terça-feira, 17 de março de 2020

O Tejo, entre as Ausências e o Encanto...


O Tejo entre as Ausências e o Encanto...

Enquanto percorres as ruas
pensas nos teus amigos, ausentes,
que as deixaram quase nuas
e tornaram estes dias tão diferentes.

O vento forte faz-te companhia
e força as árvores a uma dança
insinuante e povoada de energia
que te dão tudo menos esperança.

Tens algum receio de chegar ao cais
que só pode estar uma tristeza
sem os teus companheiros habituais
povoados de histórias sem subtileza

Ainda não chegaste ao fim da rua
e já vês o Tejo, a querer espreitar.

Mesmo sem qualquer barca ou falua
ele é um encanto para qualquer olhar.

[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 7 de março de 2020

O Tejo ao Fim da Tarde...


A tarde fugia e um Cacilheiro navegava no Tejo, com o olhar preso ao cais de Cacilhas.

Lembrei-me dos tempos em que ficava à tua espera, sem ter a certeza, se era aquele o cacilheiro, que te trazia de volta a casa...

Entretanto passaram mais de duas décadas e o mundo é ligeiramente diferente.

Ainda não havia telemóveis, nem dava muito jeito, fazer "sinais de fumo", de uma margem para a outra...

O comboio da ponte, o teu transporte de hoje, ainda era só um projecto...


(texto meu, de memória...)

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O teu Olhar Brilha quando Olhas o Tejo...


«O teu olhar brilha e ganha vida quando olhas o Tejo.

Sentes-te feliz por sentires que ele vive uma "segunda vida", que já passou o tempo em que quase se limitava a ver passar os cacilheiros. Agora está sempre cheio de barcas, de múltiplos tamanhos e modelos, que levam os turistas até à foz... e depois voltam.

Até o Mar da Palha está diferente (o teu avô contou-te a história do seu nome, que ele começou a ser chamado desta forma pelos pescadores que chocavam com paus, palhas e juncos, por ali ficavam a flutuar, arrancados pelas correntes e pelas marés vivas, das margens das lezírias). Está mais vivo, mais azul...»


(texto meu, com a tentação de ser a legenda da fotografia...)

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O "Fado Maluda"...


Hoje recordo o "Fado Maluda", escrito pela poetisa, Rosa Lobato Faria, cantado por Carlos Zel, com Lisboa e o Tejo...

Fado Maluda

Nasceu guardiã dos sonhos
tem a magia nos olhos
traz os segredos na mão.
Torna Lisboa mais bela.
Quando pinta uma janela
Logo se abre o coração.

São quiosques, são telhados
e há pardais alucinados
embriagados de Tejo
e uma cegonha perdida
confusa, pediu guarida
numa tela de além-Tejo.

Tonalidades secretas
azuis da Prússia, violetas
ardências de chão queimado
e onde a noite principia
p'ra não morrer a magia
poisa os pincéis, canta o fado.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A Impressão de se Morar num Romance...


António Lobo Antunes na sua estreia literária, com a "Memória do Elefante", foca Lisboa e o Tejo de uma forma peculiar:

«[...] Na noite de Lisboa tem-se a impressão de se morar num romance de Eugene Sue com página para o Tejo, em que a rua Barão de Sabrosa é a fitinha desbotada de marcar o lugar de leitura, apesar de os telhados onde florescem plantações de antenas de televisão idênticas a arbustos de Miró. [...]»


(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)

domingo, 19 de janeiro de 2020

"E todos os azuis me lembram as águas de um rio..."


«[...] E todos os azuis me lembram as águas de um rio que, em Lisboa, nem chega a ser rio porque, como dizia a minha querida Amália; "dali a bocadinho já é mar".
De tantos rios onde o meu olhar navegou, nenhum tem esta coisa de ser quase mar, e não é pela proximidade da foz ou pela sua imensa largura, é que ele tem mesmo uma atitude de mar. Por isso o Fado se apropriou tantas vezes da sua personalidade marinha para falar dos naufrágios mais violentos que um coração pode suportar. [...]»


Pequeno excerto da crónica "Manhãs de Insónia" (com o título "Por tua Causa") de Tiago Torres da Silva, publicada no "Jornal de Letras" a 20 de Dezembro de 2006.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

"Amo-te Lisboa Virada ao Tejo"


Amores de e por Lisboa... de Rogério Martins Simões:


Amo-te Lisboa Virada ao Tejo

  
Dizem que um dia alguém cantou…
Que por amores Lisboa se perdeu!
Por amores se perde quem lá voltou.
De amores se perde quem lá nasceu.

Dizem que um dia alguém contou.
Que uma moira cativa no Tejo desceu.
Por amores, Lisboa, a moura libertou,
De amores, por Lisboa, a moira morreu.

Juntaram-se os telhados enfeitiçados,
Apertadinhos os dois e entrelaçados,
Num fado castiço, numa rua de Alfama.

E o Tejo, que é velho, beija a Cidade:
Morre-se de amor em qualquer idade,
Perde-se por Lisboa, quem muito ama!



(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

"Tejo-Mar"


Um soneto "fresquinho", que nasceu hoje, à beira-Tejo...


Tejo-Mar

Passeio ao lado do Tejo-Mar
sem qualquer barca-coragem.
Talvez lhes falte jeito para dançar
com qualquer musa selvagem.

(um minuto depois...)

Fico feliz ao ver um cacilheiro
que acabou de deixar o cais.
Como se o seu "coração-marinheiro"
não se assustasse com temporais...

(dois minutos depois)

E depois descubro um veleiro
também sem medo da maresia
e deste tempo quase traiçoeiro

Fura as ondas com subtileza
com um toque de aventura e magia
oferecendo imagens de rara beleza.


[Luís Alves Milheiro]



(Fotografia Luís Eme - Tejo)

domingo, 8 de dezembro de 2019

As "Canoas do Tejo"...


As "Canoas do Tejo", é um excelente poema, escrito para fado por Frederico de Brito e popularizado pela excelente voz de Carlos do Carmo...


Canoas do Tejo
  

Canoa de vela erguida,
Que vens do Cais da Ribeira,
Gaivota, que anda perdida,
Sem encontrar companheira

O vento sopra nas fragas,
O Sol parece um morango,
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango

Canoa,
Conheces bem
Quando há norte pela proa,
Quantas docas tem Lisboa,
E as muralhas que ela tem


Canoa,
Por onde vais?
Se algum barco te abalroa,
Nunca mais voltas ao cais,
Nunca, nunca, nunca mais

Canoa de vela panda,
Que vens da boca da barra,
E trazes na aragem branda
Gemidos de uma guitarra

Teu arrais prendeu a vela,
E se adormeceu, deixá-lo
Agora muita cautela,
Não vá o mar acordá-lo

(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 30 de novembro de 2019

"Outra Vez o Tejo"


O poeta Eugénio de Andrade também se encantou com o Tejo...

Outra Vez o Tejo
  
Um barco atravessa o Tejo.
Vem da infância, não sei para onde vai.
É branco, dessa brancura só dada
às aves. O rio,
que não via há tanto tempo,
entra agora pelas ruas de Lisboa
ao encontro da tão amada
luz dos jacarandás.
Volto a ter oito anos neste jardim,
vou perder-me nestas ruas,
nestas calçadas, onde o grito
das gaivotas sobe a prumo,
vou correr com o vento de esquina
em esquina, subir
com as árvores, ser
com elas poeira fina.

[Eugénio de Andrade]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

terça-feira, 26 de novembro de 2019

“Isto é Constantinopla. Não há nada mais parecido”


Tenho deixado um pouco ao abandono este "Olha o Tejo". Mas hoje, durante o meu trabalho de pesquisa, "tropecei" numa frase que diz muito de Lisboa, de José Sarmento de Matos, historiador de Arte (entrevista à revista "E", de 6 de Maio de 2017).

«O ar, a cor, a luz... A maneira como a cidade se foi adaptando à orografia, tornando-se barroca no sentido das perspetivas inesperadas. Vai-se na Rua da Escola Politécnica, olha-se para a esquerda e tem-se o Tejo lá em baixo. É também barroca no sentido da surpresa, é feita de pequenos recantos onde tudo se encaixa. Isto é das coisas que mais me encanta. E a luz, claro, que tem a ver com a sorte de apanhar o vento norte que limpa tudo e fica só a reflexão da bacia do mar da Palha. Neste aspecto, Lisboa tem uma condição única. Tem o mar à frente. Só é comparável a Istambul. O Calouste Gulbenkian saía do Hotel Avis, ia para o alto de Monsanto, sentava-se numa cadeirinha, ficava ali a olhar para o Tejo e dizia: “Isto é Constantinopla. Não há nada mais parecido”.»
                                              
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

A Sophia e o "Nocturno da Graça"...


Hoje é dia da Sophia e por isso deixo aqui partes do seu poema "Nocturno da Graça"...

Há um rumor de bosque no pequeno jardim
Um rumor de bosque no canto dos cedros
Sob o íman azul da lua cheia
O rio cheio de escamas brilhas.
Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.
[...]

Com os seus bairros de becos e de escadas
De candeeiros tristes e nostálgicas
Mulheres lavando a loiça em frente das janelas
Ruas densas de gritos abafados
Castanholas de passos pelas esquinas
Viragens chiadas dos carros
Vultos atrás das cortinas
Cíclopes alucinados.
[...]

Sozinha estou contra a cidade alheia
Comigo
Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua
Límpido e aceso
O silêncio dos astros continua.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)