[Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"]
(Fotografia de Luís Eme - Almada)
(palavras e imagens do rio da minha aldeia, que por um mero acaso, também é o melhor rio do mundo...)
[Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"]
(Fotografia de Luís Eme - Almada)
Poema da Memória
Havia no meu tempo
um rio chamado Tejo
que se estendia ao
Sol na linha do horizonte.
Ia de ponta a
ponta, e aos seus olhos parecia
exactamente um
espelho
porque, do que
sabia,
só um espelho com isso
se parecia.
De joelhos no
banco, o busto inteiriçado,
só tinha olhos
para o rio distante,
os olhos do animal
embalsamado
mas vivo
na vítrea fixidez
dos olhos penetrantes.
Diria o rio que
havia no seu tempo
um recorte
quadrado, ao longe, na linha do horizonte,
onde dois grandes
olhos,
grandes e ávidos,
fixos e pasmados,
o fitavam sem
tréguas nem cansaço.
Eram dois olhos
grandes,
olhos de bicho
atento
que espera apenas
por amor de esperar.
E por que não
galgar sobre os telhados,
os telhados vermelhos
das casas baixas
com varandas verdes
e nas varandas
verdes, sardinheiras?
Ai se fosse o da
história que voava
com asas grandes,
grandes, flutuantes,
e poisava onde bem
lhe apetecia,
e espreitava pelos
vidros das janelas
das casas baixas
com varandas verdes!
Ai que bom seria!
Espreitar não, que
é feio,
mas ir até ao
longe e tocar nele,
e nele ver os seus
olhos repetidos,
grandes e húmidos,
vorazes e inocentes.
Como seria bom!
Descaem-se-me as
pálpebras e, com isso,
(tão simples isso)
não há olhos, nem
rio, nem varandas, nem nada.
[António Gedeão in Poemas
Póstumos]
(Fotografia de Luís Eme - Tejo)
Menina, em teu peito sinto o Tejo
e vontades marinheiras de aproar.
Menina, em teus lábios sinto fontes
de água doce que corre sem parar.
Conversa Com
Fernando Pessoa no Martinho
A casa continua
como quando aqui paravas.
Talvez sejam os
mesmos que agora a povoam
destas conversas
sonolentas e cruzadas.
Ali ao longe o rio
persiste em navegar
e só as águas
envelheceram. O resto é
a cidade quer
dizer o nevoeiro
que quando
desembarcaste. Fala-se na esperança
e acredita-se no
medo. O resto é a cidade
que cantaste e te
desconheceu
e ainda desconhece
os que procuram
o violino de
palavras que criaste.
Manuel Alberto
Valente
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)
[Maria Judite de Carvalho, in "tanta gente Mariana..."]
(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)