terça-feira, 14 de abril de 2020

Olhar Solitário



Olhar Solitário

Nestes tempos malucos
não posso ir a muitos lugares.
Quase ninguém pode...

Mas há alguns dias,
que quase que fujo.
(sem ninguém ver)
e subo até ao Jardim do Castelo.

Gosto de olhar o Tejo 
e as outras coisas, cá de cima.
Vou com o olhar 
até ao Terreiro do Paço, 
depois passo por Alcântara, 
Belém e Trafaria.

Quando regresso
fico-me pelo Ginjal.

E foi ao olhar o cais
que te descobri
e quase "inventei"a  tua história.
Sim, lias poesia e fazias um filme,
para depois enviares, 
para longe e para perto,
com o cheiro do Tejo...

Luís (Alves) Milheiro

(legenda poética de uma fotografia que tirei no sábado)


(Fotografia de Luís Eme - Ginjal)


domingo, 5 de abril de 2020

"Habituei-me a ver o Tejo, ao fim da tarde..."


O Tejo não inspira apenas poemas, há também quem o misture dentro das suas crónicas, como aconteceu com Maria Filomena Mónica, no "Expresso" (Agosto de 2013)


«[...] Gosto do rio que corre na minha cidade, porque através dele se chega ao mundo. Durante cinco infelizes anos trabalhei num gabinete no Terreiro do Paço, no edifício que faz esquina com a Rua do Ouro. Habituei-me a ver o Tejo, ao fim da tarde, atravessado por cacilheiros que partiam para a outra banda. Ainda hoje, sempre que desço à zona ribeirinha, sinto a melancolia que, aos 21 anos, me enchia a alma. [...]»

                      
(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

terça-feira, 31 de março de 2020

"Vai ao Encontro do Rio"


Aceitei o "desafio" da Maria Rosário Pedreira, das "Horas Extraordinárias" e fiz quase um fado, na tentativa de ilustrar estes dias, ao mesmo tempo que procuro homenagear todos os funcionários de hospitais e centros de saúde (especialmente médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem)...


Vai ao Encontro do Rio

Vai ao encontro do rio
Que lhe dá a ilusão de ser mar
Sem medo das nuvens e do frio
Para ficar ali, parado, a olhar

Não consegue despir a dor
Após mais um dia passado
Nos corredores do terror
Que o deixam tão arrasado

Parece um autómato a andar
Pelas ruas da cidade que ama
Sem ter tempo para sonhar.
Até que alguém o chama

Um polícia faz-lhe sinal.
É para desaparecer
Como se fosse ele o mal
Que está a deitar tudo a perder

O agente nem sequer sonha
Que ele é um simples enfermeiro
Que fura esta Lisboa tristonha
Antes de apanhar o cacilheiro

Vai apenas ao encontro do rio
Que lhe dá a ilusão de ser mar
Sem medo das nuvens e do frio
Para ficar ali, parado, a olhar
  
Luís (Alves) Milheiro


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

sexta-feira, 27 de março de 2020

"Amo o Tejo..."



«[...] Nada disso me interessa, nada disso desejo. Mas amo o Tejo porque há uma cidade grande à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto andar de rua da Baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a majestade irregular da cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de São Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido variadíssimo de Lisboa. [...]»

[Bernardo Soares, in "Livro do Desassossego"]


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sábado, 21 de março de 2020

"Olhar o Tejo" (e esta?)




Olhar o Tejo


Sempre que desço até ao cais
Fico por ali, encantado a olhar
Maravilho-me com as barcas e os arrais
Mesmo sem saber onde fica o mar

Olho para Norte e para Sul
Para toda aquela largueza
De água pintada de verde e azul
Que me enche os olhos de beleza

Prefiro ficar por ali a sonhar
Nunca pergunto a ninguém
Onde acaba o Tejo e começa o mar
Ou para que lado fica Belém

Sei que um dia vou descobrir
E depois nunca mais esqueço
Sem tão pouco deixar de sorrir
Para este rio, tão belo e tão avesso

Sempre que desço até ao cais
Fico por ali, encantado a olhar
Maravilho-me com as barcas e os arrais
Mesmo sem saber onde fica o mar

Nunca pergunto a ninguém
Onde acaba o Tejo e começa o mar
Ou para que lado fica Belém
Prefiro ficar por ali a sonhar

[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)


terça-feira, 17 de março de 2020

O Tejo, entre as Ausências e o Encanto...


O Tejo entre as Ausências e o Encanto...

Enquanto percorres as ruas
pensas nos teus amigos, ausentes,
que as deixaram quase nuas
e tornaram estes dias tão diferentes.

O vento forte faz-te companhia
e força as árvores a uma dança
insinuante e povoada de energia
que te dão tudo menos esperança.

Tens algum receio de chegar ao cais
que só pode estar uma tristeza
sem os teus companheiros habituais
povoados de histórias sem subtileza

Ainda não chegaste ao fim da rua
e já vês o Tejo, a querer espreitar.

Mesmo sem qualquer barca ou falua
ele é um encanto para qualquer olhar.

[Luís (Alves) Milheiro]


(Fotografia de Luís Eme - Tejo)

sábado, 7 de março de 2020

O Tejo ao Fim da Tarde...


A tarde fugia e um Cacilheiro navegava no Tejo, com o olhar preso ao cais de Cacilhas.

Lembrei-me dos tempos em que ficava à tua espera, sem ter a certeza, se era aquele o cacilheiro, que te trazia de volta a casa...

Entretanto passaram mais de duas décadas e o mundo é ligeiramente diferente.

Ainda não havia telemóveis, nem dava muito jeito, fazer "sinais de fumo", de uma margem para a outra...

O comboio da ponte, o teu transporte de hoje, ainda era só um projecto...


(texto meu, de memória...)

(Fotografia de Luís Eme - Cacilhas)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

O teu Olhar Brilha quando Olhas o Tejo...


«O teu olhar brilha e ganha vida quando olhas o Tejo.

Sentes-te feliz por sentires que ele vive uma "segunda vida", que já passou o tempo em que quase se limitava a ver passar os cacilheiros. Agora está sempre cheio de barcas, de múltiplos tamanhos e modelos, que levam os turistas até à foz... e depois voltam.

Até o Mar da Palha está diferente (o teu avô contou-te a história do seu nome, que ele começou a ser chamado desta forma pelos pescadores que chocavam com paus, palhas e juncos, por ali ficavam a flutuar, arrancados pelas correntes e pelas marés vivas, das margens das lezírias). Está mais vivo, mais azul...»


(texto meu, com a tentação de ser a legenda da fotografia...)

(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O "Fado Maluda"...


Hoje recordo o "Fado Maluda", escrito pela poetisa, Rosa Lobato Faria, cantado por Carlos Zel, com Lisboa e o Tejo...

Fado Maluda

Nasceu guardiã dos sonhos
tem a magia nos olhos
traz os segredos na mão.
Torna Lisboa mais bela.
Quando pinta uma janela
Logo se abre o coração.

São quiosques, são telhados
e há pardais alucinados
embriagados de Tejo
e uma cegonha perdida
confusa, pediu guarida
numa tela de além-Tejo.

Tonalidades secretas
azuis da Prússia, violetas
ardências de chão queimado
e onde a noite principia
p'ra não morrer a magia
poisa os pincéis, canta o fado.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)


sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A Impressão de se Morar num Romance...


António Lobo Antunes na sua estreia literária, com a "Memória do Elefante", foca Lisboa e o Tejo de uma forma peculiar:

«[...] Na noite de Lisboa tem-se a impressão de se morar num romance de Eugene Sue com página para o Tejo, em que a rua Barão de Sabrosa é a fitinha desbotada de marcar o lugar de leitura, apesar de os telhados onde florescem plantações de antenas de televisão idênticas a arbustos de Miró. [...]»


(Fotografia de Luís Eme - Olho de Boi)

domingo, 19 de janeiro de 2020

"E todos os azuis me lembram as águas de um rio..."


«[...] E todos os azuis me lembram as águas de um rio que, em Lisboa, nem chega a ser rio porque, como dizia a minha querida Amália; "dali a bocadinho já é mar".
De tantos rios onde o meu olhar navegou, nenhum tem esta coisa de ser quase mar, e não é pela proximidade da foz ou pela sua imensa largura, é que ele tem mesmo uma atitude de mar. Por isso o Fado se apropriou tantas vezes da sua personalidade marinha para falar dos naufrágios mais violentos que um coração pode suportar. [...]»


Pequeno excerto da crónica "Manhãs de Insónia" (com o título "Por tua Causa") de Tiago Torres da Silva, publicada no "Jornal de Letras" a 20 de Dezembro de 2006.


(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

"Amo-te Lisboa Virada ao Tejo"


Amores de e por Lisboa... de Rogério Martins Simões:


Amo-te Lisboa Virada ao Tejo

  
Dizem que um dia alguém cantou…
Que por amores Lisboa se perdeu!
Por amores se perde quem lá voltou.
De amores se perde quem lá nasceu.

Dizem que um dia alguém contou.
Que uma moira cativa no Tejo desceu.
Por amores, Lisboa, a moura libertou,
De amores, por Lisboa, a moira morreu.

Juntaram-se os telhados enfeitiçados,
Apertadinhos os dois e entrelaçados,
Num fado castiço, numa rua de Alfama.

E o Tejo, que é velho, beija a Cidade:
Morre-se de amor em qualquer idade,
Perde-se por Lisboa, quem muito ama!



(Fotografia de Luís Eme - Lisboa)