quarta-feira, 30 de junho de 2021

Romeu e as suas Memórias do Cais do Ginjal


«Passei os primeiros vinte anos da minha vida no Cais do Ginjal, aprendi desde muito cedo a nadar no Tejo, que ainda estava habitado por muitos peixes... e havia o folclore único dos golfinhos. Estou a falar de uma época em que tanto no cais como no rio havia muita vida, uma vez que o Ginjal estava cheio de fábricas e armazéns, donde se destacavam as tanoarias e as fábricas de conserva de peixe.»

[In "Gente D'Almada", Romeu Correia o Escritor e o Desportista", entrevista de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 20 de junho de 2021

"Ó Minha Cidade Bela"


Porque hoje se comemora o centenário no nascimento da escritora, Matilde Rosa Araújo, publico aqui com a devida vénia, o seu bonito poema, "Ó Minha Cidade Bela", do seu livro, "O Cantar de Tila":


Ó minha cidade bela

 Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
Meu coração é um navio,
P'las ruas a navegar.

Ó minha cidade bela,
Feita de mar e de rio:
Teus passeios são as ondas
Eu lá vou com meu navio!

Já sou uma senhorinha
Tenho sapatos de salto:
Ó minha cidade bela,
Já navego no mar alto!

Já navego no mar alto!
Sem ninguém à minha beira:
As cores do meu navio
São flores de laranjeira!

Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
É tão branco o meu navio
Não o deixes naufragar!


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 26 de maio de 2021

"Sonhos Cor de Água"


Ainda com o Tejo, com o "Casario" e com as minhas palavras...

«[...] Enquanto esperava, calmamente, pelo cacilheiro, ficou com a sensação que aquele largo que, fora nos anos oitenta o maior centro de circulação de pessoas e transportes da Europa, estava cada vez mais calmo. Tudo graças ao comboio da ponte...
Uns metros mais à frente descobriu uma cara conhecida, Pedro Sempre, outro herói das suas crónicas mundanas.
Pedro era um velho contador de histórias que passava parte dos seus dias fundeado num banco de madeira, assistindo ao cair da tarde rente ao seu Tejo.
Quem quisesse ouvir qualquer aventura do mundo só precisava de se sentar e escutar com atenção, a sua voz pausada, o melhor bilhete para uma mão cheia de viagens, extraordinárias, pelo Ocidente e Oriente, que se tentavam aproximar das de Fernão Mendes Pinto.
À medida que falava, o velho fazia festas ao Banzé, o seu companheiro de sempre, um cão escanzelado que lhe aquecia os pés e a alma, escondendo com o seu pelo deslavado, os buracos dos sapatos gastos, com ar de quem já dera mais que uma volta ao mundo [...]»

[Parte do conto "Sonhos Cor de Água", in "Um Café com Sabor Diferente", de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, 22 de maio de 2021

"Desta Janela"


Ainda com o Tejo dentro do "Casario do Ginjal", mais uma espécie de poema:


Desta Janela
 
Desta Janela
Com Vista Para o Ginjal
Posso ver
a beleza do Tejo
o verde das encostas
e claro
o Casario do Ginjal...
 
Luís (Alves) Milheiro


Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, 13 de maio de 2021

"Dava Grandes Passeios com o Avô..."


Continuando com as primeiras publicações no "Casario do Ginjal", uma transcrição do meu primeiro e único romance, publicado em 1995, com o Tejo e o Ginjal:

« [...] Quis recordar-se da sua primeira visita ao Oceano Atlântico, não conseguiu qualquer imagem. Devia ser demasiado pequeno. Ter vivido sempre paredes-meias com o Tejo não ajudou muito, o rio foi o seu primeiro mar. Dava grandes passeios com o avô pela estrada marginal do Ginjal. O velho Vasco Gama falava-lhe do tempo dos golfinhos e dos homens que nadavam até Lisboa. Os seus olhos brilhavam quase encantados, seguindo o voo das gaivotas e escutando aquelas palavras mágicas, acompanhadas pelo marulho leve das águas que lavavam as paredes da pedra do cais e eram mais que música de fundo [...].»

[In "Bilhete para a Violência", de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 9 de maio de 2021

"Além das Pedras, Temos o Rio" (um começo...)


No final de Maio de 2006 criei o meu primeiro blogue, que ainda continua a resistir ao tempo - o "Casario do Ginjal".

Como escrevi no seu subtítulo: "nasceu como um espaço de opinião, informação e divulgação de tudo aquilo que vivia ou sobrevivia nas proximidades do Ginjal e do Tejo, mas foi alargando os horizontes...

O mais curioso foi eu perceber que ele estava mesmo "cheio de Tejo", nos primeiros textos que publiquei (fui ler e gostei...). É por isso que durante este Maio de 2021, quinze anos depois deste começo, vou republicar essas prosas poéticas e poesias prosaicas. 

Começo com as primeiras palavras:


Além das Pedras, Temos o Rio…
 
 
Além das pedras e do entulho amontuado,
(nesta margem esquerda)
sinais vulgares de abandono,
temos o Rio,
esse mesmo, (único)
o Tejo...
 
é ele que dá vida a este meu casario,
do Ginjal...
 
[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal-Tejo)


sexta-feira, 30 de abril de 2021

"Cravos Caídos"


Cravos Caídos
 
CRAVOS CAÍDOS
na praia que foi de pobres e vagabundos
quase sempre abandonados e esquecidos
em todas as “guerras dos mundos”…
 
CRAVOS CAÍDOS
na praia que foi das lavadeiras
que presas os seus trabalhos doridos
passaram por ali as vidas inteiras.

[Luís (Alves) Milheiro]
 
Este poema e esta fotografia fizeram parte da exposição, "Cravos de Abril, fotografias com palavras", de Abril de 2014, na comemoração dos 40 anos da Revolução de Abril.

(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)
 
 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

O Tejo com Livros


Se há um lugar que nos ajuda a entrar dentro dos livros, é à beira do Tejo, o rio que é da "minha aldeia", e que por isto e por aquilo, "é o melhor rio do mundo"...

Foi o que pensou a "Musa", que entrou dentro da minha fotografia, sem dar por isso. 

O livro e o Tejo eram as coisas "mais importantes do mundo"...


(Fotografia de Luís Eme - Fonte da Pipa)


sábado, 27 de março de 2021

Olá Teatro!

 

Olá Teatro!
Teatro das ruas, das gentes,
dos carros, das bicicletas,
dos espantos, das palavras, 
das buzinas, dos gritos,
dos pombos, das gaivotas...

Olá Teatro!
Teatro do Tejo azul,
das barcas laranjas, dos veleiros,
dos pescadores de maré baixa,
dos sonhadores que mesmo quase perdidos
não abrem mão do silêncio...


[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, 16 de março de 2021

O Cais é um navio comprido



O cais é um navio comprido
sem motores e sem hélices
construído apenas para ficar
e ser, um caminho aberto
para sonhar viagens...

O cais é um navio comprido
com meia-dúzia de bancos de cimento 
espalhados à beira Tejo
que são um convite
para os velhos e novos do restelo...


[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Teu Nome é "Desconhecida"...


Teu nome é "Desconhecida",
o nome que mais existe pelas ruas 
por onde vagueamos...


Estás de costas para o Tejo
e eu roubo-te uma fotografia.
Mas olhaste para mim,
com um sorriso a dizer-me
"estou aqui"!
E sim, sou a tua "Desconhecida".


[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Boca do Vento)


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

"A presença liquida do Tejo faz parte da minha vida"


«Abro a janela do meu minúsculo apartamento na Graça, mais ninho de águia ou caixa de fósforos que outra coisa...

A presença liquida do Tejo faz parte da minha vida. É a minha auréola de graça desde a Ponte Vasco da Gama até ao Cristo-Rei que vejo ao lado duma ameia do Castelo de São Jorge...

O Tejo é agora um grande rio caudaloso de vinho que me atormenta...

Então à noite, oiço-o chamar-me...

É uivo de cacilheiro... Mugido de rebocador... Vozeirão de paquete...»


[Manuel da Silva Ramos, "O Sol da Meia Noite"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa/ Tejo)