sexta-feira, 10 de setembro de 2021

"Miradouro"

 


Miradouro

Frágeis, acenam alvos lenços d'asas
as gaivotas que a brisa mansa, embala.
O rio azula, emoldurado em casas.
- Que lindo quadro para pôr na sala!

No lírico perfil fogem veleiros,
onde embarquei uns restos de ansiedade;
e no cais, os guindastes e os cargueiros
são prática e viril realidade.

É mentira, talvez,
assinar com o meu nome esta poesia; 
o Tejo foi quem na fez...
Cheira a limos, a sal, a maresia.

António Manuel Couto Viana

["Lisboa com os seus Poetas - Colectânea de Poesia sobre Lisboa"]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


terça-feira, 7 de setembro de 2021

"Lisboa"...


Lisboa

Esta névoa sobre a cidade, o rio,
as gaivotas doutros dias, barcos, gente
apressada ou com o tempo todo para perder,
esta névoa onde começa a luz de Lisboa, 
rosa e limão sobre o Tejo, esta luz de água, 
nada mais quero de degrau em degrau.

Eugénio de Andrade

["Lisboa com os seus Poetas - Colectânea de Poesia sobre Lisboa"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 25 de agosto de 2021

"Anos Quarenta, os Meus"


Anos Quarenta, os Meus

De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavão alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma

alma e ar reféns dentro do pulmão
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mão ).
Salazar três vezes, no eco da aula.

As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra Cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.

  

[Luiza Neto Jorge, in Revista Colóquio/Letras, n.º 97, Maio 1987]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)



quarta-feira, 21 de julho de 2021

"Quintal do Meu Olhar"

 


Quintal do Meu Olhar

Meu humilde rio, meu companheiro, quantas vezes te tenho
sido ingrata
                 e pensado; que pena não seres o mar
o alto mar selvagem!
                Confesso que lhe apeteço
o sem limite
                sem casas sem casos sem coisas
sem nada
                Mas tu és o amplo quintal do meu olhar
quotidiano
                onde crio minhas soltas gaivotas com o milho
dos meus versos
                A líquida selva do mar não consente 
as diárias labutas os pequenos júbilos do pobre bicho
que somos
            Desculpa a ingratidão de às vezes te desejar maior 
mais possante mais sozinho
            És tão meu amigo!
            No ir e vir dos pequenos barcos afadigados
me dás constantemente de vaia
            e ofereces-me as brancas 
flores de espuma em que te desentranhas enquanto
te vão sulcando
            As tuas gruas e os teus guindastes sempre em sereno
movimento dão-me exemplos de apego 
à vida
            Anima-te!
            Gritas à minha tristeza
sem interromper a tua lida
            de fato de ganga e flor na orelha 
sempre jovem
            Não mudaste desde que te conheço
Que fazes para não envelhecer?
            Talvez um dia destes quando a Lisnave
desaparecer
            e desaparecerem os barcos as gruas os guindastes
eu perceba com o coração desfeito, que és mortal

[Teresa Rita Lopes, in "Afectos"]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

quinta-feira, 15 de julho de 2021

"Espreitar o Rio das Colinas"


 

Espreitar o Rio das Colinas
 
Lisboa é um encanto.
Quem disser o contrário é mentiroso.
Há algo mais bonito que o Tejo
e os seus bairros erguidos
 nas colinas da cidade?
 
Adoro espreitar o rio,
de qualquer uma das suas colinas,
de qualquer um dos seus miradouros.
Amo Lisboa!
 
Zé Gê Éfe

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


segunda-feira, 5 de julho de 2021

"Do Alto da Memória"



 Era Velhinha

Conheci Almada velhinha
Bem na minha mocidade
Quando se moia farinha
Na Cova da Piedade

Almada e as suas gentes
Todos tinham um desejo
Formarem fortes correntes
Bem amarradas ao Tejo

Lamento ter desaparecido
Uma das suas maravilhas
Mas já foi devolvido
O grande Farol de Cacilhas

Naqueles dias sem Sol
Com intenso nevoeiro
Era o sinal do Farol
que atracava o cacilheiro.

Manuel dos Anjos Delgado


Homenagem a um amigo que nos deixou ontem e gostava muito de escrever poesia. Este poema faz parte do seu terceiro livro, "Do Alto da Memória".


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


quarta-feira, 30 de junho de 2021

Romeu e as suas Memórias do Cais do Ginjal


«Passei os primeiros vinte anos da minha vida no Cais do Ginjal, aprendi desde muito cedo a nadar no Tejo, que ainda estava habitado por muitos peixes... e havia o folclore único dos golfinhos. Estou a falar de uma época em que tanto no cais como no rio havia muita vida, uma vez que o Ginjal estava cheio de fábricas e armazéns, donde se destacavam as tanoarias e as fábricas de conserva de peixe.»

[In "Gente D'Almada", Romeu Correia o Escritor e o Desportista", entrevista de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 20 de junho de 2021

"Ó Minha Cidade Bela"


Porque hoje se comemora o centenário no nascimento da escritora, Matilde Rosa Araújo, publico aqui com a devida vénia, o seu bonito poema, "Ó Minha Cidade Bela", do seu livro, "O Cantar de Tila":


Ó minha cidade bela

 Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
Meu coração é um navio,
P'las ruas a navegar.

Ó minha cidade bela,
Feita de mar e de rio:
Teus passeios são as ondas
Eu lá vou com meu navio!

Já sou uma senhorinha
Tenho sapatos de salto:
Ó minha cidade bela,
Já navego no mar alto!

Já navego no mar alto!
Sem ninguém à minha beira:
As cores do meu navio
São flores de laranjeira!

Ó minha cidade bela,
Feita de rio e de mar:
É tão branco o meu navio
Não o deixes naufragar!


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


quarta-feira, 26 de maio de 2021

"Sonhos Cor de Água"


Ainda com o Tejo, com o "Casario" e com as minhas palavras...

«[...] Enquanto esperava, calmamente, pelo cacilheiro, ficou com a sensação que aquele largo que, fora nos anos oitenta o maior centro de circulação de pessoas e transportes da Europa, estava cada vez mais calmo. Tudo graças ao comboio da ponte...
Uns metros mais à frente descobriu uma cara conhecida, Pedro Sempre, outro herói das suas crónicas mundanas.
Pedro era um velho contador de histórias que passava parte dos seus dias fundeado num banco de madeira, assistindo ao cair da tarde rente ao seu Tejo.
Quem quisesse ouvir qualquer aventura do mundo só precisava de se sentar e escutar com atenção, a sua voz pausada, o melhor bilhete para uma mão cheia de viagens, extraordinárias, pelo Ocidente e Oriente, que se tentavam aproximar das de Fernão Mendes Pinto.
À medida que falava, o velho fazia festas ao Banzé, o seu companheiro de sempre, um cão escanzelado que lhe aquecia os pés e a alma, escondendo com o seu pelo deslavado, os buracos dos sapatos gastos, com ar de quem já dera mais que uma volta ao mundo [...]»

[Parte do conto "Sonhos Cor de Água", in "Um Café com Sabor Diferente", de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)


sábado, 22 de maio de 2021

"Desta Janela"


Ainda com o Tejo dentro do "Casario do Ginjal", mais uma espécie de poema:


Desta Janela
 
Desta Janela
Com Vista Para o Ginjal
Posso ver
a beleza do Tejo
o verde das encostas
e claro
o Casario do Ginjal...
 
Luís (Alves) Milheiro


Fotografia de Luís Eme - Almada)


quinta-feira, 13 de maio de 2021

"Dava Grandes Passeios com o Avô..."


Continuando com as primeiras publicações no "Casario do Ginjal", uma transcrição do meu primeiro e único romance, publicado em 1995, com o Tejo e o Ginjal:

« [...] Quis recordar-se da sua primeira visita ao Oceano Atlântico, não conseguiu qualquer imagem. Devia ser demasiado pequeno. Ter vivido sempre paredes-meias com o Tejo não ajudou muito, o rio foi o seu primeiro mar. Dava grandes passeios com o avô pela estrada marginal do Ginjal. O velho Vasco Gama falava-lhe do tempo dos golfinhos e dos homens que nadavam até Lisboa. Os seus olhos brilhavam quase encantados, seguindo o voo das gaivotas e escutando aquelas palavras mágicas, acompanhadas pelo marulho leve das águas que lavavam as paredes da pedra do cais e eram mais que música de fundo [...].»

[In "Bilhete para a Violência", de Luís Alves Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 9 de maio de 2021

"Além das Pedras, Temos o Rio" (um começo...)


No final de Maio de 2006 criei o meu primeiro blogue, que ainda continua a resistir ao tempo - o "Casario do Ginjal".

Como escrevi no seu subtítulo: "nasceu como um espaço de opinião, informação e divulgação de tudo aquilo que vivia ou sobrevivia nas proximidades do Ginjal e do Tejo, mas foi alargando os horizontes...

O mais curioso foi eu perceber que ele estava mesmo "cheio de Tejo", nos primeiros textos que publiquei (fui ler e gostei...). É por isso que durante este Maio de 2021, quinze anos depois deste começo, vou republicar essas prosas poéticas e poesias prosaicas. 

Começo com as primeiras palavras:


Além das Pedras, Temos o Rio…
 
 
Além das pedras e do entulho amontuado,
(nesta margem esquerda)
sinais vulgares de abandono,
temos o Rio,
esse mesmo, (único)
o Tejo...
 
é ele que dá vida a este meu casario,
do Ginjal...
 
[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal-Tejo)