez um dos melhores exemplos do que é um intelectual, essa figura em extinção na sociedade portuguesa.

Numa entrevista ele falou do Tejo, numa situação muito especial (pelo lugar e pelo tempo que se vivia...), que transcrevo com a devida vénia:


«A única vez em que estive na [Rua] António Maria Cardoso [sede da PIDE], no famoso terceiro andar, um andar de más recordações para muita gente, estava um dia maravilhoso. Eu olhava o Tejo e lembrava-me de um verso do Pessoa (já naquela altura). Vem um rapaz: “Ó Sr. Dr., está em França. Não me pode arranjar lá um emprego?”. Isto não se acredita. “Ó homem, você está aqui tão bem... Vão ao cinema e andam nos carros eléctricos de borla.” Um bocado cínico da minha parte... Mas aquilo não era uma brincadeira. Muita gente pagou caramente, eram militantes a sério.»


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

"Duas Sombras"


Pensava que este meu blogue, que flutua, nada e mergulha nas águas do Tejo, ia ser um sucesso. "Pensava" porque cometia um velho erro, esse mesmo, o de pensar que "o meu gosto é parecido com o gosto dos outros".

Parece que afinal não é.

Mudando de assunto, felizmente tenho alguns amigos que amam e escreveram sobre o Tejo, como é o caso do poeta Alberto Afonso, autor deste bonito poema:


Duas sombras
 
Duas sombras
Vogam em total liberdade,
Um imenso corpo
Feito de águas e de batalhas.
 
São duas aves brancas
Que anunciam o regresso
De uma breve viagem
No tempo e na vida.
 
Poisaram nas margens do Tejo
Como quem poisa num sonho
Perfumado por vozes e maresia.
 
São agora dois seres imensuráveis
Embriagados de um silêncio azul e voluptuoso
Tal como o rio, que os viu nascer há tanto.
 
Em fino areal humedecido
Homem e mulher, caminham harmoniosamente
Como se fossem dois dóceis animais
Que desvendam
Em cada concha sem vida
Tudo o que lhes resta
Do seu mundo de memórias por contar

(Foto de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, 17 de novembro de 2020

O Ginjal do Romeu (com o Rio)...


A minha homenagem a Romeu Correia, que faz hoje 103 anos. E que ainda continua a ser a grande figura da literatura almadense.

«Que sítio deslumbrante! Havia o lavadouro das mulheres, as escadinhas para o cais do Ginjal, e o rio e os barcos… O rio e os barcos sobretudo! E metia-lhe uma confusão de encantar aquela enorme massa de água assim toda junta – porque tão depressa aquilo parecia estar no seu devido lugar, como ser um comprido pano azul ligado ao próprio céu.»

[Romeu Correia, in "Os Tanoeiros"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 25 de outubro de 2020

O Primeiro Olhar...


A primeira vez que olhei o Tejo, era tão pequeno que tenho a sensação que nem sequer conhecia o medo. Foi tudo quase natural, rente ao Cais das Colunas.

Foi também a primeira vez que atravessei o rio para a Outra Banda (para visitarmos o Cristo-Rei...). Tenho uma ligeira lembrança das janelas e dos bancos de madeira, envernizados,  e também da "estrada" que a proa do cacilheiro deixava no Rio.

Atravessar o rio ao colo do meu pai, com os olhos presos à janela, deve ter ajudado a sentir-me seguro. Não me lembro, mas devo ter-me cruzado com uma ou outra fragata, com as velas ao vento, mais para o meio do rio, como era normal nesses já longínquos anos sessenta...

[Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

"Perdida entre o Porto Brandão e a Trafaria"


Apanho o barco em Belém.

Não tenho destino. Tanto posso ficar no Porto Brandão como na Trafaria.

No meio do rio olho ambas as margens, com entusiasmo. À medida que vou chegando ao Porto Brandão, vou descobrindo alguns encantos e também algumas indústrias com torres fumarentas.

À última hora, desisto de desembarcar. Prefiro passar ao largo da "Torre Velha" e do "Asilo", que vão ser hotel de cinco estrelas. Ainda continuam deslumbrantes, lá no alto.

E sim, prefiro que sejam um hotel com estrelas, que ruínas, cada vez mais decadentes e perigosas. 

Continuará a ser um lugar vistoso, que quase abraça o Tejo, lá do cimo da quase montanha...

[Ester Núncio]


(Fotografia Luís Eme - Porto Brandão)


quinta-feira, 24 de setembro de 2020

"Sem Muros"



A vista é maravilhosa. Sempre foi. 

Mesmo quando existiam "muros invisíveis", até mesmo junto ao Cais de Sodré...

Talvez existissem demasiadas pessoas distraídas, noutros tempos. Graças aos muitos políticos que lhe viravam costas, sempre que podiam, ou "construíam "mostrengos" rente às suas margens.

Gosto que o Tejo esteja "mais" em todo o lado, que além de Lisboa e de Almada, ele continue belo no Barreiro, no Seixal, em Alcochete ou em Vila Franca de Xira...

Gosto de olhar o rio na tua casa, mas também na da avó ou da do tio Quim.

E nenhum deles mora, felizmente, no bairro do "Picapau Amarelo", que uma política pequenina, inveja, ao ponto de querer ir para lá morar "ontem"...

[Ester Núncio]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


domingo, 16 de agosto de 2020

O Regresso das "Corridas" no Tejo...


«O Tejo está a voltar a ter algum movimento.

Já se vêem alguns veleiros cheios de turistas, que passeiam entre o estuário e a foz.

Sei que ainda faltam os "gigantes dos mares", a quem também chamam "cidades marinhas", mas não vejo ninguém a "chorar" de saudades, o que até é bom sinal... Se são verdadeiros os números sobre a poluição que deixam atrás de si, o "Melhor Rio do Mundo"  agradece a ausência.»

[Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 1 de agosto de 2020

"A Marca"...


O livro de contos "Nasci com Passaporte de Turista", de Alves Redol, como não podia deixar de ser, visita o Tejo, mais escondido e amargo, que ele conheceu tão bem, rente à sua Vila Franca de Xira e a outras terras próximas. 

Do conto "A Marca" retirámos estas palavras:

[...] «O outro ficou deitado, bagas de suor frio a perlá-lo, crispações de dor a percorrê-lo. E as mulheres voltaram a atirar-lhe lama, ferindo-lhe a camisa de pontos negros que alastravam.
O Ti Rendeiro tremente de ira, como sacudido por um frio de sezões, estava entre  os dois guardas que o agarravam, cabeça erguida, olhar parado no Tejo, fixando-lhe o ondular manso.
Nascera a ouvir-lhe o canto brando nos cascos frágeis das bateiras e nos arcaboiços rijos das fragatas. Crescera a namorar-lhe a safira do dorso e a mirar as velas que o percorriam de lés a lés, num vaivém constante.
Brincara junto dele, conhecera-lhe a voz - aprendera-lhe os segredos. Em noites de luar vinha estender-se-lhe nas margens, sentindo-o tocar-lhe os pés numa carícia de noiva rendida pelos desejos.» [...]


(Fotografia de Luís Eme - Trafaria)